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CANÇÃO 5 DE 7 | TO LOVE SOMEBODY >> Carla Dias >>


Há o que entendemos apenas com o tempo, quase sempre quando o tempo já se mostra encharcado de passado. Feito ele...

Ah, sim... Sou eu, a narradora intrometida, que vive observando personagens mais de perto, buscando entender em que tipo de criaturas eles se transformam.

Que tipo de pessoas eles são.

Aqui mora um agrado para uma inexistente feito eu, que adora uma ironia justificável. É que, sentada nesse sofá, esparramada em conforto e reclusão alheia, vislumbro um acontecimento tão comum, quanto ignorado. Uma daquelas certezas que as pessoas escolhem desconhecer e amam alardear, quando envolvidas nas malhas dela, porque não querem sentir completamente a fragilidade que a acompanha.

Mas e quando abraçam esse conhecimento?

O personagem de hoje observa a bela vista de uma cidade imensa. Sempre quis morar nesse lugar: no alto, último andar, quase céu. Sempre quis observar a cidade de cima, de longe, envolvido pelo silêncio digno dos excêntricos que ainda se atrevem a fazer long play girar em vitrolas e ainda se arriscam a tocar um instrumento, fazendo sentimento sapatear e emudecer e se destrançar todo.

Seria uma bela história sobre alguém que, de fato, mereceu cada conquista. Nosso personagem de hoje, meus caros, é uma boa pessoa. Lembrem-se: uma boa pessoa não está desqualificada a cometer erros e algumas indecências existenciais. Parem de sintonizar a boa pessoa à perfeição, essa coisinha que não existe, mas insistimos em fazer de conta que sim.

Aliás, estou aqui, assistindo a ele, justamente porque nosso personagem parou de fazer de conta que sim. No corpo dele, tudo dói como se fosse parti-lo ao meio. O curioso é que, para ele, saber que terá de viver com a consciência sobre tal fato, é pior do que ser partido ao meio. Até me emociona, um pouco, bem pequeno, apesar de afiado, ser capaz de enxergar, em detalhes, a tristeza que o acolhe.

Esse personagem, essa boa pessoa que foi protagonista em erros diversos, que fez participações especiais em injustiças sortidas. Esse ser de último andar de prédio, da música vindo de long play, gritando aquilo que contradiz a verdade que recebeu de presente, embrulhada em uma compreensão tão profunda, que ele será incapaz de transformar em aprendizado, porque foi além das lições que a vida adora aplicar nas pessoas, enquanto aliada do universo, ele que mantém suas crias no lugar delas, mesmo quando elas pensam ser as chefes das tribos dele.

Eu poderia escrever a cena desse testemunho de narradora intrometida com um requinte digno dos clássicos, mas não. Deixo aos roteiristas a função de pensar na forma. Há uma crueza no que observo, algo tão humano, que sou incapaz de soterrar em quebras de linhas, diálogos desconjuntados, ações coreografadas para contar tempo, um telefonema provocador de conversa fiada. Então, ajoelho-me no sofá, para observá-lo: braços tocando o vidro que oferece a segura transparência que o separa da queda no colo da cidade e suas luzes dançarinas. Em outro contexto, melhor, em outro enredo, esse personagem seria um daqueles pegos no pulo pelo sentimento, que então se tornam figuras emocionalmente rastejantes em quilômetros de túneis de melancolia e questionamentos.  Contudo, aqui estamos, cena 5 de 7...

Compreender, de fato, pode ser sofrido, não é mesmo?

Ele não irá chorar, não praguejará, enquanto se declara ateu. Ele não ligará para os amigos e reclamará de como a vida pode ser cruel. Porque acontece de ela o ser, e não raramente. A vida é linda, extraordinária e cruel. A vida ensinou a ele, uma boa pessoa que recebeu dela somente o que lhe era devido, verdadeiramente merecido, um daqueles socos no estômago que deixam dor que jamais passa. A dor contínua que se torna a lembrança marcante do que ele nunca terá.

Porque há pouco, ah, na frescura da hora passada! Ele recebeu da vida a compreensão que é um verdadeiro ponto de virada. Veja só... ela levou nosso caro personagem, uma boa pessoa a se sentir imensamente infeliz, ao confidenciar a ele, depois de quase cinco décadas de existência, que amar é de uma lindeza devastadora. Amar ensina, faz desaprender intransigências, amplia horizontes, transforma riso em soluços, vice-versa.

Mas nem sempre o amor é bom na hora da conexão. Acontece de ele errar a fala.

Assim, o personagem que inspira uma variedade de desfechos no meu espírito curioso, que eu adoraria oferecer a ele, mas não posso, sofre porque sabe, de ciência colocada ali pela vida – ela que anda de caso com o universo, ele que vive de instigar o amor –, de que, apesar de ele ter amado, já compreender onde o amor dói e se deleita, ele jamais saberá o que é ser amado, compreendido como aquele provocador de sentimento que dói e se deleita e que, ainda assim, é escolhido por uma pessoa para ser amor com ela.

Amar é bom, não? Bom é o nosso personagem de hoje, alguém que tem um universo dentro de si para oferecer a quem nunca existirá, porque a vida estava em um dia ruim para escrever roteiro. E não se engane... Não virá mesmo.

Ponto e acabou.

Engulo o choro, porque esse final é mais um fim de dar início ao definhamento. O personagem, até ali tão silencioso, que se negava a verbalizar  dor, envereda-se pela música espalhada pelo lugar e cantarola, a voz quebrantada:

You don't know what it's like
To love somebody
To love somebody
The way I love you

The End.

E o personagem à mercê de tudo o que merecia, exceto aquilo que o faria apreciar tudo o que merecia e recebeu.

Alguém para amar que o amasse de volta.

Eu disse... o amor costuma errar na hora de ligar os fios. Acontece de ser péssimo em conexões.

Acabou-se.

Somebody.







Vanitas Still Life © Edwaert Collier. Imagem: Catálogo digital The Met Collection.

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