sábado, 10 de março de 2012

MATERIAL GIRL, NOT [Carla Cintia Conteiro]


É ingenuidade esperar uma resposta positiva vinda de mim quando a pergunta é algo como:
- Sabe o Fulano do Citroën C3?
Não, não sei, porque sou desligada e não reparo no carro que as pessoas dirigem. Também perde tempo quem investe tentando impressionar com o relógio, os eletrônicos, o celular, os sapatos e as roupas das marcas e dos modelos certos. Nenhum deles será adequado para mim. Eu simplesmente não vejo esse tipo de coisa.
Normalmente, o que observo nas pessoas em relação ao que usam pendurado ao corpo é se as peças estão limpas. A desarmonia sempre grita, evidentemente, como certas coisas que não se encaixam, causam estranheza ou destacam o que desfavorece o observado. Mas, de modo geral, não me interessa se alguém gastou o que tinha e o que não tinha para deixar o cabelo de determinada cor ou aparência. Cada um sabe como manter as pazes com o espelho. A única coisa que perceberei é se os fios aparentam terem sido lavados num passado próximo e se cheiram bem quando abraço a pessoa.
Muito mais que o manejo dos talheres ou o valor da conta que podem pagar num restaurante, observo como as pessoas tratam os garçons. Quem dá bom dia aos porteiros, seguranças, profissionais da limpeza, empregados domésticos? Essas são as pessoas que me interessam.
Gosto de dinheiro, sim. Preciso dele para meus luxos: estar com familiares e amigos e viver em pleno gozo da minha saúde física e mental. Para este último item, contabilizo como fundamental saciar as necessidades fisiológicas, ter segurança, amor e afeto, mas pulo do reconhecimento e prestígio, sem escalas, para a autorrealização (Hierarquia das Necessidades Normais, de A. H. Maslow). Sim, eu adoro me emperiquitar. “Quem não se ajeita a si se enjeita”, não é mesmo? Contudo não sou uma fashion victim. Sim, eu pratico atividade física e procuro comer direito, mas não sou neurótica com pesos e medidas.
E não vou, nem nunca fui, atrás de ostentação. Como já disse uma vez, sinais de status atraem o tipo de pessoa que não quero pra mim. A gente pesca de acordo com a isca que joga.
Entretanto, comemorar suas conquistas é fundamental. Coisa mais linda é gente que transborda sua felicidade ao realizar, com suor e batalha, um sonho tão acalentado. Já dizia Caetano, “gente é pra brilhar”. Então, se incomoda o vizinho ao lado, melhor que este mude de assento.
Mas por maior que seja a satisfação que eu tire de algo que eu consiga comprar, minha vaidade nunca foi por esse caminho. Minto, uma vez quase peguei esse atalho para a desgraça. Felizmente acordei a tempo. Pessoas que cruzam nosso caminho como contraexemplo também são bênçãos, se é que você me entende.
O fato é que o meu ponto fraco, aquele facilmente detectável e manipulável pelos bajuladores era outro, mais voltado para inteligência e erudição. Até isso está mudando. Hoje me regozijo muito mais quando me dou conta que estou desenvolvendo a sensibilidade e a cultura (“aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”, segundo Edward B. Tylor).
Então se você não lembra o nome de alguém e quer que eu o ajude a descobrir, em vez de descrever o modelo do seu carro, seu cargo, seu “90, 60, 90”, a roupa que usava em determinada ocasião, experimente perguntar:
- Lembra daquela moça com o sorriso largo e uns olhos brilhantes?
Sim, definitivamente eu me lembro dessa pessoa!


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9 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, me fez lembrar da música "Saia de retalho", da Flávia Wenceslau:

"Não quero sapato e meia
Quero saia de retalho
Dessa que rodeia
Uma fita no cabelo jamais fica feia
Uma rede na varanda pra ver a vida intensa

"Não quero relógio caro
É o tipo de emoção que não me vale a pena
Eu prefiro tua companhia no cinema
Um sorvete, no meio da tarde
Me faz tão feliz"

albir disse...

Não sei o quanto consigo, Carla, mas é esta a atitude que procuro também. Parabéns pelo texto.

Danny Reis disse...

Adorei, adorei, adorei, CCzinha! Por isso que gosto de você. :)
Eu também sou bem assim. Marca de carro comigo então, não cola mesmo. A não ser que a pessoa em questão tenha um carrinho com um design diferente, como um Mini Cooper, que eu acho uma graça. Sei lá quanto custa um bichinho desses. Só acho bonito, estiloso. Confesso que também gosto de Fuscas. Então, não é mesmo a questão do dinheiro.
E estilo eu observo sim. Se a pessoa sabe se ajeitar, como você disse que faz com você mesma. Normalmente são pessoas mais cuidadosas com detalhes. Mas sei que isso também não é importante como o caráter.
Marca não me pega. "Não me amarra dinheiro não"!
E sim, eu vejo o sorriso largo, o astral bom... Isso é que interessa, né? O resto é só o resto.
Um beijão!

Carla Cintia Conteiro disse...

Oi,Eduardo!

Não conheço essa música, vou procurar.
A que me ocorreu foi uma antiga do Caetano, "Beleza Pura": http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/43871/
beijo

Carla Cintia Conteiro disse...

Valeu, Albir!

Carla Cintia Conteiro disse...

Danny,
Você sabe que a recíproca é verdadeira. :)
Sobre se cuidar, acho que só quem se cuida sabe cuidar também dos outros. Não creio em quem "cuida tanto dos outros que esquece de si". Estes normalmente costumam, mais cedo ou mais tarde, apresentar as contas de cobrança. :)

beijo.

Carla Dias disse...

Carla, assino embaixo!
Há muito mais para sabermos sobre o outro, para aprendermos sobre ele, do que as marcas que consome. Ótima crônica! Beijo!

Alone disse...

Você conceguiu apresentar oque por coisidencia penso, obrigado por esboçar em escrito oque tentei um dia escrever.(Alone)

Zoraya disse...

Bom demais. E adorei o "você pesca conforme a isca que joga". Verdade pura. Beijos