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RECINTO-MUNDO >> Carla Dias >>

Foi ensinado a ele, por um pai calejado de tantas voltas que a vida lhe deu, que a melhor forma de se sobreviver é se impondo, e tratando a si como o indivíduo de maior importância no recinto. Até aí, quem pode questionar? Se cada um abrir mão da importância de quem é, jamais terá o que se tornará, apenas andará em círculos.

Porém, esse pai não ensinou ao filho com a gentileza dos sábios, que mesmo enquanto impõem provações, não ferem com a agudeza da mágoa, não descartam a benevolência adquirida com o amor. E assim, ele cresceu menino carrancudo, dos que disputa espaço em todos os lugares, até mesmo naqueles aos quais jamais pertenceu, e sem se importar se, durante a sua batalha pessoal, cometia o grande erro de prejudicar outras pessoas.

Afinal, ele acreditava ser o indivíduo de maior importância no recinto.

Apesar da dureza que lhe acometeu, com o passar dos anos, o menino, agora um adulto profissionalmente bem-sucedido, negou-se a seguir o conselho do pai, e decidiu cuidá-lo até o último minuto, ao invés de dedicar a outros, aos estranhos, essa função. Irritado, o homem velho e amargurado, até o suspiro final, desferiu-lhe frases duras para destacar a fraqueza desse seu filho, simplesmente porque o menino, agora um adulto profissionalmente bem-sucedido e completamente solitário, não colocou a si, o indivíduo de maior importância do recinto-lar, em primeiro lugar.

Após a morte do pai, ele passou dias trancado em seu apartamento, em área nobre da cidade, quase sem comer, descartando os cuidados essenciais consigo mesmo. A barba cresceu, o perfume importado foi sucumbido pelo mau cheiro pela falta de banho, os cabelos, sempre tão bem penteados, caíram em verdadeira desgraça. E ele assim, sentado no chão do quarto, olhando para lugar nenhum, doendo que só nesse recinto-saudade.

Houve esse dia em que ele respirou fundo e abriu a janela. A claridade invadiu o quarto, inquietou os seus olhos, assumiu o controle. Lá fora, a cidade seguia sem lhe cobrar feitos. Sempre exigiu dos seus funcionários o máximo de dedicação e comprometimento com as suas profissões, portanto, eles sempre foram exemplares. E assim, a sua empresa seguia sem necessitar das suas orientações. Ninguém sentia falta dele. Nenhuma engrenagem da vida deixava de funcionar sem a sua presença.

O banho foi o mais demorado de toda a sua vida. Acostumado a cortar os cabelos em um badalado salão da cidade, rendeu-se ao fascínio da tesoura, e ele mesmo fez o serviço. A barba ele preferiu manter, porque ela o fazia parecer outra pessoa, e naquele momento, sem entender muito bem por que, ele não queria se reconhecer.

Caminhando pelo calçadão, o mar alvoroçado à vista, e ele para, porque quer observar a dança das ondas. Havia se esquecido de como era bom escutar o som do mar, como fossem cochichos ininteligíveis, mas aprazíveis aos sentidos. Lembrou-se de quando era menino e sonhava em comprar uma casa de frente ao mar... E que, adulto, profissionalmente bem-sucedido, solitário, incompetente no lidar com outro ser humano e dono de um apartamento luxuoso de frente ao mar, aprendera a sucumbir a um ensinamento que só lhe provou o quão sem importância uma pessoa pode se tornar neste recinto-mundo, quando tenta conquistá-lo a força, ao custo da felicidade alheia, das realizações que não lhe cabem.

E lhe bateu um alívio, como se somente naquele instante, quando compreendeu como ele era desimportante ao universo que criara para si, conseguisse dizer adeus ao pai, o homem que lhe ensinara a ser a pior pessoa possível, antes de partir e lhe oferecer a oportunidade de ser alguém importante no recinto-mundo, mas como parte dele. Uma pequena parte que, naquele mar, banha a alma, enquanto se reconhece ao avesso.

Nem todo ensinamento é digno do aprendizado.



Comentários

albir disse…
Carla,
Ótimo texto. O que aprendemos não é o que recebemos, mas o que construímos com aquilo que recebemos.
whisner disse…
A redescoberta é sempre solitária. É uma exigência do ego.
Carla Dias disse…
Albir... Obrigada! Você não poderia ter resumido melhor 

Whisner... Concordo. O ego é exigente, e às vezes, bem do manhoso.

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