quarta-feira, 21 de março de 2012

QUARTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>

Quando se olha no espelho, mergulha no passado, fisgando pela memória a época em que ainda não exercia tal profissão. Nunca imaginou que sua vida tomaria curso tão diferente do que imaginara para si. Depois de colher vivências, das dores aos amores, de se tornar filha, esposa e mãe, de se estabelecer como uma cidadã comum, com a alma repleta de desejos, e de angariar boa parte das realizações que lhe cabiam, veio a vida e mudou tudo.

Lembra-se que, ainda menina, escutava a mãe e as tias cochicharem sobre o pai delas. As moçoilas temiam o homem, ao mesmo tempo em que o admiravam profundamente. Às vezes, ela as pegava chorando miúdo na presença da outra, empoleiradas na dispensa. E no seu entendimento de criança, nutriu o medo de que o avô a faria chorar daquele jeito algum dia.

E ele o fez...

Porém, não foi miúdo ou às escondidas, porque a menina nasceu com bons pulmões e corajosa, não se permitindo esconder. Chorou copiosa e barulhentamente na presença do avô, da mãe, do pai e das tias, despertando a preocupação exagerada de todos, exceto do avô, que ao invés de chacoalhá-la e perguntar, repetidamente, qual era o problema, onde doía, afagou-lhe os cabelos, acarinhou-lhe a face, beijou-lhe a testa e lhe disse, a voz arrancada de uma profundidade que, naquela época, para ela era completamente desconhecida, “acalma-te que passa, e ainda que a dor volte, tu aguentas”.

Penteia os longos cabelos, enquanto observa o seu rosto envelhecido pela lida. Há pouco mais de dez anos, descobriu sobre o chororô de criança. Nada lhe doía ou a magoara, naquele dia. Sua mãe, mais tarde, e longe da presença dos outros, deu-lhe boas palmadas pela birra, sem resposta às suas perguntas sobre o que a levara a cometer tal pecado, o de preocupar as pessoas que a amam, sem motivo. Mas a verdade é que o motivo existia, apesar de inalcançável ao entendimento da menina, naquele momento.

A vida seguiu em uma cadência própria, sem melindres, até que avô dela adoeceu, e a mulher feita, com esposo em casa e filho quase na faculdade, foi chamada às pressas para cuidá-lo.

A mãe e as tias estavam sentadas em cadeiras, ao redor da cama do pai, olhos aguados, narizes vermelhos. Quando ela entrou, as mulheres fizeram o sinal da cruz, e a mãe dela carregava uma tristeza infinita no olhar. A recepção não a incomodou, e ela se sentou na cama e segurou a mão do avô entre as suas. Amava aquele homem da maneira que jamais imaginara amar alguém. Foi o avô quem lhe acompanhou nos estudos, a fez ler tantos livros que a leitura se tornou vício. Foi ele quem a permitiu frequentar, ainda menina, as suas reuniões com grandes intelectuais, amigos dele. A pessoa que ela havia se tornado contava com a dedicação dele em lhe dar todas as ferramentas para reconhecer a oportunidade de aprender.

No leito de morte do avô, ela soube o que lhe caberia. No momento da elucidação sobre o seu destino, despiu-se da coragem por alguns segundos, rendeu-se ao medo. Porém, antes que o avô partisse de vez, reassumiu o sorriso, comprometendo-se a honrar a profissão que ele lhe deixara de herança, para qual ele a preparara desde o dia em que ela caiu no choro, sem motivo, pecando e assumindo seu cargo de remendadora de corações partidos.

O que a profissão pede, ela sempre soube, é mais do que uma pessoa comum poderia suportar. Compreende, hoje, que sua mãe e suas tias temiam o pai porque não o queriam remendando seus corações, descobrindo suas dores. E que admiravam justamente por ele ceder sua existência para apaziguar a de outras pessoas. Para a família de um remendador de corações, o distanciamento dos afetos é certo.

O marido não suportou nem mesmo o primeiro ano e partiu, gritando para ela que ficasse longe dele, que não queria que lhe remendasse o coração. O filho, depois da faculdade, fez a vida em outro estado, lidando com a profissão da mãe como a maioria das pessoas, decretando o infortúnio, afastando-se.

Pega sua bolsa e sai, deixando no reflexo do espelho a história que um dia lhe pertenceu. A mãe, falecida há pouco, confidenciou-lhe, antes de partir, que temia que ela fosse escolhida pelo avô, desde o dia em que ela nascera, quando ele olhou para a criança chorando alto sua chegada ao mundo, e disse “acalma-te que passa, e ainda que a dor volte, tu aguentas”, e ela foi amansando o choro, olhinhos grudados naquele homem sério, mas que quando sorria, como sorriu naquele dia, iluminava o mundo.

A garoa fina rabisca a noite, enquanto ela caminha pelas ruas da cidade. Assim tem sido todos os dias, desde que o avô lhe delegou a profissão. Passa por ela uma jovem, o olhar cravado no chão, os passos lentos, e entra em um bar. Ela segue a jovem, senta-se ao lado dela ao balcão, pede água com gás, enquanto a outra entorna o copo de uísque.

Durante um bom tempo, ela conversa com a jovem, sempre interessada no que ela tem a dizer. É fato que coração partido não tem cura, porque é oriundo de importantes histórias vividas. E aos remendadores de coração cabe a função de amenizar a dor, de cultivar a esperança de, em algum momento futuro, esse mesmo coração se sentir pronto para se tornar a casa de novos sentimentos. Por isso, esse profissional tem de saber como conduzir essa conversa, valendo-se do conhecimento sobre filosofia, da profundidade da poesia, mas sem jamais planar apenas sobre o universo das teorias e das ilusões. Quem tem o coração partido precisa que seu remendador lhe mostre que a realidade de um coração pronto para a felicidade chegará.

Ao chegar a sua casa, tira os sapatos e anda pelos cômodos. Ela gosta de sentir o chão frio sob seus pés, enquanto a sua alma lamenta as mágoas de quem cuidou, e o corpo treme, o choro é miúdo. Acalmada da função do dia, senta-se defronte à lareira, em uma busca secreta pela quentura de presença que está ausente. Para ela, a vida se tornou uma constante de experimentações interiores, com mil e tantos sentimentos alvoroçados lhe tirando o sossego, uma série de acontecimentos e sensações lhe abarcando. E enquanto tanto acontece no seu dentro, quem a observa enxerga apenas uma mulher silente, sem família ou amigos, aprisionada pela solidão que escolheu, ao se tornar aquela de quem todos precisam, em algum momento da vida, mas que a maioria teme, porque não quer que suas emoções mais vis sejam desnudadas.

E ela se acalma, porque sabe que passa, e mesmo que volte, ela conseguirá suportá-la.

Um remendador de corações tem de se entregar completamente à pessoa que necessita de ajuda, e por isso mesmo, o seu próprio coração não aceita remendo, e rumina as dolências dos seus clientes, assim como sofre de solidão contínua.





Imagem © Rodrigo de Castro Scott - rodrigoscott.com


Partilhar

3 comentários:

Zoraya disse...

Carla, o seu filme é o Asas do Desejo, mas o alemão, do Wim Wenders, um dos melhores filmes de todos os tempos. Estou adorando suas novelas de profissões exóticas. Beijos

albir disse...

Carla,
a dor e a morte são palatáveis na sua poesia. Beijo.

Carla Dias disse...

Zoraya... Asas do Desejo foi um filme revelador para mim. As pessoas precisam conhecer os anjos de Wim Wenders, de antes de Cidade dos Anjos, que é bonito, mas não é o Asas do Desejo e nem o Tão longe, tão perto.
Obrigada por ler a minha “novela de profissões exóticas” (eu gostei disso!). Depois de fechar os sete capítulos, eu pretendo retomá-los e ampliar os horizontes desses profissionais.

Albir... Estou me esforçando para que isso seja uma verdade suave nos meus textos. A dor e a morte fazem parte da vida. Falar sobre elas nem sempre tem de ser aos melindres.