terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FALANDO DE VOCÊ
>> Felipe Peixoto Braga Netto

“Belo Horizonte foi a maior surpresa da minha vida. Permitiu-me ver no Brasil coisa que jamais esperei: uma cidade à qual coubesse, com absoluto rigor, a classificação de bela”. 
(Monteiro Lobato)


Um dia escreverei um guia de Belo Horizonte. Um roteiro lírico. Um convite ao leitor para descobrir comigo ruas, praças, bares e bairros. Enquanto não faço isso, vou me distraindo pensando no que me faz gostar de você, Belo Horizonte.

Porque gostar é engraçado. O que nos faz gostar de alguém? Você pode sempre racionalizar a resposta, mas verá, no fundo, que não é tão simples assim. Há sempre algo que não se explica, mas se sente. Ou que se sente mais do que se entende. O que define o amor é algo indefinível, com o perdão da péssima frase.

Seria bom (seria?) se pudéssemos pôr uma certa ordem no amor. Gostar de alguém que tenha essa e aquela característica. Mas as coisas não são assim. O que nos faz gostar de alguém é um conjunto de fatores até certo ponto incontroláveis.

Mas estou fugindo do tema. Quero falar de você, Belo Horizonte. Quero saber o que me faz gostar assim. Será o fim de tarde tão azul? Serão aquelas árvores, tão gentis, que parecem mães imensas oferecendo compreensão?

Há momentos, convenhamos, que Belo Horizonte exagera. Não precisava tanto. Me diga, precisava essa manhã tão luminosa desperdiçando beleza? Precisava essa gentileza comovente que os trabalhadores, especialmente os mais humildes, carregam com alegria? Precisava lembrar, a todo instante, que Deus existe e que aquele pássaro amarelo e preto é um de seus irreverentes embaixadores anônimos?

O pessoal fala tanto em paraíso... Não quero contar vantagem, mas isso aqui para mim está bom. Mais eu não mereço. Desconfio até que mereço menos. Enfim, sou suspeito, não nego. Se Belo Horizonte fosse processada, eu não poderia depor a seu favor. Seria daqueles que os juízes chamam de suspeitos. Um ser desprovido de isenção. "Se somos íntimos? Sim, excelência, confesso que sim. Belo Horizonte me conhece melhor do que eu. Ela sempre me perdoou. Mesmo quando eu não merecia perdão."

Minha tese é que Belo Horizonte é o Rio dos anos cinqüenta. Tem charme, delicadeza e uma certa ingenuidade. Tem aquilo que encantou o mundo no passado. Claro, falta o mar. Mas o mar aqui é interior. Há tantas formas de mar, meu Deus, aquele molhado é só o mais óbvio.

Choverão críticas raivosas. Não mereço tanto... É só uma opinião vagabunda. Se eu fosse vocês, não me incomodaria com ela. Mesmo porque daqui a pouco mudo de opinião, aí vocês vão ficar com raiva de uma coisa morta, vê se vale a pena...

Eu só quero dizer, Belo Horizonte, que gosto de você. Gosto demais. Quem mais traz esse discreto charme sutil nas pequenas, nas grandes coisas? Nem todo mundo vê, é verdade, mas aí o problema é deles, não seu. Eu diria até que te amo, mas já gastaram tanto esse verbo que ele não traduz a coisa bonita que acontece aqui dentro quando a gente se encontra e eu, um ser tão sem graça, fico imenso, quase feliz.




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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Felipe, eu que só conheci BH de passagem, numa noite fugidia a caminho de Ouro Preto, devo confessar que fiquei tentado. :)

Ana Lucia disse...

ahhh, que linda declaração de amor! Se fosse pra mim eu já dizia: sim, eu caso!
hehe!

Lucas Conrado disse...

Acabei de chegar de Belo Horizonte. Estou com o coração dolorido, morrendo de saudade da cidade. Sou muito fã do Felipe e esse texto só reforça o quanto sou fã dele.

Ele consegue descrever, como poucos, o que a gente sente pela cidade. Quem dera eu conseguisse declarar meu amor por Belo Horizonte como ele faz.