sexta-feira, 2 de março de 2012

O QUE VOCÊ FARIA? >> Zoraya Cesar

Temos o costume de afirmar que, frente a essa ou aquela situação, reagiríamos assim ou assado, como se nos conhecêssemos tão bem. Mas será que sabemos mesmo, de antemão, as nossas reações? Me diga, então, o que faria diante do caso a seguir.
Amigos de infância, de adolescência e de vida adulta. Aquela amizade sincera, rara de se encontrar. 
E no entanto eram bem diferentes. Beto jogava bola, lutava judô e, gênio da matemática, resolveu fazer Engenharia. O rei das mulheres, que adoravam sua extroversão. Dado nadava e praticava meditação; escolheu Filosofia. O rei das mulheres, que adoravam seu jeito de intelectual tímido. E era exatamente no quesito mulheres que os dois mais diferiam.
Beto só se envolvia com as chamadas “periguetes”. O termo é feio, eu sei, mas era assim que seus amigos falavam, não serei eu a adoçar a realidade. Ele vivia integralmente o “eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também” (aquela música do Roberto Carlos, lembram?) e em troca só recebia as mais baixas traições. Beto era um romântico (um trouxa, diziam os amigos, crudelíssimos).
Por seu lado, Dado saía, bebia e se divertia mas não se comprometia com ninguém. Talvez cansado de tanto ver o amigo se dar mal. Sim, porque  Beto sofria como um cão cada vez que era desprezado (ou melhor, por quem era desprezível).
Até que um dia — e em toda vida tem sempre um “até que um dia” (preste atenção quando chegar o seu) — aconteceu o impensável: Beto encontrou uma moça legal. Verdade que os amigos demoraram um pouco a acreditar, devido ao histórico pouco recomendável dele. Mas essa parte da história termina aqui.
Vamos à parte em que a porca torce o rabo. Vamos ao Dado, pois “até que um dia” chegou para ele também. Nosso amigo apaixonou-se. Perdidamente, profundamente, “betamente”.
Quando tudo aconteceu, Beto estava viajando com a noiva (Já?, espantam-se vocês. Desculpe, esqueci de contar. Carina era tão casadoira quanto Beto, os dois resolveram não perder tempo), então demorou um pouco até serem apresentados, o melhor amigo e o amor da vida de Dado — que já estava falando em casamento.
Era o homem mais feliz do mundo. Todos seus temores afastados, ele encontrara o amor sem ter passado pelas decepções que Beto experimentara vezes sem fim.
Por ironia do destino (sei que é um chavão, mas cabe perfeitamente no caso), foi justamente a experiência que alertou Beto que algo estava errado. Uma estranha sensação de déjà vu passou a atormentá-lo desde a primeira vista.
Mas como dizer isso a Dado, sem provas? Beto se consumia, sem saber o que fazer.  O amigo já estava falando em filhos, logo ele, que nunca quisera ser pai! Beto desesperava-se.
Até que um dia — esqueci de dizer isso também: “até que um dia” pode acontecer mais de uma vez na vida — Beto a viu agarrada com um sujeito que definitivamente não era o Dado. Não interrompeu, não foi tomar satisfação. Discretamente, filmou e fotografou tudo com o celular.
Agora, o dilema, o rabo torto da porca. Mostrar ou não mostrar? Nem Hamlet sofreu tanto quanto Beto. Estragar o encantamento do amigo ou deixá-lo viver suas próprias experiências? Com que direito faria uma coisa ou outra? E se estivesse errado? Afinal, o seu próprio passado o condenava.
Me diz você, que já sofreu por amor,  que já se sentiu dividido, sem saber o que fazer, ou viu de perto o sofrimento de uma pessoa querida. Se fosse o Beto, você contaria? Se fosse o Dado, como reagiria?
Eu gostaria muito de dizer que tudo se resolveu e todos foram felizes para sempre. Mas estamos falando de seres humanos e mesmo as melhores pessoas às vezes reagem das maneiras mais estranhas.
Beto poderia ter lavado as mãos, mas não o fez. Decidiu que era melhor arriscar a amizade a deixar Dado ser enganado. E mostrou, tudo.
Dado se levantou sem uma palavra, deu as costas e foi embora.
Alguns dias depois, Beto recebe um seco e-ail de Dado comunicando a data do casamento, e que não permitiria calúnias contra a noiva, muito menos vindas do melhor amigo; convidava Beto para padrinho, se ainda estivesse interessado em continuar a amizade que por ele, Dado, seria eterna.
O coitado do Beto nem dorme mais, de tanta angústia. Como apadrinhar uma união com a qual não concorda? Mas como abandonar o amigo, sabendo que, um dia, Dado viria a precisar dele? 
Nem sempe sabemos mensurar o valor de uma amizade, aliás desconfio que nem sabemos direito mais o que é uma amizade verdadeira. Aos amigos que o aconselham a deixar de bobagem e chutar o pau da barraca, Beto responde, "tá, mas para qual lado a barraca vai cair? Quem vai sair machucado dessa história?"
Agora me diz: você sabe o que faria? Tem certeza?


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14 comentários:

Debora Bottcher disse...

Muito difícil, moça... A gente nunca sabe o que é certo, porque o certo pra uns, não tem o mesmo peso pra outros. E em se tratando de amor, a coisa fica ainda pior... Eu acho que não falaria pra amiga - até porque, pela sua narrativa, o risco é grande de ela se afastar e, por orgulho, quando precisar de vc, vc não estará perto porque ela não vai te chamar... Beijo.

albir disse...

Zoraya,
acho que mostraria sua crônica ao Dado.
Gosto deste convite à participação do leitor.

Cecilia disse...

Caramba, como dizia um amigo meu: "que situação...". Ma acho que faria o que fez o beto. ele foi amigo e revelou o que o outro não sbia, o que o dado fez com a informação não está mais ao alcance dele... ele fez a parte dele. Mesmop que a amizade acabe - se é que ela realmente existia, beto não teria paz se não revelasse o que sabia ao dado...

Erica disse...

Acho que entre "marido e mulher", estejam brigando ou não, não se deve meter a colher... nao se sabe da missa a metade quando o amor está envolvido e as melhores intenções sempre podem ser mal interpretadas...

aretuza disse...

Para mim, me leva a pensar: quem somos nós para saber o que é o certo ou o melhor, ou o perfeito para a vida do outro? Se conseguirmos buscar o melhor para as nossas próprias vidas e viver com verdade,já é um santo bem que fazemos ao mundo!

Zoraya disse...

Oi Pessoal!
Pois é, são tantas as possibilidades, que o Beto continua confuso. Amor e amizade são temas delicados. Débora, há tempos nao te via aqui! Cecília, seja bem vinda. Erica e Aretuza, obrigada pela presença de sempre. Albir, você está sempre convidado...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, só respondo depois que você me disser o nome da noiva do Dado. :)

Marisa Nascimento disse...

Só tenho certeza de que sua escrita contagia. :)

Anônimo disse...

Como bom romano antigo que sou, sei bem como vai acabar essa história toda. Messalina, minha patroa, depois que leu a crônica, ficou com dó e tá querendo dar (êpa!) uma orientação para o rapaz. Já o meu conselho, para o coleguinha, é sairmos pra beber uma cervejinha e, depois, irmos jogar uma partidinha de pôquer na casa dele, para aliviar um pouco nossas cabeças, isto é, se o Dado tiver dado em casa. Se não tiver, certamente a noiva dele tem! Ah, no fundo, acho mesmo que esse casamento do Dado é só para fazer ciúmes no Betão, que está mais confuso ainda com tantas possibilidades, tolinho que é! A cronista até já deu a dica. Podem ver! Disse ela que, depois que o Beto mostrou tudo para o Dado, ele se levantou sem uma palavra (talvez tenha apenas gemido baixinho), deu as costas e foi embora. Depois dessa, tirem suas próprias conclusões, que eu vou ver porque é que minha mulher tá gritando tanto com o pedreiro, o pintor, o bombeiro e o eletricista que estão fazendo uma obrinha há um ano aqui em casa.

Anonymus Cornelius Mansus disse...

Como bom romano antigo que sou, sei bem como vai acabar essa história toda. Messalina, minha patroa, depois que leu a crônica, ficou com dó e tá querendo dar (êpa!) uma orientação para o rapaz. Já o meu conselho, para o coleguinha, é sairmos pra beber uma cervejinha e, depois, irmos jogar uma partidinha de pôquer na casa dele, para aliviar um pouco nossas cabeças, isto é, se o Dado tiver dado em casa. Se não tiver, certamente a noiva dele tem! Ah, no fundo, acho mesmo que esse casamento do Dado é só para fazer ciúmes no Betão, que está mais confuso ainda com tantas possibilidades, tolinho que é! A cronista até já deu a dica. Podem ver! Disse ela que, depois que o Beto mostrou tudo para o Dado, ele se levantou sem uma palavra (talvez tenha apenas gemido baixinho), deu as costas e foi embora. Depois dessa, tirem suas próprias conclusões, que eu vou ver porque é que minha mulher tá gritando tanto com o pedreiro, o pintor, o bombeiro e o eletricista que estão fazendo uma obrinha há um ano aqui em casa.

Alexandre Durão disse...

Zoraya, querida. Férias em Paraty, sem internet. Voltei ontem. Vamos à crônica.
Como não estamos mais no tempo de Machado e cia, você não pode usar o artifício das famosas "cartas anônimas", onde toda sorte de acusações e segredos eram revelados, sem que se revelasse o autor.
Não dá pra se pensar em "e-mail anônimo". Olha como empobrecemos!
Por outro lado, já vi coisa muito pior em termos de "traição" ser apagada do passado do casal. Aliás, nada tão inventado quanto o passado, não é?
Voltando ao nosso mestre (Machado), veja como a ardilosa Capitu conseguiu, com o passar dos anos, não só ter a seu favor o benefício da dúvida mas, mais que isso, ver Bentinho quase transformado no verdadeiro vilão.

Aguardando a próxima. Beijos.

Nilo Sanches Junior disse...

Crônica muito interessante. Infelizmente nos caminhos da amizade, encontramos obstáculos que põe à prova nossa estrutura emocional. Como sempre, o tempo será o melhor dos mestres.
Parabéns.

Cecilia Radetic disse...

É vendo a postagem do Alexandre, pensei melhor e acho que seria a melhor saída - com antigamente uma carta anônima... Ou então, como disse um amigo meu quando comentei, deixá-lo viver o amor até ele mesmo descobrir,e aí sim dar o ombro para ele chorar...

Zoraya disse...

Gente, valeu pelos comentários.

Eduardo, não digo o nome da noiva do Dado não, vai que você conhece? Deus me livre.

Marisa, você, como sempre, gentil

Anonymus Cornelius Mansus: continue manso pois os mansos herdarão a terra!

Alexandre, só mesmo muita generosidade, para lembrar de Machado de Assis depois de ler essa crônica. Obrigada!

Nilo, é verdade, os caminhos da vida são, muitas vezes, bastante irregulares. Manter relações duradouras é prova de força e maturidade, não é para os fracos não.

Cecília, pois é, você está que nem o Beto, cheia de dúvidas...