GUDE >> Albir José Inácio da Silva
A
Janela
As bolas de gude voavam em todas
as direções. Antes de entrar em casa, Roberto soltou as que tinha na mão, pegou
uma pedra e, com uma mira que não mostrou no jogo, acertou a cabeça de Adilso.
Adilso, de pé sobre o triângulo
para proteger as mais de quatrocentas bolas que ganhou, limpou o sangue da testa com as costas da mão e pegou uma bilha.l A bola de vidro deixa um roxo na pele, mas
a bilha de aço é uma arma.
A mira que fez Adilso ganhar
todas as partidas o abandonou, o arremesso passou por cima de Roberto e atingiu
a janela.
Durante a batalha eu me escondi
atrás da amendoeira. Adilso juntou na camisa as bolas que sobraram no triângulo,
recolheu as que encontrou em volta e foi pra casa, o sangue já seco na testa.
O largo da amendoeira ficou
vazio, como sempre acontecia depois das brigas. Quando eu fui pra casa, Dona
Dalva, mãe do Roberto, batia palmas no portão do Adilso.
O Jogo
Era um tempo sem televisão, pelo
menos pra nós. Na casa do Roberto tinha, mas de vez em quando ele jogava com a
gente. A brincadeira na sombra da amendoeira começava na camaradagem, com apertos
de mão e empréstimos para os que não tinham. As apostas, tímidas a princípio,
chegavam ao final com centenas de bolas no triângulo.
Roberto foi limpando os outros
garotos que, como eu, traziam meia dúzia de bolinhas suadas. Não tirava da cara
o sorriso de vencedor. Trouxe um saco de bolas novinhas da loja, que ainda
estava cheio porque ele ganhava. Mas empacou no coisa ruim, no tição, como ele dizia.
Adilso estava com o capeta. Acertava
bolas impossíveis, topava qualquer aposta, dobrava. Nem chegava a tirar as
bolas do triângulo. Começou com quatro que eu emprestei só pra ele não ficar
sem jogar porque era meu vizinho. Os depenados iam saindo e reclamando de roubo.
Os que ficavam faziam ameaças com palavras, gestos e carrancas. A temperatura
subia a cada lance.
Lá pelo meio da manhã já estava
todo mundo liso, Roberto perdia, enquanto as latas enferrujadas do Adilso
estavam lotadas.
Pra piorar, Adilson ganhou a
saída. Com suavidade rolou a bola pra perto do triângulo. Dava palmo. Roberto
procurou ficar fora do alcance do endemoninhado. Adilso mediu, roçou o alto da
bola mais destacada, que saiu suavemente, e a de jogo foi parar a dois metros
do fujão. Roberto ainda estava confiante: vai errar! Estava meio protegido por
uma raiz. Adilso ficou de pé e o polegar soltou a bola com tanto efeito que ela
fez uma curva. Um barulho choco, sem piedade, no alvo.
Roberto não ligava a mínima pra
aquelas bolas, podia comprar quantas quisesse, mas a humilhação era demais! Já tinha
perdido outras vezes. Mas pra aquele neguinho?! Aquilo era coisa feita. A mãe
dele mexia com isso. Aquele moleque não estava sozinho não!
- Então vamos aos tudo! – gritou
Roberto - Eu boto isso aqui – disse entornando o resto das bolas que tinha – e
mais dez cruzeiros. Mas ninguém vai fugir do jogo! – ameaçou, de mãos fechadas,
cara franzida e respiração soprada.
Adilso não pensava em fugir de
nada, ganhou tudo até ali e se perdesse não ligava. Chegou de mãos abanando e
agora era o único que sorria.
Começou outra partida. Silêncio.
Ouviam-se as respirações. Depois de quatro jogadas, com um teco de três metros
de distância, Adilso liquidou o jogo.
Vi quando Roberto cochichou com
uns moleques e eles gritaram:
- Avanço!
O Avanço
Trata-se o
avanço de uma subversão, um motim, um golpe no vencedor, na civilidade, no
direito, na paz e na amizade. Devastador e de consequências imprevisíveis.
(Continua em
24/08/2020)
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