Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2020

COROA >> Paulo Meireles Barguil

O que é uma moeda sem coroa?


O que é um dente sem coroa?


O que é uma flor de maracujá sem coroa?


O que é um(a) monarca sem coroa?


Como viver na Dinamarca sem coroa?


O que é uma montanha sem coroa?


O que é um diamante sem coroa?


O que é uma cavalgadura sem coroa?


O que é um coronavírus sem coroa?

CANÇÃO 5 DE 7 | TO LOVE SOMEBODY >> Carla Dias >>

Há o que entendemos apenas com o tempo, quase sempre quando o tempo já se mostra encharcado de passado. Feito ele...
Ah, sim... Sou eu, a narradora intrometida, que vive observando personagens mais de perto, buscando entender em que tipo de criaturas eles se transformam.
Que tipo de pessoas eles são.
Aqui mora um agrado para uma inexistente feito eu, que adora uma ironia justificável. É que, sentada nesse sofá, esparramada em conforto e reclusão alheia, vislumbro um acontecimento tão comum, quanto ignorado. Uma daquelas certezas que as pessoas escolhem desconhecer e amam alardear, quando envolvidas nas malhas dela, porque não querem sentir completamente a fragilidade que a acompanha.
Mas e quando abraçam esse conhecimento?
O personagem de hoje observa a bela vista de uma cidade imensa. Sempre quis morar nesse lugar: no alto, último andar, quase céu. Sempre quis observar a cidade de cima, de longe, envolvido pelo silêncio digno dos excêntricos que ainda se atrevem a fazer long play gi…

BEM-VINDOS AO FIM, DE NOVO >> Clara Braga

O mundo vai acabar de novo! Você ainda não está sabendo? Pois trate de se preparar, pois temos apenas até o dia 16 para vivermos felizes, depois o mundo acaba!
Aparentemente os cálculos foram feitos por um cientista respeitado, e ele afirma que no próximo dia 16 um meteorito irá colidir com a Terra e acabará com o planeta de uma vez por todas.
Várias foram as vezes que ficamos apreensivos com esse papo de fim do mundo, essa não seria a primeira vez que alguém define o dia que o mundo irá de fato acabar, mas como nas outras vezes a previsão não vingou, talvez seja melhor não mudar muito a rotina.
Continue passando repelente, a situação da febre amarela anda grave mesmo e se o mundo não acabar você não vai querer aproveitar os próximos dias doente, não é mesmo? Principalmente porque se o mundo não acabar significa que teremos carnaval! 
Também não se anime a se arriscar muito, não fique sozinho na rua em lugares escuros, os sequestros relâmpagos estão cada vez mais violentos, principal…

GUDE >> Albir José Inácio da Silva

A Janela
As bolas de gude voavam em todas as direções. Antes de entrar em casa, Roberto soltou as que tinha na mão, pegou uma pedra e, com uma mira que não mostrou no jogo, acertou a cabeça de Adilso.
Adilso, de pé sobre o triângulo para proteger as mais de quatrocentas bolas que ganhou, limpou o sangue da testa com as costas da mão e pegou uma bilha.l A bola de vidro deixa um roxo na pele, mas a bilha de aço é uma arma.
A mira que fez Adilso ganhar todas as partidas o abandonou, o arremesso passou por cima de Roberto e atingiu a janela.
Durante a batalha eu me escondi atrás da amendoeira. Adilso juntou na camisa as bolas que sobraram no triângulo, recolheu as que encontrou em volta e foi pra casa, o sangue já seco na testa.
O largo da amendoeira ficou vazio, como sempre acontecia depois das brigas. Quando eu fui pra casa, Dona Dalva, mãe do Roberto, batia palmas no portão do Adilso.
O Jogo
Era um tempo sem televisão, pelo menos pra nós. Na casa do Roberto tinha, mas de vez em quando e…

QUANDO TUDO ISSO PASSAR >> Sandra Modesto

Eu serei outra. 
Quando tudo isso passar 
Um cheiro diferente será protagonista no ar. A morte exalada. 
Quando tudo isso passar 
A solidão estará cravada em mim. 
 Por muitas noites passei no escuro a me buscar. 
 E quando amanhecia eu via... 
Os olhos, os danos, as perdas. 
Quantas desilusões das famílias aflitas. 
As pessoas não sabiam em quem acreditar. Muitas bobagens pra vender notícias. 
Eu vou lembrar-me dos ovos mexidos que não fiz nos meus cafés das manhãs. 
Das ruas vazias, o sol preso no olhar. Na lua que eu perdi. 
O meu lento caminhar dentro de casa. O latido do meu cão em ritmo estranho. 
Muita gente sufocada. Muitas neuroses. 
Quando tudo isso passar 
Que estranho. 
Quando tudo isso passar... 
Tudo será tão diferente. 
As poesias mais doídas. 
Bares abertos, lojas abertas, gente vendendo. Lucros. 
Gente vomitando o que ainda não engoliu. 
Nada é eterno. 
A juventude não é eterna. Governantes não são eternos. Quando tudo isso acabar... 
Quem dirá? 
Foi só uma "g…

IMPRESSO NO CORPO >> Cristiana Moura

Era um evento lindo — Festival Internacional de Arte de Rua de Lyon. Eu estava eufórica de tanta
beleza! Grafites adentrando-me o corpo todo pelo olhar. Cores e formas doando -me sua vitalidade.
Havia três tatuadores de plantão no festival. Sempre pensei que tatuagem há de ser algo muito pensado. Vejam bem, não é uma decisão banal. Fiz minha primeira tatuagem após os quarenta anos de idade. Decidi a imagem que queria em minha pele e, Tereza Dequinta desenvolveu. Gostei, mas ainda queria mais movimento. Ela a refez e ,de repente, foi como se Tereza tivesse entrado em meu pensamento e transformado meu sonho em gestos leves gravados em linhas — arte para minha pele.
Mas era um festival. A experiência de intercâmbio pós juventude a criar uma bruma leve nas possibilidades temporais dos possíveis. Sou impulsiva. Mas não para tatuagens. Estas a gente cria devagarinho como a obra de Tereza em minhas costas.
— Vou fazer uma tatuagem! — Pois vou filmar tudo — disse Shana, uma recém amiga e óti…

CATADORES DE ALMAS - 2a PARTE - Uma aventura de Lucrécio Lucas e Padre Tércio >> Zoraya Cesar

Um Catador de Almas agiu durante uma celebração de Padre Tércio. Urgia resgatar a alma roubada antes que fosse tarde demais. E Padre Tércio sabia quem poderia ajudá-lo.
Uma hora da manhã. O telefone começou a tocar. Lucrécio Lucas estremunhou debaixo dos lençóis. Uma parte de sua mente recusava-se a aceitar a interrupção do sono. Outra parte gritava acorda acorda acorda.  Ele abriu os olhos e tateou na escuridão, tentando alcançar o aparelho e calar o som inconveniente. Olhou o visor. Padre Tércio chamando. Uma corrente de adrenalina perpassou seu corpo, acordando-o completamente. 
- Meu amigo, acabaram de roubar uma alma bem debaixo do meu nariz. Devo estar ficando velho. Não percebi a aproximação da criatura. Bem, percebi junto com o cachorro, já é um consolo. 
Lucrécio Lucas sorriu. Nunca que o Padre Tércio, não importava a situação, perdia o humor.

- Estou à disposição, Padre. Quer que vá buscá-lo?

- Não, obrigado. Prefiro que deixe preparado meu cálice de Sheridan's com café,…

Vizinha Fake News >>> NÁDIA COLDEBELLA

A primeira fake news da vida de Ana chegou quando ela devia ter três, quatro anos: – Menina, não aponta o dedo pro céu pra contar estrela que vai nascer verruga – era a vizinha quem dizia. Isso foi terrível, primeiro porque ela não queria ter verruga nos dedos, depois porque amava contar estrelas. E ela tinha contado muitas estrelas aquele dia. Junto com a filha da vizinha. Foi dormir e o sono não foi tranquilo. Estava muito preocupada com a quantidade de verrugas que iriam nascer nos seus dedos. – Será que vai ser uma verruga para cada estrela? – pensou no meio da noite, desatando a chorar. Felizmente em seus dedos nenhuma verruga nasceu. Alguns dias depois, percebeu que os dedos da filha da vizinha estavam infestados de bolinhas estranhas. Anos mais tarde, Ana descobriu que isso era comum em crianças ansiosas, o que fazia todo o sentido em se tratando da filha da vizinha, que tinha uma mãe como aquela. Ana cresceu e passou a subir escondida no telhado da casa. Gostava de ficar lá, só olha…

CANÇÃO 4 DE 7 | FALA >> Carla Dias >>

Há dias em que ele engasga. Diz nada, nada. O engasgo dele se arrasta pelas horas, acompanhado de um silêncio que reverbera carrancudo na imaginação dos seus observadores da rotina. 
O que você tem hoje? 
Ele escuta, tenta até oferecer sorriso, que morre ali mesmo, no parco desejo de sorrir.
Não, não... Ele não é daqueles... Sim, ele sabe. Porque a conheceu, entendeu logo que ela seria companhia esporádica, de breves e devastadoras visitas. Que de nada valeria tentar esticar duração daquela desesperadora excitação que o invadia, a cada vez que ela abria a porta e entrava, como se pertencesse à arquitetura do momento.
A cada vez que a encara, dramática na sua chegada, sente-se miúdo, menino sem ideia do que fazer para fugir do que o agonia, mesmo sendo bom. Principalmente por ser bom.
Ah, a tal ardilosa felicidade. Descartadora de proteções necessárias para não se morrer de secura de sentimento.
Mas em dias como este, ele tropeça nesse silêncio, como se o tal tivesse forma e se escoras…

NÓS PODEMOS SER HERÓIS >> Clara Braga

Às vezes me pergunto de onde vem a necessidade de termos heróis da vida real.
O que me incomoda de fato não é nem a necessidade do herói em si, tudo bem dizer que seu pai, por exemplo, é seu herói. Tudo bem dizer que alguém que você admira fez algo que você considerou um ato heroico. A situação começa a me incomodar quando as pessoas passam a projetar naquela pessoa que fez algo muito bom, a imagem do herói que não erra, que não falha, que sempre aparece quando é necessário, que milagrosamente está sempre atento às situações de perigo e que, caso o perigo seja muito grande, ele tem amigos tão heróicos quanto ele que irão se juntar sem pestanejar para resolver tudo o que for necessário.
Sim, os heróis dos desenhos usam máscaras, escudos, capas, identidades secretas e tudo mais que for possível para deixar bem claro que eles são seres fantásticos. Mas nada disso é suficiente para que a gente pare de projetar em pessoas reais os super poderes sobrenaturais.
E o que mais me intriga nessa…

óbvio olhar >>> branco

meu olhar pregado no Cristo pregado na cruz pregada na parede do meu quarto












cai o pano
o crucifixo (artesanato em madeira e bronze) por  Mário Branco
foto Marinho

COISAS VELHAS E LUGARES VAZIOS >> Fred Fogaça

Eu disse: mano, é foda - umas razões estranhas atravessando os meus motivos - você não vai entender, eu disse, é complicado, quantas quinas tem uma culpa? São quanto os amores até nos desmontarmos no fim? - e eu que já esgotei meus santos e as últimas instâncias do esotérico atrás dessa pergunta - atrás de uma pergunta pra resposta qu'eu já tenho - mano, sei lá, eu não sei se consigo mais, eu reforço, se isso já não se tornou passageiro demais pra minha estadia demorada. Essa resposta que eu sempre tive, essas desinteligências a que sempre recorro. - mano, é tudo complicado agora, eu sei que nada é tão seu - eu digo, eu digo mas não lamento, as coisas tem sido o que elas tem sido e isso é fatal - mano, e só me sobro sem bastar, agarrado em paranoias, estendendo meus direitos à medida de minhas culpas - porque, o que há pra mim que não me faça cair em hipocrisia? - a perversidade no fundo de um talvez que tenho feito vista grossa e o que são esses motivos que atravessam minhas raz…

ATÉ QUANDO, NÃO SEI... >> Sergio Geia

A aurora matizava o céu de lilás e dourado e me pegou a caminhar. 
Não. Não afrouxei o isolamento. Continuo de quarentena. Até então saía uma vez por semana, aos domingos, para levar almoço à minha mãe. No retorno às caminhadas, procurei o melhor horário, o mais conveniente espaço. Saio vestido também de máscara, espeto um boné na cabeça, guardo o álcool gel no bolso. Na volta, o ritual: banho, roupas na máquina, tênis ao sol, depois de higienizado. 
O meu corpo sentia carências, e estava a funcionar mal. O intestino retornara à velha preguiça de sempre. Os movimentos de braços e pernas eram dificultosos e lentos. Qualquer tempinho gasto em posição imprópria se transformava em dores por dias. A cabeça, às vezes, não encontrava o ponto que gera equilíbrio. Assim, a mim, caminhar se impôs; mais do que prazer, necessidade. 
Que tempos estranhos. Eu encontro alguém sem máscara na rua, e sinto imediata repulsa. É ruim esse sentimento, ainda mais quando a gente avista que a rua anda apinha…

RELATIVO >> Paulo Meireles Barguil

O impacto da resposta depende da pergunta e da perspectiva do indagador.
O positivo pode ser negativo.
O negativo pode ser positivo.
Acrescente-se, ainda, que o tempo é um tempero, que altera o sabor dos fatos.
Ora, adoçando.
Ora, salgando.
Outras vezes, contudo, conserva o gosto original.
Ou, ainda, o aguça.
Diante de uma palavra desagradável, você pode fazer uma nova interrogação, procurar outro respondente, realizar algum ritual...
O tormento pode ser avassalador, mas ele também será dissolvido.
Tempus fugit!

ISOLAMENTO >> Whisner Fraga

A campainha relincha como há muito não fazia. Nesta saudade, teima, se esmera. Visita, em época de isolamento? Peço para aguardar, ajeito a máscara, apanho o álcool e, com a porta ainda fechada, pergunto quem é. É o zelador. Grito para que me explique o que se passa. Um vazamento que está alagando o banheiro do apartamento de baixo. Quer entrar, dar uma olhada pela casa, tentar bisbilhotar a origem da nascente. Informo que estamos num esquema de distanciamento social e ele, inconveniente, alega que não é bem assim, que me viu outro dia saindo. Esclareci, embora nem devesse, que o destino, naquela vez, havia sido o supermercado. Daí ele alegou que a urgência era do mesmo naipe e que o melhor era que eu o deixasse entrar. Com lógica é difícil de brincar, pensei. Questionei se estava com máscara. Estava. Pedi que tirasse os sapatos e então ele podia entrar. Tirou. Gritei um fique à vontade e corri de perto. Nem vi a hora que o sujeito deixou o apartamento. Berrei se havia alguém em casa …

CANÇÃO 3 DE 7 | SHADOW SONG >> Carla Dias >>

Que as noites continuem longas e silenciosas. Se for para quebrar silêncio: umas e outras canções, mas nunca rezas, que elas não o encantam, apenas o irritam. Mas todo o resto? Não tire do lugar o sofá, a mesa de jantar, a lâmpada que já não aguenta mais espalhar luz pela sala, mantendo o ambiente mergulhado em quase escuridão. Ajudando a embaçar realidade. 
Mantenha os porta-retratos dispostos sobre o aparador. Nele moram imagens que ele não quer que lhe escapem. Deixe tudo onde tudo deve permanecer, protegendo marcas do tempo, onde se deitam lembranças de nascimentos, jornadas e mortes. Amores, dores e pequenos horrores, até risíveis tragédias. 
Não preste atenção a ele, que, a cada olhar mais atento, cria um muro ainda mais alto do que o anterior. E ele o faz sorrindo, como se permanecer onde está – desejando com certa polidez o desejo que pede alvoroço, aprendendo da vida somente o que não desafia seus medos – fosse vitória. No entanto, trata-se de um desfile de perdas.
Perde que…

REFORMARAM A QUADRA >> Clara Braga

Reformaram a quadra!
A quadra poliesportiva que fica entre vários prédios residenciais, onde moram várias crianças, foi revitalizada.
Tiraram o lixo, os galhos que caíam das árvores próximas e pintaram o muro.
Quem passa muito por ali com certeza percebeu, parece que ficou mais claro, mais limpo, além de ser uma nova possibilidade de brincadeira para as crianças que ficavam jogando bola no gramado.
Na verdade, poucas pessoas devem ter notado, pois estamos todos quarentenados. E não sabemos bem quando as crianças vão fazer uso dessa quadra, pois também não podem sair de casa.
Mas tudo bem, reformaram a quadra abandonada... ou quase abandonada. Uma família de rua morava ali há um tempo. O fato da quadra ficar atrás de uma igreja devia ser favorável, via muita gente fazendo doação. Em tempos de quarentena, observei que logo deram máscaras para essas pessoas e também vi doação de água com sabão para a higiene das mãos.
As doações incomodavam alguns moradores, afinal: “se facilitarmos a v…

ISSO EU JÁ SABIA >> Albir José Inácio da Silva

O estalo no degrau interrompeu a respiração dos presentes. A escada caiu sobre o púlpito e resvalou para o chão em câmera lenta. Mas os cem quilos do diácono Josias foram mais rápidos. Equilibrado e cuidadoso, Josias não combinava com quedas, então aquilo se explica por artes do tinhoso.
Era um tempo de vacas magras, não havia ainda igrejas-palácios com vidro fumê e aço escovado nem pastores milionários. Obras, consertos e limpeza ficavam por conta dos mutirões em que todos os fiéis eram convocados.
Muito trabalho, mas também a alegria do pertencimento, da convivência fraterna. As irmãs entravam e saíam com lanches, opiniões e sorrisos; os varões concluíam os reparos no teto e nas paredes e nós, os juniores, éramos encarregados da limpeza. Tudo harmonia e pressa, amanhã, domingo, tinha escola dominical.
O mais graduado ali era Josias, um diácono de voz macia e gestos suaves que contrastavam com o vigor dos braços e a obstinação para o trabalho. Tinha também o irmão Manassés, um canto…

TRITURADOR DE SONHOS >> Sandra Modesto

Começaram a namorar durante o curso de teatro amador. 
Uma história de amor forte. Ávida para o real. Juntaram as mochilas. Foram morar juntos. 
Noites e dias de amor. Orgasmos, delírios e suspiros. 
A pandemia chegou. Assistiam aos possíveis vídeos online. A ansiedade deu sinal. Um belo dia de domingo, exaustos de Brasil, alguma coisa tinha que acontecer. 
 — Olha! Isso não está certo. O presidente com Covid, e o povo desejando que ele morra!
— O quê? Você votou nesse cara?
— Votei. 
— E não me contou? 
— Não. O voto é secreto. 
— Ah, tem razão. Não votei nele. 
— Não? E me contou agora? 
— Sim. O voto é secreto. Eu votei no professor. Fiz campanha. Sabe naquela manhã de setembro de 2018? Enquanto você virava pra o canto da cama, eu fui às ruas virar votos. O dia em que mulheres de todo o Brasil, se juntaram ao movimento “ELE NÃO”. No segundo turno, fui ao local de votação com um livro. Ah, você não reparou. Escolhi o livro de uma escritora preta, mineira, talentosa. Você sabe…

CATADORES DE ALMAS - UMA AVENTURA DE LUCRÉCIO LUCAS E PADRE TÉRCIO - parte 1 >> Zoraya Cesar

Cansados de chorar, família e amigos externavam sua exaustão em semblantes compungidos e pesados. O corpo jazia ainda entre flores e, até então, o único rosto a apresentar algum tipo de paz era o do morto.

Padre Tércio chegou, para encomendar a alma. Tudo ocorrera muito rápido, quando o chamaram para a extrema unção já era tarde. 
A percepção da passagem do tempo é algo tão sutil e individual, não há como qualificá-la. Basta dizer que certas pessoas a têm em alto grau. Ao começar o ritual, Padre Tércio sentiu o tempo parar por um átimo de segundo e percebeu o que ocorrera nesse período. No mesmo instante, o cachorro do defunto latiu, rosnou, inquietou-se, e começou a ganir baixinho, causando espanto em todos os que conheciam sua mansidão e quietude. Ninguém, a não ser o Padre, notou: as feições do morto já não estavam tão tranquilas... 
Experiente, sabia que de nada adiantava fazer alguma coisa. A família pensaria que ele enlouquecera  (já não tinha fama de ser muito normal). Pois co…