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Mostrando postagens de Janeiro, 2010

VIDA FEITA DE CASAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Essa semana, deixei mais uma casa para trás. Foi a décima terceira em 39 anos de vida, uma casa a cada três anos, e descobri que uma vida pode ser contada por meio das casas em que se mora.

Minha primeira casa, em Fortaleza, tinha um pátio interno e um piso quadriculado, feito um tabuleiro. Talvez tenha sido a melhor das minhas casas, embora toda a memória que eu tenha dela venha de algumas fotos tiradas logo após o meu nascimento e no meu primeiro aniversário. Eu morava com minha mãe e meus tios e tias; meu pai estava concluindo a faculdade na Paraíba.

Quando minha primeira irmã nasceu, pouco menos de dois anos depois de mim, nós já morávamos em outra casa. Dela só há duas ou três fotos. E parece uma casa pequena. Deve ter sido uma época de limitação para mim: menos espaço e uma pessoa a mais para dividir a atenção de meus pais. A principal imagem que tenho dessa casa é um tanto irreal, e não é da casa em si. Lembro de passear, nos braços de meu pai, ao redor de um quartel que havia na…

O RELÓGIO [Debora Bottcher]

O relógio de pulso estava parado. Às nove horas, um minuto e treze segundos do dia sete, ele estancara no tempo.

Ela nunca saberia se da manhã ou da noite ou mesmo de que mês. Não notara. Desacostumada a horários, nunca se guiava por seus próprios relógios. Às vezes, até se surpreendia de que já era hora do almoço, de ir para casa, tão tarde e ainda não adormecera, tão cedo e já estava acordada... Quase nunca se atrasava, mas era guiada por um sinal interno, qualquer coisa como a posição do sol ou o brilho da lua...

Mas o relógio, de desconhecido valor - já que nunca vira outro igual em nenhum lugar -, a acompanhava por todos os cantos do mundo, onde quer que andasse. Gostava dele...

Agora, na penumbra do quarto, olhava-o sobre a mesinha da cabeceira... Era domingo. No dia anterior percebera que ele não mais funcionava. Alcançou o telefone e ouviu a telefonista digital informar: “sete horas e quarenta e dois minutos”... Ela chegara em casa no meio da madrugada e quase não acreditou qu…

ÚLTIMA ESPERA >> Leonardo Marona

Não demore a chegar, meu amor. Sinto tanto medo agora, hoje acordei chorando, coisas estranhas estão acontecendo por aqui, tenho um embrulho para te entregar. Acordei chorando, com a boca costurada, estava sozinho ouvindo uma balada – é como eles chamam – tão triste a tal balada, tão bonita e tão triste e eu nem me lembro o que ela dizia, mas tinha o veludo do sentimento agressivo que se acomoda nas veias endurecidas. Acho que todos merecemos uma daquelas paisagens de filme de bang-bang, todos merecemos um cafuné de vez em quando, uma saliva inesperada. Ah minha vida, portanto não demore! Estão todos de partida, ficarei aqui: te espero. Gostaria de sentir um peso forte de esmagar o peito agora, sentir faltar a respiração, num segundo você entra pela porta, estou de braços abertos, roxo sem ar, você apenas sorri – você tem esse poder de apenas sorrir – você simplesmente sorri para mim e, veja bem: eu não esperava nada, não havia nada combinado, não estávamos escritos nas estrelas, seri…

UGA, UGA >> Kika Coutinho

Eu não sei você, mas eu fui criada para ser uma pessoa inteligente, meio intelectualizada, educada, animal racional mesmo.

Passei a vida aprendendo que deveria trabalhar, estudar, ser educada com as pessoas, segurar arrotos, puns, raivas, gritos e nunca, nunca, palitar os dentes, por exemplo.

Cresci aprendendo a não gritar com os outros mesmo se estivesse louca de ódio, a não agir impulsivamente, a não grunhir, a falar baixo, a segurar o elevador para quem viesse chegando e a sorrir doce para o vizinho — mesmo sem vontade.

Embora sejamos animais, crescemos educados para sermos intelectuais e passamos a vida nos fantasiando de saltos altos, maquiagens, gravatas e outros adereços de gente inteligente.

Só que um dia ficamos grávidas e, logo, descobrimos que somos macacas. Exatamente, somos macacas de brincos e batom.

Quando o neném nasce, piora e a gente se sente vaca. Não naquele sentido pejorativo, não. Nos sentimos vacas rainhas, deusas vacas, como se fôssemos vacas na Índia. Mas, ain…

SENTIDOS >> Carla Dias >>

Sentido é o que buscamos quando nos falta chão ou há o desejo de se efetuar mudanças significativas na vida. Mas também pode ser apenas o que se propõe: direção. Mas ‘sentido’ é uma palavra com tantos significados, como somos nós, os seres humanos, que fica difícil defini-la sem um contexto.

Por exemplo:

O sentido do tempo é o adiante e o avante, não há nele o que ande para trás, mas quando olhamos álbuns de fotografias... O sentido do tempo se vira do avesso, seus olhares se tornam nostálgicos. E o até então sem sentido passa a fazer todo o sentido do mundo.

A violência não faz sentido, mas vítimas, e não adianta me mostrar planilhas, dados e mais dados, a essência da estatística, o porém da História. Violência será sempre algo completamente ausente de sentido para mim e sem o menor tato para a compaixão e a temperança.

O sentido da paixão são os holofotes e os fogos de artifício despontando no céu dos nossos desejos. Autores de apaixonamentos se permitem perder o rumo e o medo. Saem and…

FALANDO DE VOCÊ
>> Felipe Peixoto Braga Netto

“Belo Horizonte foi a maior surpresa da minha vida. Permitiu-me ver no Brasil coisa que jamais esperei: uma cidade à qual coubesse, com absoluto rigor, a classificação de bela”. 
(Monteiro Lobato)


Um dia escreverei um guia de Belo Horizonte. Um roteiro lírico. Um convite ao leitor para descobrir comigo ruas, praças, bares e bairros. Enquanto não faço isso, vou me distraindo pensando no que me faz gostar de você, Belo Horizonte.

Porque gostar é engraçado. O que nos faz gostar de alguém? Você pode sempre racionalizar a resposta, mas verá, no fundo, que não é tão simples assim. Há sempre algo que não se explica, mas se sente. Ou que se sente mais do que se entende. O que define o amor é algo indefinível, com o perdão da péssima frase.

Seria bom (seria?) se pudéssemos pôr uma certa ordem no amor. Gostar de alguém que tenha essa e aquela característica. Mas as coisas não são assim. O que nos faz gostar de alguém é um conjunto de fatores até certo ponto incontroláveis.

Mas estou fugindo do tema.…

PASSADO PRESENTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu vivo no presente, mas bem que poderia viver do passado. Presente é coisa que a gente desembrulha o tempo todo; passado já está desembrulhado, para o bem ou para o mal, para o gosto ou para o desgosto. Presente é cheio de surpresas e exige decisões, pequenas e grandes; passado é transparente, sem enfeites.

O passado é como o filho pródigo que retorna — humilde — após uma vida desregrada, e o Pai o recebe com alegria, festa e abundância. O outro filho, o presente, reclama invejoso. Esteve sempre ali, ao lado do Pai, trabalhando, suando, fazendo o que devia. Presente é salário; passado é herança.

Todo mundo traz o passado em casa, no canto de um armário, no fundo de uma gaveta, num baú, numa caixa de sapatos, num esconderijo. Passado feito de fotos, de cartas, de fitas-cassete, de disquetes, de marcadores de livros. Há quem traga o passado no peito, na calmaria ou no sobressalto do coração. Há quem o tenha na ponta da língua, feito palavra, gíria, provérbio, canção, bênção, maldição até…

O TIME DO CORAÇÃO [Ana Gonzalez]

Quando ele nasceu, estava escrito: certamente seria do meu time. Eu acompanharia seu crescimento, ele ganharia uma camiseta e aprenderia todas as palavras que designassem o time do coração da família, seus jogos importantes, jogadores especialmente dotados, gols históricos, enfim todo aquele conjunto que faz a alegria dos torcedores de qualquer time. No caso, era o Corinthians Paulista.

Mas a criança nasceu em São Paulo e foi morar em Ribeirão Preto, distante de mim muito chão e tempo. Mesmo assim, ele ganhou uma camiseta corinthiana das pequeninas que se caracterizou por algum tempo como aquela do time do coração da avó. Combinava com ele.

Mas ocorre que, no desenvolvimento desta história, a criança amada encontrou amiguinhos. O mais querido deles, aquele escolhido, o preferido, cuja família o aceitara também de coração, entraram na história. Isso não seria nada sério, estranho ou digno de nota se eles não fossem são-paulinos.

Ora, não deu outra. O pai do amigo preferido entendeu a …

HEMINGWAY >> Leonardo Marona

É uma pena que eu não possa, com indisfarçável vaidade, dizer que a história que se desenrola a seguir é um autêntico exemplo da escola fantástica, celebrizada por nomes de peso como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant ou Roberto Bolaños, o famoso Chespirito. De fato, seria muito mais natural e menos cansativo se eu pudesse afirmar tal coisa, ou pelo menos, atuando, conseguisse suavizar as conseqüências trágicas dos acontecimentos seguintes. Mas preciso ser honesto, em primeiro lugar com você, leitor, que ainda não me deixou a escrever como um português, a mim mesmo. É em respeito a esta cortesia que iniciarei, sem mudar nenhum detalhe, mas na tentativa de não me esticar em floreios franceses, este algo extraordinário relato que me deixou assim, escrevendo a esmo sem nem mesmo conseguir sair do lugar.


Antes de tudo, é muito importante dizer que tenho apenas nove dedos nas mãos. É este um importante dado referente à minha personalidade pretensamente humilde, mas que no fundo esconde uma …

ESPAÇO PARA O AMOR >> Kika Coutinho

Eu estava na sala de parto, assustada e ansiosa, muita gente trabalhando e eu parindo, quando, em um segundo, o médico ergueu para que eu visse o bebê que acabara de tirar da minha barriga. Tomei um susto. Eu sabia que isso ia acontecer, tivera pelo menos nove meses pra me preparar, mas ainda não acreditava. Não tinha nenhum truque, ninguém escondido embaixo da maca já preparado com um bebê na cartola, nada. Foi de mim mesmo que ele tirou, eu vi. Acontece que, quando notei o bebê ali, cinza, melecado, olhos se abrindo para o mundo, saiu de mim um soluço. Não chorei. Dei um único soluço e perguntei insistentemente se estava tudo bem.

Eu sentia o estranhamento da anestesia, a pressão de alguém costurando minha barriga, a preocupação de que o bebê fosse perfeito. Eram tantas, tantas coisas para sentir, que não houve espaço para aquele amor de que ouvimos falar.

Sim, há de se ter espaço para o amor, há de se ter um lugar vazio onde você pode encaixar, docemente, um punhado de amor.

Eu já …

NESSA TARDE >> Carla Dias >>

Dos pés caminhando sobre a areia da praia, das mãos tocando as cores das frutas sobre as bancadas das barracas da feira. E do encanto do menino pelo gosto da manga. Da praça vista do banco em fim de tarde. E de uma porção incontável de conchas. De quem se levanta para dar lugar à mulher que no útero traz a esperança em forma de pessoa, ou na alma traz a experiência. Da boca mascando o tutti-frutti que se transforma e estoura em gargalhadas. Dos pelos arrepiados pelo susto provocado durante o filme da sessão da tarde. Do cupuaçu em bombom. Da bondade sem autoria. Das lágrimas derramadas por quem chega e por quem parte e por quem fica e por quem sequer conhecemos. Da intimidade do beijo de língua e de se chorar na presença de outro. Do corpo em movimento que é dança, das estrelas de papel crepom e da arquitetura dos sonhos impossíveis sendo adaptada às possibilidades. Das pernas balançando dentro da água, das ondas provocadas nessa água, da água que cai feito chuva sobre nossas cabeças…

EU ATÉ DIRIA MAIS SE VOCÊS NÃO ESTIVESSEM OLHANDO
Felipe Peixoto Braga Netto

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Manoel Bandeira)

Andei uns meses, talvez quase um ano, longe do mar. Agora estou aqui, de volta a esse cenário familiar — essa estradinha rústica, essas barraquinhas na praia, esse inconfundível mar. Venho com meu irmão, o que aumenta o prazer do retorno. Sentamos à sombra, num ponto mais alto da praia, pedimos uma cerveja e ficamos conversando vagamente bobagens e fiscalizando a cor do mar.

Estou feliz com esse ritual. É simples e banal, mas cheio de emoções boas, de prosaicos prazeres relembrados. Logo chegam uns violeiros, e são gentilmente repelidos por nós, que não estamos para ouvir loas. Penso em lhes dar uns trocados, mas vejo que não tenho. Fica pra próxima!

Observo-lhes (são dois), vejo-lhes os rostos sofridos queimados de sol, as roupas simples e gastas, o olhar de cansaço e desânimo. Cantam, próximos, para uma mesa cheia. Ninguém lhes dá olhos ou ouvidos. A mesa é insensível e grosseira…

REDAÇÃO >> Albir José da Silva

Passeio No Zoológico

No sábado eu fui no zoológico com meu pai minha mãe e meu irmão. O Nero não foi porque ele tem medo de bicho grande e come bicho pequeno. Come não que ele só come ração. Mas ele corre atrás e grita muito. Grita não, late, que ele não é gente. Tem gente que late, mas não é que late, é que está imitando cachorro. Tinha uns cachorros lá mas não foi gente que levou porque lá não pode levar cachorro. Era cachorro da rua. Mas não quero falar de cachorro porque já falo muito de cachorro porque é o único bicho que eu tenho.

Aqui em casa tem cinco pessoas mas só uma é cachorro. Ele fica sempre junto com a gente. Menos na mesa, que ele não senta, porque não pode comer com a gente porque é bicho. Só se a gente se distrair – aí ele come o que está na mesa e sai correndo e fica escondido até acabar de mastigar. Ele é um cachorro bonzinho mas nessa hora ele fica meio safado. Mas eu não quero falar de cachorro porque lá tinha muitos bichos diferentes.

O leão por exemplo é muito dif…

EU NÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu não acordo com despertador. A meleca que tiro do nariz, eu não a coloco num guardanapo. Eu não arrumo a cama. Eu não levanto com um sorriso na cara, distribuindo bons-dias. Eu não escovo os dentes. Eu não bebo café no café-da-manhã. Eu não faço de conta que estou num comercial de margarina. Eu nem me sento para comer minha granola com aveia e linhaça. Eu não tomo banho pela manhã. Eu não saio para trabalhar, eu não tenho emprego. Eu não leio o jornal. Eu não arrumo a casa; eu nem desarrumo a casa. Eu não falo até duas ou três horas depois de acordar. Eu não tenho carro, eu não tenho casa própria. Eu não tenho compromissos. Eu não tenho o que fazer. Eu não sei o que farei à tarde, ou na semana que vem. Eu não tenho planos. Eu não tenho hora para almoçar. Eu não atendo telefone no meu horário de cochilo. Eu não penso que tragédias podem acontecer enquanto estou inacessível. Eu não dou satisfação, eu não atendo expectativas. Eu não sou normal. Eu não sou tradicional. Eu não sou conven…

DESCONFORTO TORÁCICO >> Leonardo Marona

tenho chorado ao assistir a filmes antigos e trágicosem tardes pretas e brancasdesvanecidas em cinzas cômicas.tenho chorado ao ver pergaminhos tortosformados por formigas prenhas de velhos víciossobre a mesa da cozinha listrada.tenho chorado pelos espaços vaziosentre as pedras portuguesasdo centro da cidade.tenho chorado ao consultar o dicionáriosobre o verdadeiro significadoda palavra colear.tenho chorado mais do que o chuveirosobre poros d’água coleados de miragens.tenho chorado ao ler cartas amareladasque escrevi a mim mesmodepois de rasgá-las.tenho chorado ao lembrar de mãoscom unhas vermelhas e gastasprendendo cuecas no varal de náilon.tenho chorado ao me lembrarde que não lembro nadasobre nossa infância ancestral.tenho chorado sempre que vejo alguém chorarem silêncio escondido por mãos fratricidas.tenho chorado ao jogar moedas de farpasa um senhor que não movimenta mais as pernase vive dentro de uma caixa de papelão– porque ele sorri mais do que você e eu.tenho chorado por quart…

EU SEI >> Kika Coutinho

Narrei aqui, por quase nove meses, a minha gravidez e as expectativas de quem está esperando um bebê. E eu sei que, agora, deveria contar do nascimento da minha filhota. Planejei, nos último nove meses, que faria isso. Assim que a Sofia nascesse eu iria fazer um texto muito emocionante, delicado e doce, contando do parto. Falaria da emoção da maternidade, da ansiedade da sala de parto, dos medos e da alegria de sentir a chegada da minha menina a esse mundo, numa noite de dezembro, um dia de calor, ou quando quer que fosse.

Eu iria falar do médico, das enfermeiras, do meu marido, da família e dos olhos assustados da bebê que eu teria, uma pequena criança tão sonhada e amada que só poderia me inspirar um texto longo e lindo. Quanta pretensão...

Eu escreveria sobre o milagre da vida, do nascimento, de cada segundo que inspiramos e expiramos sem nem notarmos que somos quase deuses, dando à luz novas vidas e perpetuando essa espécie que, venhamos e convenhamos, nem sei se merece tanto assi…

POESIA CRÔNICA >> Carla Dias >>

Como sou de lua, iniciada pelas marés e dada a apaixonar pelos ventos, hoje não escreverei uma crônica, mas sim uma crônica sequestrada pela poesia. Pois há dias em que acordo assim: poetizando o barulho dos carros que passam pela avenida, dando corda ao som que invade o apartamento e que se agarra aos braços das janelas escancaradas.

Já sobre a mão agarrada ao corrimão, sinto informar que ela teme não ser tão eficaz como segurança, mantendo no chão a moça de cabeça avoada. Às vezes, ela sente vontade de soltar a moça, de lhe permitir planar pelas escadas, ou que as pise com efeito pluma. Mas basta uma escorregadela de nada e pronto! A mão se agarra ao corrimão e a moça abranda seus desejos lancinantes, como se os guardasse em envelope selado, lá naquele canto abandonado da alma.

Tirar da realidade a poesia dos becos, onde gente pinta e borda, com talento escancarado, os muros. Há mil setecentos sentimentos desenhados nesses muros. Têm uns que choram pelo o que perderam, têm outros que …

PALAVRAS ESQUECIDAS
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Procura as palavras curtas, meu velho, e de preferência as velhas".
(Rubem Braga)

Para onde vão as palavras que ninguém fala mais? Vão para os dicionários, as coitadas? Ficam lá, sós e melancólicas, sem visitas, num frio asilo distante e esquecido...

Porque, é engraçado, deixamos para trás certas palavras. Minha avó, eu me lembro, elogiava dizendo: "Formidável! Que coisa formidável!". Para onde foi o formidável, Vó? Ninguém fala formidável hoje em dia...

Mocidade... Já ouviram isso da boca de um garotão? Dá pra imaginar alguém com seus vinte anos se queixando: "Ah, sei não... Essa mocidade de hoje...". Não, não dá. Só fala mocidade quem está muito longe dela.

Há uma palavra terrível que, se pronunciada, denuncia, sem apelação, o acúmulo de anos do sujeito: vitrola. Quem diz vitrola é porque é de um tempo já arranhado na memória. Essa, por favor, evite. Se por descuido pronunciar, e alguém pedir para repetir, diga: "Ham... Eu disse escola. Sim, escola! Eu…

AMOR EM CORES >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou preparando uma série de crônicas sobre o tema casamento. Mas — para não assustar meus leitores do sexo masculino — vou começar falando de amor, que, como todo homem sabe, nem sempre tem muito a ver com casamento. Enfim...

Dizem que os esquimós têm mais de cem palavras para se referir àquilo que para nós é apenas branco. O que me levou a pensar que mereceríamos ter pelo menos duzentas palavras para falar daquilo que chamamos apenas de amor.

Porque o amor está na boca de todo mundo e, muitas vezes, ninguém sabe aquilo que a palavra realmente quer dizer. Ou alguém aí é capaz de me dizer o ponto em comum entre "eu amo você", "eu amo acessórios", "eu amo Frank Sinatra", "eu amo pimenta"? Ou então entre "amar o amor" e "amar os bichos"? Ou ainda entre "morrer de amor" e "matar por amor"? Convenhamos que a palavra amor está se tornando muito parecida com a palavra coisa, que serve para qualquer coisa. Mas s…

OU OS MEUS >> Leonardo Marona

A imaginação é a memória que enlouqueceu (Mario Quintana)


Não sei se estavam todos mortos ou se respiravam por guelras. Além disso, não saberia dizer se na minha imaginação ou dentro dos meus olhos – e qual seria a diferença? – havia uma praça árida com brinquedos feitos de troncos ou ossos, que se despedaçavam um a um como sonhos, para crianças sem pernas, mas felizes, brincarem.

A praça era filha de uma corredeira com um rio de alma enrijecida. No meio da praça havia uma árvore, retorcida como mão reumática, que era órfã do vento, pelada e seca portanto, tal qual um namibiano. Esta árvore chorava muito de frio, mas a corredeira e o rio roubaram suas lágrimas e a largaram dura na terra batida – os galhos lhe rangendo a alma – como se fosse um vendedor de camelos.

Apareci por entre folhas molhadas de inveja e desejos inapeláveis, sem avisar às estátuas humanas, que por lá circulavam com os olhos costurados, sobre o meu pequeno problema de ordem sentimental. Minhas mãos tinham as pontas de…

É TARDE >> Kika Coutinho

Sei que está um pouco tarde, mas como já descumpri as minhas primeiras promessas para 2010, resolvi refazê-las, de forma mais realista.

Quanta pretensão desejar coisas grandes em um mundo já tão farto de grandiosidades. Quanta tolice desejar a mega-sena da virada quando se tem um bebê saudável e perfeito... Como eu ganhei na loteria quando minha pequena filhota nasceu, há pouco mais de um mês, resolvi pensar melhor e desejar aquilo que realmente importa.

Desejo que o elevador não demore tanto, por exemplo. Que eu não enfrente congestionamentos monstros. Que eu não pegue nem gripe nem resfriado, mas que pegue boas energias, boas liquidações, bons projetos.

Que o cabelo fique bom, esteja sempre repartido do lado certo e que sempre dê tempo de lavá-lo. Tempo. Ah, o tempo... Pode haver melhor coisa para ganhar-se em 2010? Tempo! Tô preferindo tempo à mega-sena da virada. Aliás, quem busca grana, busca, no fundo, comprar tempo. Quem quer ganhar na mega-sena quer deixar de trabalhar, deixar…

A VERSÃO DE HOJE >> Carla Dias >>

Às vezes se trata disso: dar nome aos bois, às bandas, aos bestiários. Desnudar dos nomes as esperas, os lampejos, os significados. Libertar soluços.

Minha cabeça lateja nesse momento. Depois de pares de analgésicos entre hora essa e um tanto de outras, a vista ainda nebulosa. Pudesse ficar onde estou, não mexer os músculos ou tirar os móveis do lugar, talvez o fizesse com a classe dos que compreendem vácuos, leituras poéticas para descobertas dos astrolábios, horizontes engasgados com correrias que levam a lugar nenhum.

Não sei se há sabedoria na estagnação, mas cabe nela o movimento das pálpebras, o cortejo da imagem, a trilha sonora de batuques do coração. Até mesmo o que é dito imutável se transforma (ou é transformado?), se não na sua essência, que seja através das versões que criamos para descrevê-lo. É assim, nessa certeza dispersa, na incongruência dos verbos e na irreverência dos adjetivos, que nos aninhamos à vida.

Há versões para tudo e para todos, por mais que a ciência corro…