sexta-feira, 30 de março de 2012

O REI DA NOITE >> Zoraya Cesar


Detestava gatos. Nunca entendera como alguém pudesse ter esse bicho como de estimação. Brincava dizendo que só conhecia o de estimaCão.

Mas – e tem sempre um “mas” - um dia ele conhece uma felina gata de duas patas, digo, pernas, e que pernas!, maravilhosa, loura (loura!, babava ele), enfim, perfeita, tanto mais que parecia muito a fim de conhecê-lo melhor. E vai aqui, volta dali, ela revela que adorava gatos; mais, que tinha um em casa, não à toa chamado Rei, e que jamais se envolveria com um homem que não gostasse de gatos.

Ele gelou. Por muito pouco não confessara sua ojeriza e que tinha lá suas desconfianças contra homens que gostavam de gatos.  Mas conteve-se a tempo, porque ela era mesmo sensacional e ele queria sair dos entretantos e chegar aos finalmentes. Cinicamente, desfiou uma série de elogios aos felinos e disse que adoraria conhecer o bichano. Caindo na conversa mole, ela o convidou para tomar alguma coisa em sua casa. Sim, exultou ele, vou tomar mesmo alguma coisa...

A antipatia foi imediata e recíproca. O gato tinha um focinho franzino, que lhe dava um ar de mau, era peludo, parecia rabugento. Mas, pensou ele, todo gato é igual, quando não é manhoso é tinhoso. E rindo de seu próprio mote, aproveitou que ela foi ao banheiro e empurrou o gato com o pé.

E se ajeitou, sentindo-se dono da situação, planejando viajar com a musa loura para as terras da luxúria ali mesmo, no sofá. Mas não deu nem para comprar as passagens. O gato pulou no seu colo, cravando-lhe as unhas no peito e enchendo seu nariz de pelos. Aaaaiiitchimm, três vezes gritou e espirrou ao mesmo tempo, cheio de dor e fúria, enquanto tentava esganar o gato, sob os protestos da dona, que, contrariando todas as evidências, afirmava que isso era a demonstração cabal de que Rei o aprovara com entusiasmo. Sorrindo cândida e tentadoramente, ela disse que, agora sim, estava satisfeita ao ver os dois gatos se entendendo.

O coração do caçador ronronou. A noite estava garantida. Ele mal cabia dentro das calças enquanto afirmava que sim, adorava gatos, só ficara um pouco assustado com demonstração tão veemente de afeto. Ela se achegou, toda sinuosa, beijando e abraçando e... ele mal sentira os macios lábios louros no pescoço quando uma dor agudíssima o arrancou do enlevo. O maldito gato enfiara os dentinhos afiados na sua orelha e chegou a tirar sangue! Tentou agarrar o assassino, mas a gata-mor, toda sedutora, achou graça, ele quer brincar! Que fofo!

Foi o que o impediu de matar o gato ali mesmo, embora uma ligeira raiva começasse a crescer nele, só uma doida para achar aquele gato cretino “fofo”. Mas ela era mesmo irresistível, e ele jogou-se em cima dela como um leão sobre a gazela. E bem no momento em que a gazela se atirava sobre ele com fúria igual, o Rei da casa pula nas costas do rei da floresta, enterrando as unhas em sua pele nua. O palavrão gritado curto e grosso cortou, no ato, todo o clima. Ela se zangou, dizendo que o gatinho só queria brincar, não era possível que tivesse machucado tanto assim.

Pressentindo o perigo de voltar para casa sem ter completado seu intento, ele, imediatamente, tomou conta da situação. Com a habilidade que só os sedutores desesperados por uma noite das arábias podem ter, convenceu-a de que estava nervoso, afinal, ela era um escândalo de maravilhosa, ele não se sentia merecedor de tanto, blá blá blá, amansando-a com tanta facilidade, que ele mesmo sentiu vergonha de sua cara de pau.

O importante é que deu certo. Ela se levantou, toda macia e sorridente, pedindo-lhe para esperar que tinha uma surpresa, um óleo perfumado, ele gostava? O conquistador quase teve um ataque cardíaco. Se gostava? Ah, pensou, enquanto ela se trancava no quarto, mulheres são tão inocentes. E olhou para o gato, que o encarava de volta, com uma expressão muito parecida com ódio. Gato burro, sussurrou ele, vou mostrar quem é o rei aqui.

Quando a estonteante, absoluta, a própria deusa da beleza voltou para a sala, e murmurou, “vem”, ele foi.

Mas não chegou nem perto. O gato começara a miar desesperadamente, como se estivesse sendo torturado e estripado. Largando na sala o sheik alucinado de excitação, ela encontrou o gatinho amarrado num pano de prato, dentro do forno.

Ele nunca pensara que mulher tão delicada pudesse virar um bicho tão feroz. Foi expulso aos tapas, debaixo de palavrões mais cabeludos que os usados em estádios de futebol.

Frustrado, arranhado, mordido e humilhado, ainda teve de ouvir, antes de correr escadas abaixo, o miado sarcástico do verdadeiro rei da noite.


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9 comentários:

Anônimo disse...

hahaha!!!

Anonimvs Pelvs Curtvs Brasileirvs disse...

Miaaaauu!

Érica disse...

Tenho pena da tal loura... já consigo vê-la, na velhice, rodeada de gatinhos, num apartamento minúsculo, sozinha, esquecida, enlouquecida... e quiçá, anos depois, sendo encontrada morta no chão do conjugado, rodeada dos gatos miando, num ambiente fétido e repugnante... Tudo bem que alguns gatos-humanos merecem mesmo serem enxotados, mas escolher os bichanos verdadeiros para seus únicos companheiros pode ser uma verdadeira sentença de morte!

Marisa Nascimento disse...

Ótima dinâmica na condução do seu texto, Zoraya!
Não sei se você conhece a natureza felina, mas eles são uma espécie altamente sensitiva. Conhecem de longe os bons súditos... :)
São bichanos adoráveis! Se você não convive com um, soube muito bem conduzir o texto. Parabéns!

aretuza disse...

louras não têm nada de burras!

Alexandre Durão disse...

Zoraya, adorei. Leve, engraçada e curiosa. Final muito bem arranjado. Suas crônicas já fazem parte de minhas manhãs de sábado. Se já disse isso, repetir não custa. Beijos.

Lenner's Cats disse...

Adorei a crônica. pessoas que nao curtem os gatos sao realmente estranhas. certo foi o bichano da sua crônica. que defendeu a tutora dele com todas as armas contra esse namorador fajuto! Kkkk
os gatos protegem os humanos, uma pwna que nem todo humano proteja os gatos....
eu amo gatos, tenho amor e respeito por todos os animas, mas os gatos me cativam de forma especial.
beijos e parabéns pela crônica

Zoraya disse...

Erica: gostei da sua visão. Posso usá-la para uma próxima crônica?

Marisa: puxa, agora fiquei toda orgulhosa! Nunca tive gatos, mas gosto imensamente deles, e conheço gatos que têm vários amigos meus (não estou confusa não, é isso mesmo, rsrs). Então, talvez, eu tenha aprendido alguma coisa!

Aretuza: pois é! Minhas amigas louras são inteligentíssimas, apenas se fazem de tolas pra enganar os incautos.

Alexandre: pode dizer sempre, o ego, esse trapezista da corda bamba, chega ao porto seguro pelas suas palavras, e agradece.

Lenner’s Cats: como já disse, eu não tenho gatos. Mas, se chega pra mim e diz que gosta deles, já arranjou uma amiga. Bem vindo e obrigada!

Beijos a todos

albir disse...

Todo rival merece respeito. Às vezes o melhor é uma retirada honrosa.