sábado, 2 de janeiro de 2010

FAZER NOVO E FAZER DE NOVO – PARA 2010 [Maria Rita Lemos]

Para fazer de novo, só se tem que repetir, ao infinito, sem aprender nada. Apenas fazer, e só, mesmo que sem riso nem cor.

Já fazer novo não é só uma questão de repetir, mas um ato corajoso do coração de quem se dispõe a isso. Refazer a mesma coisa anteriormente feita é mudar aquilo que não prestava mais em beleza nova, mudar os pores de sóis em alvoradas.

Fazer novo é inaugurar novos pontos de luz nas trevas, e descobrir que a beleza pode existir dentro de qualquer vida de qualquer pessoa, todos os dias, todos os meses e anos.

Pode haver muita beleza nos passos cansados de quem já viveu muito, como certamente é belíssimo o passo trôpego do bebê que está inaugurando suas tantas marchas mundo afora. Podemos viver nossas vidas mecanicamente, repetindo gestos decorados, frases feitas e monótonas, obrigações da rotina diária que podem nos envelhecer, nostalgicamente, sem que sequer nos detenhamos para perceber. Isso é fazer de novo aquilo que sempre se fez do mesmo jeito.

Mas também podemos, a cada dia que nasce, abrir janelas de luz dentro do quarto da vida, embelezando a paisagem, modificando para melhor o que tem que ser feito, de qualquer jeito, porque está em nosso cardápio do dever quotidiano. Nem por isso, porém, tem que ser feio ou sem graça.

O primeiro jeito de viver, sem graça como uma peça de máquina que executa o mesmo movimento sempre, basta ligar um botão, repetindo, fazendo de novo, outra vez e de novo. Podemos, no entanto, escolher a segunda maneira, aquela da qual falei na frase anterior.

Abrir janelas, deixar o sol entrar, a cada dia, não “fazer de novo”, mas “fazer novo”. Fazer novas todas as coisas, talvez seja esse o segredo de quem sorri para a vida, e tem o sorriso devolvido por ela.

Tem sempre gente que faz de novo, de um jeito tedioso e cansado, desesperançado, sem empenhar no ato o coração, sem coragem de alma. Não dá para fugir das opções que temos, que talvez se resumam em duas: a primeira é exterior. É a vida, o pão nosso de cada dia que nos obriga à mesmice das palavras, dos passos, dos pensares e fazeres. É conviver com a sensação da solitude, de que ninguém, por mais que queira ou possa, é capaz de viver por nós as parcelas das vinte e quatro horas de que é feita a vida.

Para cultivar a beleza dos dias que ainda temos, entretanto, há que se colocar em prática a segunda opção - que nem sempre, infelizmente, decorre automaticamente da primeira.

Com pouco ou muito esforço, depende da prática que se tem e da chama interior que nos anima, dá para colocar poesia nos gestos diários, fazer no coração um fundo musical de Brahms ou de Chico Buarque para a quebradeira danada da vida. Dá para vislumbrar a beleza interior que há no mais singelo dos gestos, na atitude prosaica de apenas cozinhar um arroz ou grandiosa de pesquisar uma nova vacina. Dá para espiar o pedacinho lindo de alma, como um garoto espiando excitado pela fechadura da porta da menina bonita; dá para vislumbrar a beleza que há quando se faz novo o que se tem que fazer de novo.

O tempo anda seu passinho previsível, mas a vida pode ser outra quando quem manda não é aquilo que a gente tem que fazer, mas o jeito como se escolhe fazer o que tem que ser feito.

Pessoalmente, odeio passar roupa, e para mim aquele monte dobrado na cadeira, à espera do ferro elétrico e dos gestos repetidos era um Gólgota renovado duas vezes por semana, quando eu fazia de novo. Inaugurei, nesse gesto para mim odioso, um fundo musical de Brahms pendurado em cada orelha, e comecei a fazer novo aquela velha e chata rotina.

É mais ou menos isso que estou propondo a vocês. O que vale, mesmo, não é o que se faz, mas a forma de fazer. Tudo pode ser repetido, e a maioria das coisas têm mesmo que ser assim, mas não precisa ser sem poesia. Pode ser de coração presente, atuante, transformando, reciclando o que apenas se repetia, sem sal, sem sabor, todos os dias, todos os anos novos que se tornavam velhos.

Quem vê de fora pode pensar que sua vida é chata, enjoada, monótona. Deixe que pensem. Só você conhece o Brahms que usa de fundo musical, ou seja lá quem for que se escolha para fazer novo o habitual. Atrás das cortinas do dia-a-dia pode haver tanta luz, tanta poesia! Viva você o seu céu, na luz do dia novo que vem despontando, apesar do que possam pensar. Faça novo, quem não sabe que faça de novo.

Ah, e para concluir e refletir, que sejam belos todos os dias do ano novo, feliz, que vem surgindo.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Maria Rita, gostei bastante da distinção de termos. Bela crônica!