Pular para o conteúdo principal

QUANDO TUDO ISSO PASSAR >> Sandra Modesto

Eu serei outra. 

Quando tudo isso passar 

Um cheiro diferente será protagonista no ar. A morte exalada. 

Quando tudo isso passar 

A solidão estará cravada em mim. 

 Por muitas noites passei no escuro a me buscar. 

 E quando amanhecia eu via... 

Os olhos, os danos, as perdas. 

Quantas desilusões das famílias aflitas. 

As pessoas não sabiam em quem acreditar. Muitas bobagens pra vender notícias. 

Eu vou lembrar-me dos ovos mexidos que não fiz nos meus cafés das manhãs. 

Das ruas vazias, o sol preso no olhar. Na lua que eu perdi. 

O meu lento caminhar dentro de casa. O latido do meu cão em ritmo estranho. 

Muita gente sufocada. Muitas neuroses. 

Quando tudo isso passar 

Que estranho. 

Quando tudo isso passar... 

Tudo será tão diferente. 

As poesias mais doídas. 

Bares abertos, lojas abertas, gente vendendo. Lucros. 

Gente vomitando o que ainda não engoliu. 

Nada é eterno. 

A juventude não é eterna. Governantes não são eternos. Quando tudo isso acabar... 

Quem dirá? 

Foi só uma "gripezinha”. 


Publicado, originalmente, na revista Ruído Manifesto. No mês de abril. 

Imagem:. https://pin.it/7xrxmON

Comentários

Laércio disse…
Linda crônica. Saborosa de ler. Parabéns.
Albir disse…
"O sol preso no olhar"e um grito preso na garganta,"Fora!"
Quando tudo isso acabar...