domingo, 4 de março de 2012

FAZ SENTIDO >> Whisner Fraga

Estudávamos inglês até ali porque a disciplina fazia parte do currículo, mas eu não conseguia enxergar alguma aplicação para aquele conteúdo, de forma que frequentava as aulas sem muita empolgação. Isto é, por que estudar outro idioma, se eu não conhecia nenhum estrangeiro e se só falava em português com meus amigos? O mesmo acontecia com as demais matérias. Por que estudar equações do primeiro grau? Por que me dedicar a conhecer os pormenores de uma bromélia, por que decorar as capitais de todos os estados do país, por que calcular o tempo de uma reação química e assim por diante? Eu estudava por estudar, o que, em si, não parece ser errado. Mas aí, teve um ano, no Colégio Polivalente, que a coisa mudou. Dei sorte e só neste período tive uns seis professores fantásticos, daqueles que faziam a gente pensar: puxa, os caras são gênios, devem ganhar uma fortuna. Sei lá, eu ligava conhecimento a sucesso financeiro, ou seja, reconheço que era ingênuo.

Então, esse cara, não me recordo o nome, e, mesmo se me lembrasse, não ia entregar aqui, era o professor de Língua Inglesa e, durante o primeiro dia de aula, foi provocando: vocês sabem por que aprender uma língua estrangeira? Aí emendou: é para não serem enganados. Se forem ao cinema, não precisarão confiar no sujeito que traduziu as falas, não irão perder tempo lendo legendas e poderão se concentrar nas imagens. Além disso, comentou sobre as letras de músicas, sobre os dizeres em camisetas, em folhetos de propaganda, e assim por diante. Pronto, depois disso, estudar inglês começou a fazer sentido para mim.

Depois veio um professor de Física e seus óculos clichês-fundos-de-garrafa. Levava pequenos experimentos para a sala de aula, explicava o significado prático de cada termo de uma equação, deduzia fórmulas, brincava com o conhecimento. E, assim, a Física ficou ainda mais divertida. O mesmo eu posso relatar sobre o sujeito que lecionava Língua Portuguesa. Ele nos desafiava, nos mandava ler autores complexos, livros extensos, pedia que escrevêssemos nossos próprios textos. Corrigia tudo, anotava, palpitava, melhorava o que compúnhamos. Graças a ele, aprendi a gostar de Augusto dos Anjos.

Até sobre o professor de Biologia há algo de bom a dizer, uma vez que ele nos levava frequentemente para visitas externas. Não existe nada melhor para um aluno do colegial do que viajar com a sala, mesmo que seja para um local a dez quilômetros da cidade. Mas, certa vez, ele se meteu numa enrascada. Vejam bem, estávamos numa região conservadora de Minas, numa época que idolatrava os valores tradicionais da sociedade: virgindade, sexo só depois do casamento, entre outros absurdos, e o sujeito me cisma de dar uma aula de educação sexual. E, pior: pede para as meninas saírem, que quer falar primeiro com os meninos. Pronto, não precisou mais do que isso. Levou uma advertência séria e por pouco o assunto não foi parar nos jornais. Passou um susto e foi só por ter o aval do Diretor que não foi demitido.

Como o colégio era polivalente, tínhamos matérias técnicas, como Educação para o Lar, Práticas Agrícolas, Oficina, entre outros conteúdos práticos. Adorávamos o indivíduo que lecionava Práticas Agrícolas. Parecia-nos que estava constantemente em outro mundo, sempre nos falando de coisas que não compreendíamos muito bem, como alimentação natural, vegetarianismo, hortaliças sem agrotóxicos e outras viagens do tipo. Ainda bem que, uns anos depois, todos esses conselhos, ensinamentos, de todos esses professores, começaram a fazer sentido para mim.



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6 comentários:

albir disse...

Whisner,
às vezes penso que nem os professores acreditam na importância que têm para a vida das pessoas.

whisner disse...

Concordo com você, Albir. Abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Whisner, parece que hoje é mesmo dia de reverenciar os professores e reconhecer o sentido de seus ensinos. :) Gostei da coincidência.

Marisa Nascimento disse...

Ôxi! Será que estudamos na mesma escola ? :)

Carla Dias disse...

Aprender tem lá sua magia, não? Isso quando nos abrimos ao aprendizado.

Zoraya disse...

Benditos os professores que abrem nossos olhos para a vida que há além do que vemos. Gostei muito.