terça-feira, 19 de janeiro de 2010

EU ATÉ DIRIA MAIS SE VOCÊS NÃO ESTIVESSEM OLHANDO
Felipe Peixoto Braga Netto

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Manoel Bandeira)

Andei uns meses, talvez quase um ano, longe do mar. Agora estou aqui, de volta a esse cenário familiar — essa estradinha rústica, essas barraquinhas na praia, esse inconfundível mar. Venho com meu irmão, o que aumenta o prazer do retorno. Sentamos à sombra, num ponto mais alto da praia, pedimos uma cerveja e ficamos conversando vagamente bobagens e fiscalizando a cor do mar.

Estou feliz com esse ritual. É simples e banal, mas cheio de emoções boas, de prosaicos prazeres relembrados. Logo chegam uns violeiros, e são gentilmente repelidos por nós, que não estamos para ouvir loas. Penso em lhes dar uns trocados, mas vejo que não tenho. Fica pra próxima!

Observo-lhes (são dois), vejo-lhes os rostos sofridos queimados de sol, as roupas simples e gastas, o olhar de cansaço e desânimo. Cantam, próximos, para uma mesa cheia. Ninguém lhes dá olhos ou ouvidos. A mesa é insensível e grosseira. Não lhes fazem, sequer, um sinal para que parem; eles cantam, cantam e a mesa continua a conversar entre si, alheia à abordagem. Cantam, em vão, para rostos indiferentes. Depois de uns minutos do grotesco espetáculo, um dos violeiros para – ainda junto à mesa – olha para os lados e não tem coragem de ir embora. Esse sol absurdo, essa miséria aguda, essas pequenas humilhações diárias... Sinto nele o cansaço dos séculos. Fico com vergonha. Não sei bem de quê. Olho pro outro lado. Sempre faço isso.

Uma moça, muito bronzeada, com contornos de montanha gentil, não deixa muito espaço para essas dores. Passa, próxima, rumo ao chuveiro. Terá o que, dezenove anos? É linda, está visivelmente satisfeita com seu bronzeado e com a vida, traz a graça leve de uma existência feliz. Já tinha quase esquecido esses pequenos prazeres ingênuos de mar e de sol — como é bom ver mulher bonita de biquíni! É uma mistura de prazer com leve aflição.

Ver mulher bonita de biquíni dá trabalho; trabalho dá fome; eis que ficamos com vontade de comer. E comemos uns honrados acarajés, uns preclaros peixinhos fritos — com tomates e cebolas devidamente presentes — até, depois, meu irmão se aventurar nuns siris cheios de patas, mas preferi repetir o preclaro peixinho — que estava muito bom!

E o bom mar nos convidava para um banho — achei deselegante recusar. Mergulhei, muitas e tantas vezes, querendo compensar meus dias de distância. O mar agradeceu a consideração e combinou com o sol, no fim de tarde, um suave espetáculo de beleza esplêndida, acho que só para mim.

Eu, em confortável cadeirinha que me deixa quase deitado, exercendo a nobre função de vigiar o pôr-do-sol, acho a experiência humana na Terra algo muito bonito e certo, acho que os planetas, nessa sublime confusão celeste, vão muito bem, os pingüins do Alasca não podem estar mal, o Brasil não faz feio e até minha vidinha, essa coisa freqüentemente estúpida, é, pensando bem, bem simpática. E diria mais, se vocês, mal-humorados, não estivessem por perto olhando.




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Um comentário:

Debora Bottcher disse...

Valha-me... Uma tarde assim, com peixinho, mar aberto e azul, por do sol no horizonte, uma música, ainda que triste, e meu dia não seria tão mal-humorado. :))
Beijo, moço. Adorei esse cenário.