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IMPRESSO NO CORPO >> Cristiana Moura


Era um evento lindo — Festival Internacional de Arte de Rua de Lyon. Eu estava eufórica de tanta
beleza! Grafites adentrando-me o corpo todo pelo olhar. Cores e formas doando -me sua vitalidade.

Havia três tatuadores de plantão no festival. Sempre pensei que tatuagem há de ser algo muito pensado. Vejam bem, não é uma decisão banal. Fiz minha primeira tatuagem após os quarenta anos de idade. Decidi a imagem que queria em minha pele e, Tereza Dequinta desenvolveu. Gostei, mas ainda queria mais movimento. Ela a refez e ,de repente, foi como se Tereza tivesse entrado em meu pensamento e transformado meu sonho em gestos leves gravados em linhas — arte para minha pele.

Mas era um festival. A experiência de intercâmbio pós juventude a criar uma bruma leve nas possibilidades temporais dos possíveis. Sou impulsiva. Mas não para tatuagens. Estas a gente cria devagarinho como a obra de Tereza em minhas costas.

— Vou fazer uma tatuagem!
— Pois vou filmar tudo — disse Shana, uma recém amiga e ótima companhia. Shana é dessas pessoas que sabe se divertir. O simples a cativa, as experiências são a própria alegria a pulsar. Shana é intensa.

Em cinco minutos eu havia escolhido uma imagem para tatuar. E suponho que, em meia hora, a arte de Manola imprimia, como que em um ritual, a experiência de viver estes dois meses na França — a imagem de uma pequena e leve pena.

Eu volto já já pra minha terra. Ah,  que como uma pena–asa marcada no tornozelo eu possa ser mensageira de alguma bem-aventurança em tempos tão adversos em nosso país. Que eu possa ser eloquente onde for necessário. Que possa, sempre me extasiar com as experiências imprevistas e com a arte vivida.


Observação: Esta publicação faz parte do projeto Crônica de um Ontem e foi publicada, originalmente em 18/05/2019

Comentários

Albir disse…
Publicada há mais de um ano, mas atualíssima, principalmente quando às adversidades em nosso país.