domingo, 10 de janeiro de 2010

AMOR EM CORES >> Eduardo Loureiro Jr.

m vitor / Flickr.comEstou preparando uma série de crônicas sobre o tema casamento. Mas — para não assustar meus leitores do sexo masculino — vou começar falando de amor, que, como todo homem sabe, nem sempre tem muito a ver com casamento. Enfim...

Dizem que os esquimós têm mais de cem palavras para se referir àquilo que para nós é apenas branco. O que me levou a pensar que mereceríamos ter pelo menos duzentas palavras para falar daquilo que chamamos apenas de amor.

Porque o amor está na boca de todo mundo e, muitas vezes, ninguém sabe aquilo que a palavra realmente quer dizer. Ou alguém aí é capaz de me dizer o ponto em comum entre "eu amo você", "eu amo acessórios", "eu amo Frank Sinatra", "eu amo pimenta"? Ou então entre "amar o amor" e "amar os bichos"? Ou ainda entre "morrer de amor" e "matar por amor"? Convenhamos que a palavra amor está se tornando muito parecida com a palavra coisa, que serve para qualquer coisa. Mas serve mesmo? A palavra amor serve para qualquer amor?

Tudo bem, o leitor — principalmente a leitora — que gosta de discordar do cronista e não aceita ser facilmente conduzido pela prosa alheia, vai argumentar que já existem outras palavras: paixão e caridade, por exemplo. Caridade, vá lá, é uma boa palavra. Mas paixão... ah, paixão... essa palavra só não está na mesma situação da palavra amor porque não é tão fácil de ser dita em verbo. É muito mais prático dizer "eu amo pimenta" do que "eu sou apaixonado por pimenta". Então paixão não nos serve aqui — enquanto palavra, que fique claro, porque paixão, em um de seus muitos significados, é muito útil para algumas coisas como, por exemplo, virar a vida de uma pessoa de cabeça para baixo. Mas voltemos ao amor, melhor dizendo, à palavra amor.

Como inventar duzentas palavras para reduzir o fardo simbólico da palavra amor é coisa para um povo inteiro, e não para um cronista isolado, apresento um esboço, uma pequena tentativa de criação de novas palavras que aliviem a tão sobrecarregada palavra amor.

Já que comecei a crônica falando na cor branca, por questão de coerência interna da crônica, apresento-lhes o amor em palavras de cor.

Amorelho seria o amor-vermelho. Aquele tipo de amor que envolve sangue, rosas, maçãs, néon, cortinas de teatro. Então o homem que vai pegar sua namorada em casa levando um buquê de rosas, que a leva para assistir a uma peça, que na saída lhe compra uma maçã do amor e que depois a leva a um motel onde transam mesmo ela estando menstruada, poderia dizer "eu te amorelho".

Caso bem diferente é o amorelo, o amor-amarelo. Aqui estamos falando de sol, de canário, de banana. O casal que passa a tarde num bucólico piquenique, à sombra de uma árvore, ouvindo o canto dos pássaros e que até faz, de pedrinhas na grama, uma amarelinha, há de se olhar nos olhos e dizer "eu te amorelo".

Mas há quem não se amorelhe nem se amorele. Gente que vive o amorzul, o amor-azul. Gente para quem importa mais a noite, o jeans, o anis. Gente da balada, que não se ama apenas a dois, mas a dez — tudo azul naturalmente. Gente que diz, várias vezes por noite, a múltiplos parceiros: "eu te amorzulo".

E eu fico por aqui, com as três cores básicas, porque, como já falei, criar palavras — duzentas delas — não é tarefa para um homem só, ainda mais para um homem preguiçoso como eu. Deixo ao leitor a incumbência de deduzir por si mesmo mais uma dezena de amores: o amorerde, o amoraranja, o amorinza, o amoreto, o amoranco... E às leitoras, para quem um verde não é só um verde — é musgo, esmeralda, oliva, floresta, menta —, deixo o mais delicado encargo de completar as duzentas palavras que nos permitirão falar com mais propriedade daquilo que a simples e humilde palavra amor já não consegue mais dar conta.

E — se é que vocês me entendem — eu amoxo vocês.

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7 comentários:

Marta Lago disse...

Olá, gostamos muito do seu texto. Se quiser visitar o nosso blog e deixar um comentário : http://doencas-cronica.blogspot.com
Obrigado

Anônimo disse...

Enquanto o amor for só uma palavra na boca não se sabe mesmo o que quer dizer.O amor, para ser entendido, tem que ser sentido no coração.

Juliêta Barbosa disse...

"Considerando as cores como luz, a cor branca resulta da sobreposição de todas as cores." Portanto, temos aí o arco-íris do amor. E tanto nas cores quanto no sentido da palavra, temos um amor para todos os gostos.

Kika disse...

e o amor que vai pro piquinique, depois pra balada e encerra a noite no motel?
:)
beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Marta. O Crônica do Dia deve sua existência a crônicos leitores. :)

Perfeito, Anônimo. O sentido é sentido.

Bela imagem, Juliêta. O amor é arco-íris.

You tell me, Kika. :)

C. S. Muhammad disse...

Agora vou ficar esperando a crônica sobre a paixão e as coisas de cabeça para baixo. Serão coloridas também?
Amoranjei o seu texto!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Carla. E paixão é um assunto bom. :) Quem sabe qualquer dias desses...