domingo, 24 de janeiro de 2010

PASSADO PRESENTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu vivo no presente, mas bem que poderia viver do passado. Presente é coisa que a gente desembrulha o tempo todo; passado já está desembrulhado, para o bem ou para o mal, para o gosto ou para o desgosto. Presente é cheio de surpresas e exige decisões, pequenas e grandes; passado é transparente, sem enfeites.

O passado é como o filho pródigo que retorna — humilde — após uma vida desregrada, e o Pai o recebe com alegria, festa e abundância. O outro filho, o presente, reclama invejoso. Esteve sempre ali, ao lado do Pai, trabalhando, suando, fazendo o que devia. Presente é salário; passado é herança.

Todo mundo traz o passado em casa, no canto de um armário, no fundo de uma gaveta, num baú, numa caixa de sapatos, num esconderijo. Passado feito de fotos, de cartas, de fitas-cassete, de disquetes, de marcadores de livros. Há quem traga o passado no peito, na calmaria ou no sobressalto do coração. Há quem o tenha na ponta da língua, feito palavra, gíria, provérbio, canção, bênção, maldição até.

Hora que passado escapa, retorna à consciência, é faxina, é bota-fora, é mudança. O passado vem humilde, com cheiro de mofo, infestado de ácaros, amarelado, ressecado, amassado. O filho-presente tenta dizer "bem feito, que vá cuidar dos porcos", mas o Pai se alegra e manda parar o trabalho, preparar a festa, matar uns tantos bois. Alegria de ter de volta o que estava perdido.

O passado já está resolvido. Até a dor, que rasgou não apenas o papel, que trincou não apenas o porta-retratos, que danificou não apenas o arquivo... até a dor, resolvida, é como o vinho: quanto mais antiga, melhor.

Tesouro. Ouro da tez que contempla a herança. Mais nenhuma decisão a tomar, nenhum risco a correr, nenhum susto a tomar. O passado bem passado é o boi suculento que o Pai mandou preparar. Dá pra viver só disso: relembrar, refazer o quebra-cabeça dos fatos só por brincadeira, rir de sonhos tolos,  admirar genialidades que o presente de então estragava com projetos e força de vontade. O passado é a força da verdade, a realidade sem projeção.

Ah, eu bem que poderia viver do passado, mas aí ele seria presente re-embrulhado e complicaria o descomplicado. Melhor é complicar-se no presente atual, trabalhando, suando, fazendo o que se deve — plantando distraído, no presente, o passado do futuro que um dia vai chegar.




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5 comentários:

Tia Monca disse...

Adorei!
Passado é bom bem passado :o)
Bj,
Tia Monca

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Tia... passado ao gosto do freguês. :)

Juliêta Barbosa disse...

"O passado é a força da verdade, a realidade sem projeção."

Gostei disso!

Fabio Barros disse...

Uou!

Genial!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sabe que gostei também, Juliêta? Fiquei até com a sensação de que nem tinha sido eu que havia escrito a frase. :)

Fábio, rapaz! "Genial" é palavra muito séria, que eu só uso de Pelé pra cima. :)