sábado, 24 de março de 2012

GRANDES E PEQUENAS QUESTÕES [Ana Gonzalez]

O momento da civilização ocidental e da sociedade brasileira é raro: Primavera Árabe, crise no mundo e no Mercado Comum Europeu, problemas com nossa Educação, com a nossa Justiça e com a classe política brasileira. Grande questionamento nas relações profissionais e pessoais. Eu poderia ir longe nesta lista. Mas, não são essas as questões que nos movem. Nem sempre saímos em busca de resoluções para essas questões importantes, que mereceriam mais atenção de nossa parte. Na verdade, são pequenas questões que nos colocam fora dos eixos. A natureza humana responde prontamente à chamada delas. Mexe em nosso estômago, cabeça, coração. Parecem até essenciais.

Sei bem que viver em cidade grande é um perigo a cada esquina e pago o preço dessa insegurança, visto que há outras coisas que me agradam nesta metrópole paulista, muito amada.

Mas, confesso que na segunda quinzena do último janeiro fiquei em dúvida. Fui a um jantar em casa de amigos numa noite de sábado, no bairro de Pinheiros. Como não havia estacionamento por perto, o carro ficou na rua. Quando fui embora, percebi algo errado na maçaneta do carro e, mesmo tendo conseguido entrar no carro, ao sair em movimento pela rua, ouvi o barulho avisando-me de que alguma porta estaria aberta.

Não podia parar naquele momento e lugar. Comprovei a dúvida ao chegar à garagem de casa: o bagageiro estava sem o estepe. Interessante que o malandro-meliante-vagabundo-bandido surripiou somente o pneu. Deixou o macaco, os CDs, o som, o par de luvas, o guarda-chuva. E o carro, claro.

Respirei fundo e me preparei para o gasto extra. Na segunda-feira seguinte fui ao telefone e à internet para uma compra de pneu adequado. Pesquisa de preço e modelo.

Na quarta-feira, me dirigi a um bairro mais distante e consegui um atendimento de primeira, com uma equipe mais do que simpática. Era a última roda (sim, amigos, há problema de mercado nesse ramo)... Segundo os rapazes, dei sorte.
Naquela mesma noite, fui visitar uma amiga e filhos em outro bairro. Uma pizza honesta e caprichada entre dezenove e vinte e duas horas comemorou o ano novo, talvez meio passado, mas ainda válido em janeiro.

Ao sair, não gostei nada, porque o barulho (do bagageiro?) se repetiu. Meu coração quase parou. Estacionei o carro e fui verificar assim que pude. Tinham levado o pneu novinho em folha e a última roda!

Primeiramente, fiquei raivosa. Depois, me deu uma frustração enorme. Aos poucos me dei conta de que eu estava um caco. A zero de energia. Impotente, cansada da vida. Foi difícil ir adiante.

Tudo de novo. No dia seguinte, me apresentei à loja de pneus com cara amarrotada e com vontade de chorar, com raiva, com sensação ruim de
quero-colo-mamãe. Fui tratada quase com carinho pela equipe que de novo se pôs a trabalhar. Tive que ir buscar a roda (outra última!) em outro local. O responsável tinha pedido ajuda a um amigo com loja em lugar não distante. Os amigos nos salvam a pele muitas vezes. Contei dessa vez com o amigo do novo amigo (a essa altura o rapaz da loja já era meu amigo).

Mas, tomei a decisão de ir colocar rapidamente um censor mais potente, depois de pesquisa e indicações de modelo, marcas etc. Colocado o novo alarme, procurei apaziguar a mente. Como recuperar a confiança? Lembrei-me de minha fraqueza, da vida do meliante, de sua possível cara, das relações do mercado de pneus entre os bandidos... Ops.

E confesso que não me lembrei nem de leve dos problemas de nossa sociedade e do mundo. Quando será que entro assim em preocupação por essas questões maiores? Algum dia já me sofri assim por elas? É assim mesmo. Tinha entrado na roda viva das questões que tomam o controle de minha vida - essas pequenas -, pois quem disse que sou eu que a dirijo? Fiquei sem rumo, barata tonta, fisgada no fígado, pelo rancor, dor, sabor de fel. Posso desejar coisa melhor, mas estarei sempre à mercê desses aspectos de minha natureza. Emocionalmente um bagaço. Um tempão e energia gastos à toa. Não posso mudar a cidade, nem as relações entre a legalidade e a ilegalidade. Por que, então, deixar-se levar tão completamente? Há esperança de mudança? Por outro lado, poderei um dia fazer a diferença em relação aos grandes problemas da sociedade?

Ainda bem que há equipes de jovens, bons profissionais de plantão que nos salvam quando faltam pneus e rodas no mercado e parecem dar colo quando o estepe some do bagageiro. Salve os amigos e os amigos dos amigos.

Cuide bem dos seus estepes, não facilite.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Ana,
Transformar eventos desagradáveis em crônica ... a grande mágica!