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Mostrando postagens de Março, 2012

O REI DA NOITE >> Zoraya Cesar

Detestava gatos. Nunca entendera como alguém pudesse ter esse bicho como de estimação. Brincava dizendo que só conhecia o de estimaCão.
Mas – e tem sempre um “mas” - um dia ele conhece uma felina gata de duas patas, digo, pernas, e que pernas!, maravilhosa, loura (loura!, babava ele), enfim, perfeita, tanto mais que parecia muito a fim de conhecê-lo melhor. E vai aqui, volta dali, ela revela que adorava gatos; mais, que tinha um em casa, não à toa chamado Rei, e que jamais se envolveria com um homem que não gostasse de gatos.
Ele gelou. Por muito pouco não confessara sua ojeriza e que tinha lá suas desconfianças contra homens que gostavam de gatos.  Mas conteve-se a tempo, porque ela era mesmo sensacional e ele queria sair dos entretantos e chegar aos finalmentes. Cinicamente, desfiou uma série de elogios aos felinos e disse que adoraria conhecer o bichano. Caindo na conversa mole, ela o convidou para tomar alguma coisa em sua casa. Sim, exultou ele, vou tomar mesmo alguma coisa...
A …

RECINTO-MUNDO >> Carla Dias >>

Foi ensinado a ele, por um pai calejado de tantas voltas que a vida lhe deu, que a melhor forma de se sobreviver é se impondo, e tratando a si como o indivíduo de maior importância no recinto. Até aí, quem pode questionar? Se cada um abrir mão da importância de quem é, jamais terá o que se tornará, apenas andará em círculos.
Porém, esse pai não ensinou ao filho com a gentileza dos sábios, que mesmo enquanto impõem provações, não ferem com a agudeza da mágoa, não descartam a benevolência adquirida com o amor. E assim, ele cresceu menino carrancudo, dos que disputa espaço em todos os lugares, até mesmo naqueles aos quais jamais pertenceu, e sem se importar se, durante a sua batalha pessoal, cometia o grande erro de prejudicar outras pessoas.
Afinal, ele acreditava ser o indivíduo de maior importância no recinto.
Apesar da dureza que lhe acometeu, com o passar dos anos, o menino, agora um adulto profissionalmente bem-sucedido, negou-se a seguir o conselho do pai, e decidiu cuidá-lo até o úl…

CONFESSIONÁRIO >> Albir José Inácio da Silva

Desde de que me entendo por gente estou às voltas com esse negócio de pecado. Quando adulto o que consegui foi não me importar mais com os acusadores. Mas os pecados mesmos, esses nunca me deixaram.

Na infância os mais graves eram malcriações, pirraças e língua para os coleguinhas. A admoestação me trazia remorsos e obrigava a promessas de não repetir. Em vão. No dia seguinte lá estava eu fazendo tudo de novo. Era mais forte que eu. Eu bem que gostaria de agradar, ser um bom menino. Mas o que conseguia era adicionar outros pecados que a idade ia me apresentando.

Na adolescência acrescentei pecados bem mais graves, segundo me disseram, sem me livrar das culpas da infância. Pequei com o pensamento, com os lábios, mas sobretudo com as mãos. Enquanto era advertido sobre os perigos do pecado, meus pares, principalmente os de saia, me incentivavam a pecar. O Senhor não sabe como é difícil porque o senhor é Padre.

Na universidade pecados sociais se juntaram às anteriores desobediência e luxúria…

UM HOMEM VELHO >> Eduardo Loureiro Jr.

De vez em quando, me sinto um homem velho. Não um velho gagá de asilo, nem o velho sábio de Caetano. Apenas um homem velho de meiaidade.

Quando em vez, me interessam mais os anos 1980 do rock nacionaldo que os anos 2040 da ficção científica. As lembranças têm mais valor que as esperanças. Meu olhar troca bolas de cristal por espelhos retrovisores. Vejo a vida não como um chamativo tapete vermelho que se desenrola, mas como uma cortina cinza e gasta que se fecha.

Nesses dias, penso na morte não como uma distante fatalidade humana, mas como uma amiga saudosa que tenho certa pressa em rever. Desimportam-me todas as coisas que só serão resolvidas para além de meu escasso tempo neste planeta: o analfabetismo, a poluição, a corrupção, a discussão, a projeção, a guerra...

Não procuro por novos discos, filmes, livros. Trato de retomar os que já me socorreram uma vez. O pouco tempo que penso que tenho, escolho dedicá-lo a Chorando baixinho, do disco Dois irmãos, de Paulo Moura & Raphael R…

GRANDES E PEQUENAS QUESTÕES [Ana Gonzalez]

O momento da civilização ocidental e da sociedade brasileira é raro: Primavera Árabe, crise no mundo e no Mercado Comum Europeu, problemas com nossa Educação, com a nossa Justiça e com a classe política brasileira. Grande questionamento nas relações profissionais e pessoais. Eu poderia ir longe nesta lista. Mas, não são essas as questões que nos movem. Nem sempre saímos em busca de resoluções para essas questões importantes, que mereceriam mais atenção de nossa parte. Na verdade, são pequenas questões que nos colocam fora dos eixos. A natureza humana responde prontamente à chamada delas. Mexe em nosso estômago, cabeça, coração. Parecem até essenciais.

Sei bem que viver em cidade grande é um perigo a cada esquina e pago o preço dessa insegurança, visto que há outras coisas que me agradam nesta metrópole paulista, muito amada.

Mas, confesso que na segunda quinzena do último janeiro fiquei em dúvida. Fui a um jantar em casa de amigos numa noite de sábado, no bairro de Pinheiros. Como não h…

EU MEREÇO >> Fernanda Pinho

O sentimento de não-merecimento é sedutor. Porque a partir do momento em que você decide que não merece uma coisa, você já não precisa mais dispensar esforços por aquilo. Se você acha que não merece, só lhe resta cruzar os braços e ver a vida passar o que, convenhamos, é muito, muito fácil. Sempre caí nas armadilhas do não-merecimento, por pura falta de raça para tentar ser feliz. Resultado: auto-sabotagens homéricas. Mas, de repente, um questão óbvia passou a gritar em meus ouvidos: por que eu não mereço? Ou melhor: por que eu mereço? Mereço por que já passei por maus bocados entregando minha confiança a quem não merecia sequer um olhar meu. Mereço por todas as noites que chorei. E por todos os dias que sorri só para não incomodar ninguém. Mereço porque, mesmo não sendo muito inteligente, mesmo não sendo muito bonita, sou muito boa. Tenho um coração do tamanho do mundo. Sou altruísta. Sou generosa. Sou cheia de amor. Respeito as pessoas. Nunca sou inconveniente. Nunca incomodo ningué…

QUARTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>

Quando se olha no espelho, mergulha no passado, fisgando pela memória a época em que ainda não exercia tal profissão. Nunca imaginou que sua vida tomaria curso tão diferente do que imaginara para si. Depois de colher vivências, das dores aos amores, de se tornar filha, esposa e mãe, de se estabelecer como uma cidadã comum, com a alma repleta de desejos, e de angariar boa parte das realizações que lhe cabiam, veio a vida e mudou tudo.

Lembra-se que, ainda menina, escutava a mãe e as tias cochicharem sobre o pai delas. As moçoilas temiam o homem, ao mesmo tempo em que o admiravam profundamente. Às vezes, ela as pegava chorando miúdo na presença da outra, empoleiradas na dispensa. E no seu entendimento de criança, nutriu o medo de que o avô a faria chorar daquele jeito algum dia.

E ele o fez...

Porém, não foi miúdo ou às escondidas, porque a menina nasceu com bons pulmões e corajosa, não se permitindo esconder. Chorou copiosa e barulhentamente na presença do avô, da mãe, do pai e das tias, …

ANSIOSIDADE MÁXIMA >> Clara Braga

Essa semana é a minha segunda semana de aula na faculdade. Isso mesmo, já estamos em março e eu estava de férias desde dezembro! Mas é assim mesmo que funciona a Universidade de Brasília quando não tem greve no meio do semestre, no final do ano temos férias de 3 meses!

Você agora deve estar pensando algo como: “Que bando de gente falgada! Três meses de férias é muito mais do que o necessário!”

Pois é, é demais mesmo, concordo. Mas acreditem se quiserem, depois que essa realidade vira rotina na nossa vida, 3 meses acabam passando rápido demais e quando as aulas estão prestes a começar nós ficamos com aquela sensação que todo mundo conhece muito bem, de que agora sim é que você precisa descansar. Na primeira semana de aula você já está tão cansado quanto na última.

Mas até que esse semestre foi diferente, senti uma sensação que há muito não sentia. Eu acordei bem, sem a menor dificuldade de sair da cama, e nem precisei usar a função soneca do meu celular. Fui para a aula feliz, ouso dizer …

A PRIMEIRA HORA DO DIA >> Kika Coutinho

6 horas da manhã. Levanto rápido. “Quem te viu e quem te vê, hein, neguinha?", digo para mim mesma diante do espelho. Sem despertador nem nada, parece outra pessoa, só falta agora comer salada, aí pronto, vou ser outra mesmo. O que não seria nada mau – continuo, enquanto me aproximo do espelho – com essas olheiras gigantes. Gente, quando foi que isso apareceu, e tem umas bolsas – eu examino, assustada, ai não, chega, vamos disfarçar isso e pronto. O que os olhos não veem o coração não sente, completo, besuntando o rosto de corretivo.

Tudo bem. Corro para pôr uma roupa, procuro aquele salto que não dói o pé, e os carrego na mão até a sala; ando na ponta do pé e abro devagar a porta do corredor. Se uma das meninas acorda agora, vai ser fatal. Já passa das 6:30 quando tento achar alguma coisa sem lactose na cozinha. Pão integral, ai, que fome. Abro o freezer e pego o leite da Olivia, aliás, o do meu peito, que tirei e congelei para conseguir sair mais cedo. Deixo em cima da pia pa…

SAUDADE DO PALQUINHO >> Whisner Fraga

O ambiente universitário sempre me atraiu. A pretensa liberdade, a mente aberta para os clichês contemporâneos, os mestres preconceituosos e despreparados e, finalmente, os espaços de socialização. Eu esperava ansioso o fim da tarde para me deslocar até o câmpus e me divertir, após um dia estafante. Chegava à porta da sala da minha turma e fazia um sinal para o Gilberto e então seguíamos para a lanchonete. O dono já sacava uma cerveja, dois copos e uma ficha da sinuca e colocava tudo em cima de nossa mesa cativa.

A partir dali, fomos ficando craques em literatura, nosso assunto preferido. Chegamos até ao absurdo de uma competição, para ver quem lia mais. Que imprudência. E as coisas na universidade aconteciam naturalmente, de maneira que um sujeito se achegava, outra menina rodeava e, em pouco tempo, havia uma roda animada em torno da mesa, discutindo desde o aumento do preço do xerox até a gramática gerativa transformacional de Chomsky. Era assim todo dia, com pequenas variações em …

A VIDA DA GENTE >> Maria Rachel Oliveira

A vida da gente

"Tempo, tempo, tempo, tempo". Dizia o refrão da trilha sonora da primeira novela das seis que se soube ter feito sucesso. Acabou na Rede Globo há coisa de um mês, se não me engano. E porque fez tanto sucesso? Sempre tinha alguma situação naquele folhetim com que a gente se identificasse. Nós no outro... mas voltemos ao tempo. O que, diabos!, é o tempo? Como medir o tempo?

Tempo, pra mim, se mede com emoção. É tanto quando aquele momento chato não passa quanto quando aquela situação que você sonhava se concretiza e passa tão, tão rápido...

Relógios não medem o tempo. Eles medem coisa outra, que nem sei que nome dar. É preciso demais para medir a vida.

Mas porque falar de tempo? Coisa mais batida! Mas dia desses descobri um projeto bacanérrimo, de um moço querido que conheço do twitter, o Nick Ellis, lançado em janeiro. Chama-se Projeto 366. Ele se propôs a tocar uma música por dia, durante o ano, pra registrar essa passagem do tempo de um jeito muito, mas muito …

PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER >> Zoraya Cesar

Dizem que todo o cuidado é pouco; que o seguro morreu de velho, mas o desconfiado ainda vive; há que se dormir com um olho aberto, outro fechado; colocar um pé atrás, outro na frente; fazer o bem, mas olhar a quem.  Ditados antigos, que, passando de geração a geração, tentam nos alertar que nada é o que parece, quem vê cara não vê coração e que tudo o que é sólido desmancha no ar (tá bom, essa citação é de Marx, mas cabe perfeitamente ao caso, não pude resistir). Passo, então, a contar a história de Wanda, para mostrar que nossas Avós tinham razão: um olho no padre, outro na Missa. Inteligente, meiga, honesta, generosa, Wanda era também uma boa pessoa. Claro que tinha seus defeitos, eu não disse que ela era perfeita. Vejam, por exemplo: não sendo exatamente ingênua, costumava tirar os outros por si, achando que todos eram corretos como ela, esquecendo que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Vivia com o Marcos, e para ela, não havia marido melhor. Era Marcos no céu …

TOLERÂNCIA 4,5 >> Fernanda Pinho

Tem uns dois meses que ele resolveu dar pinta por aí e, desde então, é um exibicionismo só. Já chegou chegando, na dianteira, gris, reluzente e longo, como os outros: meu primeiro fio de cabelo branco. Me simpatizo com ele e nem tenho feito questão de escondê-lo. Enquanto é filho único, devo dizer. No terceiro que aparecer, já estou pronta para aplicar uma mão de Marrom Sedução (queria tanto ter a profissão das pessoas que dão nome às tintas de cabelo e aos esmaltes).
O que noto com certo interesse é que a idade vem me trazendo não apenas o ônus estético, mas também o bônus psicológico. É aliviante perceber o quanto me tornei mais tolerante.
A Fernanda de dez anos atrás tinha um "quê" de dona da verdade e destilava críticas severas ao gosto alheio, como se o seu próprio gosto fosse o único permitido. Se alguém gostava de axé, pagode ou sertanejo, não merecia meu respeito. E alguém estava interessado em ter meu respeito? Claro que não. Mas eu achava que sim. Hoje eu aprend…

DÉGRADÉ >> Carla Dias >>

Minha máscara: dégradé.
Não reconhece? Insisto, porque debaixo dela eu moro, e se aspira conhecer a mim, dê algum sinal, senão me escondo, fico submersa, debaixo das plumas e mágoas, neste aconchego equivocado.
Minhas mãos... Saiba que elas já tatearam a intensidade. Plantaram, colheram, arrebanharam: silêncios e desenhos de sombras. Tocaram o vento. E também acenaram às fatalidades.
Veja que não sou esboço do que sonhei ser um dia. Na infância dos meus sonhos eu sucumbiria às descobertas, quando adulta, e não haveria limites para a sapiência e a ciência sobre os sentimentos que desejasse conhecer. Não haveria álibi que me livrasse da culpa, ré que seria por desejar da vida cada farpa, cada afago. E minha mãe me ensinou o amor sem caras e bocas, sem bolsos, sem raça. Minha mãe me ensinou o amor indiferente às distrações que pudessem tirar dele, na essência do seu significado ainda tão enigmático, a honestidade. E ao amor honesto delega-se o incondicional. Sendo incondicional com o outro…

S.C.M >> Clara Braga

Existe um fenômeno, um tanto inexplicado, na minha opinião, que algumas pessoas acreditam e outras já não levam tanta fé nele. Esse fenômeno que insiste em nos perseguir é a tal da coincidência.

Eu entendo coincidência como um fato, que tem o seu leve toque de mistério, que acontece mas que a gente não sabe explicar bem como e nem por quê. A partir dessa definição eu posso dizer que eu até acredito que a coincidência exista, mas como não acredito muito que uma coisa possa acontecer por acaso, assim sem motivo nenhum, simplesmente acontecer, eu acabo não levando muita fé nela. Acho que tudo que acontece com a gente tem um porquê, mesmo que esse porquê não seja aparente.

Por exemplo, se estamos pensando em uma música e ela toca no rádio, como com certeza já aconteceu com a maioria das pessoas, eu acho que tem um porquê, não que seja apenas coincidência. Assim como também acho que tem um porquê do nosso telefone tocar e ser exatamente a pessoa em quem a gente vem pensando nos últimos tem…

AMOR E NEGÓCIOS >> Albir José Inácio da Silva

Tito daria um ótimo empresário não fosse o coração. Não que tivesse um coração doente, é que bom coração também atrapalha os negócios.

Na infância já lhe doía no couro a generosidade. Parte das balas e doces que vendia acabava por matar a fome sua e dos amigos. As contas não fechavam e no final do dia recebia nas costas a paga de sua bondade sob a forma de varas e cintos na mão da tia.

Mas dos amigos que alimentava também recebia ingratidão, furtos e pontapés. Não se emendava, e no dia seguinte distribuía de novo os doces, sorrisos e abraços, como se a vida dura não tivesse o condão de fazer egoístas. Claro que assim não lhe prosperavam os negócios nem melhorava a vida.

Com o fim da adolescência sonhou negócios maiores. Por essa época herdou Natacha de um gigolô amigo que morreu assassinado. Fez planos para a mulatinha mas seu coração de novo interferiu. Apaixonou-se por ela, que por isso não lhe rendeu um tostão, rendeu despesas, embora não tivesse qualquer ambição — bastava-lhe o …

MEU PAI, NOSSO PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Uma das principais qualidades de meu pai é sua tranquilidade em emergências. Embora seja um sujeito teatral, daqueles que faz drama por coisas banais, quando uma situação difícil emerge, meu pai exerce como poucos sua capacidade de empatia e resolução. Pode ser um simples pneu furado, ou então uma batida de carro, uma doença venérea ou a perda da chave de casa. Na minha infância e na minha adolescência, presenciei, por algumas vezes, meu pai tomar conhecimento da situação, fazer uma ou duas  perguntas para se inteirar melhor do assunto e já partir para uma ação tão direta que o problema, ou pelo menos o desamparo diante do problema, desaparecia em minutos. E uma coisa que me impressionava muito era sua economia de palavras. Durante a resolução dos problemas, reinava um silêncio tranquilo, ausente de qualquer culpabilização. Ficávamos os dois fazendo o que deveria ser feito, sob a orientação dele.

Lembrando isso agora, me ocorreu como aproveitei pouco essa grande qualidade de meu pai. …

MATERIAL GIRL, NOT [Carla Cintia Conteiro]

É ingenuidade esperar uma resposta positiva vinda de mim quando a pergunta é algo como: - Sabe o Fulano do Citroën C3? Não, não sei, porque sou desligada e não reparo no carro que as pessoas dirigem. Também perde tempo quem investe tentando impressionar com o relógio, os eletrônicos, o celular, os sapatos e as roupas das marcas e dos modelos certos. Nenhum deles será adequado para mim. Eu simplesmente não vejo esse tipo de coisa. Normalmente, o que observo nas pessoas em relação ao que usam pendurado ao corpo é se as peças estão limpas. A desarmonia sempre grita, evidentemente, como certas coisas que não se encaixam, causam estranheza ou destacam o que desfavorece o observado.Mas, de modo geral, não me interessa se alguém gastou o que tinha e o que não tinha para deixar o cabelo de determinada cor ou aparência. Cada um sabe como manter as pazes com o espelho. A única coisa que perceberei é se os fios aparentam terem sido lavados num passado próximo e se cheiram bem quando abraço a pessoa…

DIA INTERNACIONAL DOS HOMENS >> Fernanda Pinho

Outro dia escrevi aqui mesmo que, havendo outra vida, quero voltar como homem. E hoje volto a ratificar minha simpatia pelo gênero masculino. Esses pobres injustiçados despertam em mim o mais nobre sentimento de compaixão e, por isso, peço licença às mulheres para falar com eles.
Meus caros, esqueçam um pouco do futebol e do XBox e percebam o que está acontecendo: as mulheres conquistaram a famigerada igualdade de direitos, deram uma rasteira em vocês, assumiram presidências de grandes corporações e de grandes países, estão em franca ascensão rumo à dominação do mundo e vocês não vão fazer nada?
Vocês já foram tão bons em estratégias de guerra e esquemas táticos. Onde foi parar tamanha destreza? De certo gastaram tudo tentando provar que são melhores no trânsito. Quanta bobagem. Quer um conselho sincero de quem já esteve na posição inferior na qual vocês se encontram hoje? Foco no equilíbrio. Agora é a hora de vocês lutarem pelas igualdades dos direitos.
Comece pelo mais fácil: recu…

DEUS, QUESTIONAMENTOS E BOLINHAS DE GUDE >> Carla Dias >>

Conversando com um amigo, lembrei-me de uma pessoa que conheci há muitos anos, quase trinta, para ser mais exata. Esse homem tinha um sorriso muito bonito, daqueles que antecipam uma bondade genuína, que se faz admirar.
Tal homem aparecia em casa, sábado ou outro, para falar sobre Deus e as suas crias. Eu costumava frequentar tais reuniões, principalmente porque já tinha me desligado da religião da infância, o catolicismo, por não acreditar que era pecado muito do que eles pregavam ser, como ler os livros sobre bruxaria e deuses gregos que andava lendo.
Nessas reuniões, eu aprendi a pensar. Devo a esse exercício o aguçamento da minha curiosidade sobre a religiosidade e a humanidade, porque, independente da religião daquele homem, ele conseguiu incutir em mim o desejo de mergulhar no tema, e a liberdade de compreendê-lo e questioná-lo sem me sentir uma contraventora da fé, mas apenas uma pessoa exercendo o direito de saber mais sobre muito do que a maioria pregava sem dar direito ao ques…

PAGAR PARA ME ASSUSTAR? EU NÃO!
>> Clara Braga

Outro dia meu pai estava me contando a nova filosofia de vida dele. Ele leu um texto de Rubem Alves que dizia algo que eu não vou saber escrever nas mesmas palavras, mas vou passar o mesmo sentido.

Dizia que ele já passou da metade da vida dele, e então ficou mais seletivo, não quer estar com pessoas que ele não gosta só porque precisa, ou fazer coisas das quais não tem vontade só pra agradar alguém. Meu pai achou isso muito sábio, e de fato é. Então agora ele disse que vai ser mais seletivo também.

Eu, apesar de concordar tanto com Rubem Alves quanto com meu pai, não posso ainda me dar ao luxo de ser tão seletiva assim, mas com certeza posso ser seletiva em alguns aspectos, e percebi isso nesse final de semana quando decidi assistir ao filme A Mulher de Preto.

Tinha ouvido algumas pessoas falarem bem do filme, então decidi assistir, com a certeza de que o filme teria alguns sustinhos leves, mas teria uma história que fizesse valer os sustos. Durante o filme, o primeiro susto foi tran…

AO TRABALHO >> Kika Coutinho

Queridas filhinhas,

Ai, filhas! A mãe de vocês é uma melodramática de primeira! Imagine na adolescência o quanto vocês vão se envergonhar. Eu chorando pelos cantos por tudo...

Agora mesmo, prestes a voltar ao trabalho, estou aqui enxugando as lágrimas enquanto procuro o crachá. Meu Deus, onde deixei a mochila do trabalho? E os sapatos, eu usava saltos assim? Será que consigo me equilibrar neles? Penso, assoando o nariz.

Filhas, meus amores, eu vou voltar a trabalhar e nem sei como lhes dizer isso. É tão banal, né? Mas não tenho coragem de dizer. Não sei como explicar que não pegarei vocês na soneca da tarde, que não darei o almoço, que não rolaremos mais na grama do parquinho, que não participarei mais dos infindáveis pic-nics. Ai, filhas, nem o banho sei se vou conseguir dar. Como posso explicar isso? Eu vou sempre tentar chegar pro jantar, eu tento correndo feito uma louca, mas não vou deixar que durmam sem o meu “boa noite”, ainda sabendo que é tão pouco, aceitem que lhes ofereça i…

FAZ SENTIDO >> Whisner Fraga

Estudávamos inglês até ali porque a disciplina fazia parte do currículo, mas eu não conseguia enxergar alguma aplicação para aquele conteúdo, de forma que frequentava as aulas sem muita empolgação. Isto é, por que estudar outro idioma, se eu não conhecia nenhum estrangeiro e se só falava em português com meus amigos? O mesmo acontecia com as demais matérias. Por que estudar equações do primeiro grau? Por que me dedicar a conhecer os pormenores de uma bromélia, por que decorar as capitais de todos os estados do país, por que calcular o tempo de uma reação química e assim por diante? Eu estudava por estudar, o que, em si, não parece ser errado. Mas aí, teve um ano, no Colégio Polivalente, que a coisa mudou. Dei sorte e só neste período tive uns seis professores fantásticos, daqueles que faziam a gente pensar: puxa, os caras são gênios, devem ganhar uma fortuna. Sei lá, eu ligava conhecimento a sucesso financeiro, ou seja, reconheço que era ingênuo.

Então, esse cara, não me recordo o nom…