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Mostrando postagens de Junho, 2018

DESTINO KM 162 (AO SOM DE MICHAEL BUBLÉ) >> Sergio Geia

Vez em quando tira o pé, encolhe a perna. Especialmente em mergulhos, bom momento, acha, suaviza. Ela vem assim, sem avisos, chega chegando, fica. Não tem noção exata de como a relação dos dois vai terminar, confia que ela vá embora, sempre vai. O que é uma espécie de oásis, cama quente, perfumada, logo se esvai: serpenteando, uma fila imensa, longa, lenta, precisa interromper o interlúdio relax. Depois, como num passe de mágica (bem clichê), ela desaparece — causa-lhe asco a lentidão excessiva, especialmente quando interrompe momento tão bom. Entra num funil, uma espécie de túnel branco, caverna que o embrulha, como se lá no céu, se lá estivesse, mergulhasse na mais branca das nuvens; é fria, chega a doer. Às vezes se esquece de tudo, até dela, como agora, quando o rádio toca “Quando, quando, quando” (ó, querida, me diga quando, quando, quando). Aumenta o volume, desliga-se, ou tenta, inebriado ainda por um insistente perfume de Gelol.
Lembra que se encontram no São João, todos os ano…

ÓBVIO >> Carla Dias >>

As pessoas insistem em querer saber: que tristeza é essa? Ele se esquiva, porque houve dias em que tentou explicar, mas não chegou às palavras certas para o entendimento do outro. E então que a tristeza dele, que nem é tristeza de fato, que tem lá a sua coerência, se perdia em uma lista de itens oferecida pelo outro, sobre o que ele não deveria cometer. Os dramas que ele construía relacionados ao que era óbvio. Na tentativa de ajudar, as pessoas se dedicavam a tecer explicações e a exigir dele reações que elas teriam, caso estivessem no lugar dele.

O óbvio é um dos grandes mistérios que o sonda. São poucas as coisas que ele concorda que o óbvio pode definir. O básico é óbvio. O respeito é óbvio. O direito e o dever são óbvios. Ainda assim, não vivemos em luta constante para garantir que o óbvio seja correspondido? O que deixa o óbvio relegado, num canto da sala escura. O que tira dele a leveza do entendimento imediato e o mergulha em um mar de complexidades.

Nada é tão óbvio assim. N…

RESGATE >> Paulo Meireles Barguil

  "Há um menino Há um moleque Morando sempre no meu coração Toda vez que o adulto balança Ele vem pra me dar a mão." (Milton Nascimento e Fernando Brant,
Bola de meia, bola de gude)
Você é refém de quê?

De medos ou de sonhos?

Quais deles estão lhe escravizando?

De alegrias ou de feridas?

Quais delas são as suas tiranas?

O seu corpo encarcera ou protege o seu espírito?

De quem você está se escondendo?

Você acredita mesmo que ninguém nota os seus disfarces, principalmente aqueles usados há tantos anos?
Com que frequência e intensidade você se sente tolhido?
Você sabe o preço do seu resgate?

Dinheiro, status, poder...: você ainda não percebeu que tudo isso lhe subjuga ao invés de lhe alforriar?
Até quando você ficará preso nas chamadas redes sociais, que, na maioria das vezes, assemelha-se à areia movediça? Viver numa sociedade imagética, empestada de telas, é como ingressar numa "Casa de espelhos", que distorce a percepção de quem nela ingressa?
E se eu lhe dissess…

CONTANDO COM A SORTE>> Clara Braga

Outro dia, em uma roda de conversa, ouvia alguns colegas contarem sobre suas experiências em sorteios. Achei curioso, pois pela primeira vez parecia que eu estava conversando com a pequena parcela de pessoas que adoram um sorteio pois sempre acabam ganhando alguma coisa. Um deles, inclusive, havia sido premiado com uma viagem nacional no dia anterior durante um curso que fazia.
As vezes é bom conhecer essas pessoas para acabar com aquela constante impressão de que todo sorteio é uma marmelada. Mas, quando me perguntaram sobre minha experiência acabei sendo obrigada a cair no clichê: de graça não ganho nem injeção na testa! Até naqueles sorteios bem bobinhos que servem só para ver quem vai ganhar o que, pois tem presente para todo mundo, eu fico sem nada pois esquecem de colocar meu nome.
Mas logo depois de compartilhar minha falta de sorte lembrei que eu estava sendo injusta. Houve uma vez na qual eu estava fazendo um curso de fotografia com um fotógrafo que eu admiro muito e, como p…

EXAMES DE ROTINA >> Sergio Geia

Bom. Se crônica é isso, falar de coisas pessoais, assim, assado, e Clarice tentou fugir e não conseguiu — veja em Viajando por Mar, “um dia telefonei para Rubem Braga, o criador da crônica, e disse-lhe desesperada: ‘Rubem, não sou cronista, e o que escrevo está se tornando excessivamente pessoal. O que é que eu faço?’ Ele me disse: ‘É impossível, na crônica, deixar de ser pessoal’. Mas eu não quero contar minha vida para ninguém: minha vida é rica em experiências e emoções vivas, mas não pretendo jamais publicar uma autobiografia. Mas aí vão minhas recordações de viagem por mar” —, allá voy, ou, aí vai ela, pois, para o caso, deixo a crônica falar.
E ela fala assim: Sexta-feira brilhante, sexta-feira-ouro, bela, belíssima. Aliás, no outono é sempre igual — as folhas caem no quintal (by Sandy e Junior) — os dias tomam banho de tanta lindeza. É como se o dia ou o que entendemos por essa abstração chamada dia, suas manhãs, tardes, noites, brisas, luz, cores recebesse uma roupa nova, fo…

SIGA O SEU HORÓSCOPO >> Zoraya Cesar

O horóscopo de seu signome* para aquele dia não podia ser mais objetivo:
No dia de hoje tudo dará certo. Ou não. Cuidado: complete suas tarefas com atenção. Você vai receber um inesperado pedido de ajuda. Não negue. E não esqueça, Feiticeiro estúpido, de alimentar seu gato, limpar a gaiola dos Pássaros Lunares e mantê-los bem guardados. Ou tudo dará errado. Durma cedo.
O Sr. Amadan sentiu-se incomodado com o epíteto. “Aposto que foi aquela velha mofenta, a Srta. Ollean, quem fez o horóscopo de hoje. Ela não trabalha com seriedade. Vai ver ainda está chateada porque a poção de amor que preparei não funcionou. Não há feitiço no mundo que faça alguém gostar daquele dragão de Komodo vesgo!” Convencido que o horóscopo daquele dia não deveria ser levado a sério, e que a Srta. Ollean queria se vingar, resolveu fazer tudo ao contrário. Afinal, ele era um feiticeiro, não um supersticioso qualquer. Por via das dúvidas, no entanto, leu toda a mensagem de trás para frente, a fim de desencantar qual…

GATOS>>Analu Faria

Há alguma coisa no movimento dos gatos que deve se assemelhar ao movimentos dos deuses. Sabe as histórias mitológicas em que seres divinos se moviam sem esforço pelo céu, pairavam sobre águas, flutuavam no vazio? Os gatos fazem tudo isso. O céu, no nosso pobre cotidiano, são os telhados das casas. As águas são as poças que se formam depois da chuva, mini-piscinas de sujeira por sobre as quais qualquer filhote de gato sabe pular. Ah, o pulo do gato! Contemple um pulo de gato e você saberá o que é flutuar no vazio.
Não há o que o gato faça que não fascine um bom humano. Podiam mesmo mudar aquele versinho de samba para "Quem não gosta de gato bom sujeito não é." A forma como se aboletam nas suas pernas quando você tenta dormir ou a preguiça durante quase todo o dia, que se transforma no fuzuê das três da manhã, é tolerada com parcimônia por qualquer um que tenha um arremedo de coração. Não entendo por que não dizem que o gato é o melhor amigo do homem.
Também não sei  por que …

A MORTA >> Carla Dias >>

Está morta.

É preciso que vocês entendam: morta. Morta de morte que nem ressurreição resolveria. Não está dormindo. Beijo de príncipe não a traria de volta. Não está apenas apagada. Medicina não resolveria.

Morte morrida, zero batimento cardíaco.

Ao redor dela, que está ali, deitada no meio da sala, há uma variedade de lamentos mudos, ecoando, gritantes, na cachola dos convidados. Obviamente, os lamentos em nada têm a ver com a morta, mas sim com os próprios lamentadores. É que a morte do outro serve de roupa de gala à preocupação dos vivos, dos que ficam à mercê do ocorrido.

E se fosse eu?

Alguns choram, estarrecidos com a ousadia da morta em partir justo em dia de festa. Alguém ganhou algo. Não importa se por merecimento, mas sim o fato de ter ganhado algo que vale um jantar envolvido por requintes. O evento seria uma comemoração, que não importa qual, assim, com detalhes, ou quem, assim, com nome e sobrenome. Importante mesmo é a fartura da mesa posta para a comemoração, assim, int…

QUEM É A CRIANÇA MESMO?? >> Clara Braga

Sei que a data pede uma crônica de amor. Talvez, dependendo do seu ponto de vista, o que estou prestes a contar pode ser puro amor. Porém, para uns pode parecer loucura pura. Mas tudo bem, afinal, amor e loucura não estão intimamente ligados?
Bom, lá estava eu sentada em um restaurante almoçando. Já reparei que meu filho, embora tenha apenas 8 meses, já é muito simpático. As pessoas olham para ele ele começa logo a sorrir. Se no local onde estamos tiverem outras crianças, aí é que ele ri mesmo. Dá uns gritinhos para chamar a atenção da outra criança e estica os bracinhos indicando querer chegar perto. Até então, a aceitação da tentativa de contado dele, mesmo sendo limitada, tinha sido de 100%, por isso imaginei que isso fosse uma "coisa de criança", elas se comunicam, se entendem e interagem por gostarem de outras crianças.
Eis que senta à mesa logo atrás um casal com seus três filhos. Pela conversa dava para perceber que eram estrangeiros, mas isso não vem ao caso nem jus…

NINHO >> Paulo Meireles Barguil

"Todo mundo quer voar além
Mas é preciso aprender." (Paulinho Pedra Azul, Voarás)
Rubem Alves, na crônica Gaiolas ou asas?, declara o seguinte aforismo: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.". Inspirado nele, eu postulo que "Há famílias que são gaiolas. Há famílias que são asas.". Talvez, seja mais adequado dizer que não existem escolas e famílias puras nas categorias acima. Escolas e famílias são constituídas de pessoas, que, por motivos diversos, oscilam, durante a vida, nesses dois polos. Portanto, somos, cada um de nós, gaiola e asas, para a gente e para os outros. As minhas asas podem ser gaiola ou asas para outra pessoa. Da mesma forma, minha gaiola pode ser gaiola ou asas para outro indivíduo. Por mais que goste e precise de voar, um pássaro não faz isso o tempo todo. Há várias pausas, as quais possuem finalidades diversas.

Lembro-lhe, também, que várias são as aves: cada uma se desloca de modo peculiar. A família é o ninho do ser …

INSTÁVEL >> Carla Dias >>

Foi elaborado com cuidado, desenvolvido com paciência. Está pronto, implementado, trabalhando como se deve. É possível se perceber os resultados positivos. As pessoas se sentem mais animadas, dedicam-se com mais ousadia, o que sempre respinga no departamento criativo e lota a pequena área comum, em momentos de café e conversa fiada.

Porém, é a sua criatividade que anda trabalhando meio na borderline.  Entediou-se durante a reunião de replanejamento, porque tudo que começa com “re” anda abusando da sua paciência. Veja o recomeço... Quem mesmo quer passar a vida a celebrá-lo? Recomeço é bom quando é primeiro. Experimente o segundo e mantenha o pique. Trabalhe duro e dedicadamente na terceira versão.

Depois conte aos amigos como foi recomeçar pela centésima vez, com o mesmo tom de esperança da primeira na voz.

Fez essa lista para pontuar seus recomeços. Está no vigésimo segundo. No anterior, desapegou-se dos mistérios do espírito. Amanheceu nesse a flertar com as viradas da ciência. Aba…

DOCE FÁBULA DE UMA TRAIÇÃO >> Sergio Geia

Desde que a conheceu ele sonhava com aquele dia. Não queria se amarrar, mas com ela foi diferente. Nas baladas, era comum ficar com uma ou outra, beijar, uns amassos, terminar a noite num motel às vezes, mas depois, não queria saber. Um amor destruído por picuinhas fechara a sete chaves o seu coração. Mas aí ela veio, meiga, doce que só ela, ele não aguentou. No começo, até que tentou resistir; dizia a seu coração, como se diz a alguém, como se ele fosse gente que nem eu, você, e ouvisse: “deixa disso, migão! Você sabe como funciona, não entra nessa!”. Tentou dominar o sentimento (e sentimento se domina?), controlar o ímpeto da paixão, mas aqueles olhos de mel, a pele branca igual neve, os cabelos quase ruivos, bom, você deve saber. Passaram-se quase dois anos de namoro fresco, calmo, como uma tardezinha de domingo, mas também quente entre quatro paredes, e ele tratou de ir à casa do sogro pedir a mão daquela que escolhera para acompanhá-lo por todo o sempre. O pai da noiva, homem rústi…