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CANÇÃO 4 DE 7 | FALA >> Carla Dias >>


Há dias em que ele engasga. Diz nada, nada. O engasgo dele se arrasta pelas horas, acompanhado de um silêncio que reverbera carrancudo na imaginação dos seus observadores da rotina. 

O que você tem hoje? 

Ele escuta, tenta até oferecer sorriso, que morre ali mesmo, no parco desejo de sorrir.

Não, não... Ele não é daqueles... Sim, ele sabe. Porque a conheceu, entendeu logo que ela seria companhia esporádica, de breves e devastadoras visitas. Que de nada valeria tentar esticar duração daquela desesperadora excitação que o invadia, a cada vez que ela abria a porta e entrava, como se pertencesse à arquitetura do momento.

A cada vez que a encara, dramática na sua chegada, sente-se miúdo, menino sem ideia do que fazer para fugir do que o agonia, mesmo sendo bom. Principalmente por ser bom.

Ah, a tal ardilosa felicidade. Descartadora de proteções necessárias para não se morrer de secura de sentimento.

Mas em dias como este, ele tropeça nesse silêncio, como se o tal tivesse forma e se escorasse no corpo dele, que tem de se esforçar para não tombar e cair de vez. Um peso de silêncio é coisa séria. Ele sabe... Sabe há muito tempo. Porque, não... Ele não é daqueles que ignora elefantes na sala, desafios de destino ou o escambau que o valha. Não é de ignorar probabilidades, indiretas – das pessoas e da vida –, estremecimentos ou incompatibilidade com o desfecho que outros escolhem e caem na história dele. Ele é ser que se manifesta, que compreende as limitações do seu entendimento com o mundo, então, aprende sempre que o aprendizado vale a pena. E muda, toda vez em que a mudança se mostra justa e necessária, ou até mesmo porque se vê curioso sobre como seria.

Como seria já deu em muita coisa boa, apesar de o primeiro pensamento sempre descambar para o precipício, feito protagonista de filme épico, baseado no inferno.

Nem pense nisso. Não se trata de alguém que desconhece palavras. Ele conhece muitas, diversas, em outros idiomas. Ele as aprecia, é articulado e interessante. Mas em dias feito este, de engasgo amplificando o que falta, quando o silêncio é um quarto vazio, desprovendo de som o grito que ele necessita lançar ao mundo; de quando as palavras moram amargas no engasgo, desestruturadas, sussurrando desculpas gentis nos ouvidos da agonia nada modesta na sua capacidade de fazer seu trabalho. Em dias como este, de engasgo feito este, ele não é de verbalizar o de sempre. Não é de dizer o que é dito quase que rotineiramente, em diversas versões, em um bradar de repetições das quais o ser humano precisa dispor, para manter certa sanidade. 

Então, ele escuta.

O silencio que o invade, de jeito que exige provar que ele não pode com esse engasgo, é o que há de mais massacrante. O corpo dói o que o sentimento não rasga. Os olhos não enxergam o que a necessidade busca. Rotas de fuga nunca dão em saída, mas em lamaçais e doses abismais de solidão. E tudo vem acompanhado da indiscreta estrepolia que é o disparate, porque o que ele deseja, durante o silêncio em engasgo é falar.

Falar ele considera impreterivelmente perigoso. Tem um algo de verdade desvendada no falar, quando as palavras escorregam de dentro, lançando-se, corajosamente, ao mundo. Porque para ele, mais do que narrar uma história, de pronunciar palavras, falar é compartilhar-se, coisa que ele faz quase nunca.

Mas a vida segue, certo? Ele faz seu trabalho, despacha seus papéis, toma suas doses de café e escuta, sem se dar ao trabalho de corresponder. Enquanto o engasgo, desafiador que é, o cutuca:

- Fala!








Comentários

Anônimo disse…
Muito bom essa ideia de juntar texto com música. A música envolve, dá vontade de dançar e utiliza mais um dos sentidos. Ótimo texto, só posso elogiar e agradecer pelos textos postados aqui. Só tem escritor fera nesse blog.
Sandra Modesto disse…
O lirismo da crônica me envolveu muito. A música casando com o tema é a perfeição da perfeição. Vou copiar a ideia (risos)
Albir disse…
Ney Matogrosso fala à alma, sem intermediários.
Carla Dias disse…
Anônimo, obrigada pela leitura, pela dança, pela cadência.

Sandra, Sandra... grata, minha cara. Fique à vontade e se apodere da ideia. Beijo!

Albir, Ney Matogrosso é uma daquelas vozes que entram na gente, espiam tudo e depois saem, deixando saudade.