Pular para o conteúdo principal

MEU PAI, NOSSO PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Uma das principais qualidades de meu pai é sua tranquilidade em emergências. Embora seja um sujeito teatral, daqueles que faz drama por coisas banais, quando uma situação difícil emerge, meu pai exerce como poucos sua capacidade de empatia e resolução. Pode ser um simples pneu furado, ou então uma batida de carro, uma doença venérea ou a perda da chave de casa. Na minha infância e na minha adolescência, presenciei, por algumas vezes, meu pai tomar conhecimento da situação, fazer uma ou duas  perguntas para se inteirar melhor do assunto e já partir para uma ação tão direta que o problema, ou pelo menos o desamparo diante do problema, desaparecia em minutos. E uma coisa que me impressionava muito era sua economia de palavras. Durante a resolução dos problemas, reinava um silêncio tranquilo, ausente de qualquer culpabilização. Ficávamos os dois fazendo o que deveria ser feito, sob a orientação dele.

Lembrando isso agora, me ocorreu como aproveitei pouco essa grande qualidade de meu pai. Eu ficava tão ressentido, magoado, amargurado pelas vezes em que ele fazia tempestade em copo d'água que acabei desenvolvendo uma independência e uma autossuficiência precoces e exageradas. Só apelava para o meu pai quando a situação realmente me parecia quase impossível de se resolver. Uma pena. Porque se eu tivesse recorrido a meu pai em situações não tão críticas, teríamos tido mais momentos juntos e haveria mais histórias nossas. Meu pai viveu e conta muitas histórias curiosas, com amigos e parentes. Eu não sou personagem frequente de suas histórias, e isso porque me retraí demais, me tirei de cena muitas vezes.

Dizem os entendidos nas psicologias e nas espiritualidades que nossa relação com nosso pai é bastante semelhante à nossa relação com Deus. No meu caso, parece verdade. Tenho uma relação dúbia com o Pai Nosso que está no Céu. De um lado, temo os rompantes do Deus do Antigo Testamento. De outro, como pessoa criativa que sou, admiro muito o Criador capaz de realizar essas maravilhas a que a gente até se acostuma de tanto ver todo dia: o Sol, o céu, a Lua, as estrelas, os tantos verdes das plantas, as cores e os formatos das flores... Também poucas vezes recorri a Deus, talvez duas ou três vezes em toda a minha vida, e sempre em momentos desesperados, em que parecia não haver alternativa. À semelhança de meu pai, silenciosamente, nosso Pai também me atendeu de maneira exemplar. Já me tirou de um buraco que só de lembrar me dá arrepio.

Bem recentemente, coisa de um ou dois meses, decidi deixar de lado a birra orgulhosa e utilizar mais esse recurso. Como moro a alguns milhares de quilômetros de meu pai, ainda não exercito adequadamente esse meu propósito com ele. Mas como nosso Pai é onipresente e garantiu que a lei é "pedi e recebereis", estou testando, digamos assim, pra ver se a lei é de lei mesmo. Na hora em que a coisa fica braba, como hoje pela manhã, dou uma inspirada profunda, fecho os olhos brevemente e chamo por Ele: "Vem cá, Pai, por favor, estou precisando de você". Como Ele não precisa fazer nenhuma pergunta para se inteirar do assunto, é onisciente, chega silencioso e só percebo sua presença por um leve frio, uma brisa fresca. Daí em diante, fico confiante de que, eu fazendo a minha parte, Ele fará a dele. Às vezes me afobo um pouco — não sou tão calmo ainda em situações críticas—, mas continua sendo uma questão de minutos para eu sair do desespero e entrar na esperança.

Esta crônica é um reconhecimento e um agradecimento ao meu pai e ao nosso Pai. E também uma declaração de compromisso de que, um dia, eu ainda chego nesse lugar de, quando alguém pedir o meu auxílio, poder transformar o paralisante desespero em esperança ativa.

Comentários

Alba Mircia disse…
Querido, percebo essa tranquilidade na resoluçào de problemas com frequência em você. :) Hoje foi muito feliz a sua orientação. Agradeço ao seu pai e ao Nosso Pai por guiar você a nos guiar!
Laísa disse…
:-) :-( :-/tia rendeall
Eduardo, espero que a situação não seja tão braba assim e que tanto seu pai quanto Nosso Pai resolvam tudo num piscar de olhos e que você possa estar sempre bem próximo a ambos.
albir disse…
Realmente, Edu, não há como pais numa emergência: ação, poucas palavras e resultados tranquilizadores. Resta-nos tentar reproduzir esse comportamento.
Grato, Querida.

Tudo se resolvendo, Marisa.

Entendi não, Laísa...

Mãos à obra, Albir. :)
Carla Dias disse…
Mais bacana do que a forma como você fala do seu pai e do nosso Pai, é o compromisso que abraça no último parágrafo. Boa jornada pra você. Beijo!
Zoraya disse…
Seu pai e seu Pai devem estar felizes com sua resoluçao, Eduardo, e tenho certeza que voce chega lá, pois o terreno bom favorece a semente boa. Pode acreditar, a Lei funciona. E que comovente esse agradecimento ao seu pai da Terra.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …