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AO TRABALHO >> Kika Coutinho

Queridas filhinhas,

Ai, filhas! A mãe de vocês é uma melodramática de primeira! Imagine na adolescência o quanto vocês vão se envergonhar. Eu chorando pelos cantos por tudo...

Agora mesmo, prestes a voltar ao trabalho, estou aqui enxugando as lágrimas enquanto procuro o crachá. Meu Deus, onde deixei a mochila do trabalho? E os sapatos, eu usava saltos assim? Será que consigo me equilibrar neles? Penso, assoando o nariz.

Filhas, meus amores, eu vou voltar a trabalhar e nem sei como lhes dizer isso. É tão banal, né? Mas não tenho coragem de dizer. Não sei como explicar que não pegarei vocês na soneca da tarde, que não darei o almoço, que não rolaremos mais na grama do parquinho, que não participarei mais dos infindáveis pic-nics. Ai, filhas, nem o banho sei se vou conseguir dar. Como posso explicar isso? Eu vou sempre tentar chegar pro jantar, eu tento correndo feito uma louca, mas não vou deixar que durmam sem o meu “boa noite”, ainda sabendo que é tão pouco, aceitem que lhes ofereça isso como o meu melhor, sim?

É de se envergonhar esse pedido, né? Por isso que, olha, mesmo sendo ridículo, eu me sinto obrigada a pedir desculpas a vocês, por essa minha escolha. Eu não tenho convicção de que é a escolha certa, mas é o que é preciso ser feito. Isso eu sei. Vocês entendem? Não, certamente que não...

Vocês ainda são tão pequenas para entender e eu nem vou poder lhes explicar porque estarei ocupada em salas com ar-condicionado, reuniões intermináveis, discussões cansativas e planilhas incompreensivas. Mas, filhas, saibam que é o que tem de ser feito, e eu peço que, no futuro, me amem assim... Dizem até que os filhos orgulham-se de suas mães que trabalham, o que eu acho uma balela, filho se orgulha de mãe de todo jeito, né gente?, que é mãe, oras...

Mas podem usar isso para me ajudar, porque essa culpa pesa um milhão de toneladas e eu vou precisar de toda a juventude, maturidade e quiçá da velhice de vocês para aceitar isso. Que eu não estarei por perto... Que o tempo voa e eu perderei tanto de vocês. Bem eu, que não queria perder nada, nadinha, nadica, nem uma remelinha da manhã, nem isso filhas, nem isso... A verdade é que não queria perder um único instante sequer...

Mas, agora, a perda é incalculável. Vai ter dias de calor, dias de frio e eu nem vou saber se estão apropriadamente vestidas. Talvez isso seja uma bobagem, mas, vocês viram, sou melodramática das boas. Preciso anunciar que sofro, pedir que me perdoem e, claro, que se comportem, por favor!

Não briguem, minhas menininhas queridas. Sofia, não suba no carrinho da Olivia, não escale a fruteira, nem as gavetas nem nada. Tenha muito cuidado com as peças pequeninas, não enfie nada, absolutamente nada, no seu nariz, está bem? Ai, eu já pedi tantas vezes, mas é só eu me virar um segundo que... Jesus, e eu vou estar horas, HO-RAS longe de casa!

Aliás, Jesus foi uma boa chamada. Porque não há ninguém, nem babá, nem parenta nem ninguém que pode protegê-las da minha ausência. Só Ele... Então, filhinhas amadas, que Deus as proteja. E a mim também.

Meu amor.

Kika

Comentários

Solom ;) disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Solom ;) disse…
Belo Texto!

Distância não é descuido, distância não é desapego, distância intensifica o amor de quem ama.Então há saudade, logo aconchego. "S.G"
Carta emocionante! Que suas férias cheguem logo, Kika. :)
Zoraya disse…
Muito lindo, Kika, como sempre. Aliás, cadê você aqui no Crônicas?

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