quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

EU SEI >> Kika Coutinho


Narrei aqui, por quase nove meses, a minha gravidez e as expectativas de quem está esperando um bebê. E eu sei que, agora, deveria contar do nascimento da minha filhota. Planejei, nos último nove meses, que faria isso. Assim que a Sofia nascesse eu iria fazer um texto muito emocionante, delicado e doce, contando do parto. Falaria da emoção da maternidade, da ansiedade da sala de parto, dos medos e da alegria de sentir a chegada da minha menina a esse mundo, numa noite de dezembro, um dia de calor, ou quando quer que fosse.

Eu iria falar do médico, das enfermeiras, do meu marido, da família e dos olhos assustados da bebê que eu teria, uma pequena criança tão sonhada e amada que só poderia me inspirar um texto longo e lindo. Quanta pretensão...

Eu escreveria sobre o milagre da vida, do nascimento, de cada segundo que inspiramos e expiramos sem nem notarmos que somos quase deuses, dando à luz novas vidas e perpetuando essa espécie que, venhamos e convenhamos, nem sei se merece tanto assim ser perpetuada, né?

Eu poderia discorrer sobre o dia mais inesquecível de toda a minha vida, é verdade, mas, acontece que, depois que ela nasceu, quando cheguei em casa assustada e cansada, com uma dor do caramba no corte, apavorada e desajeitada, tão descabelada, inchada, feia e com aquele pequeno bichinho nos meus braços, as palavras doces e emocionantes me foram como que roubadas. Passei o último mês entre erros e acertos, muito mais erros do que acertos, ouvindo todos os palpites, adorando e odiando cada nova dica, suportando cada novo dia, assustando-me com cada respiração. Minha, e dela também.

Passei o último mês sentindo-me não existir e, ao mesmo tempo, com uma existência intensa e cansativa. Cheguei a achar que tinha entrado em uma grande roubada, confesso. Cheguei a compreender as mães que fogem e abandonam sua vida em um instante. Mas é claro! Quem é que não foge tendo um bebê para cuidar? Quem é que não foge vendo um pequeno bebê esgoelar-se chorando diante de si, sem ter nenhuma, nenhuma idéia do que está acontecendo afinal. Quem não fugiria? Eu.

Não fugi, não me rendi, não desisti.

E, agora, quando já enxergo um vulto de quem eu era, agora que volto a ver-me quase que inteira, de pé, sem dores e sem traumas, com medos sim, e alegrias também, agora quase que me lembro da emoção do parto. Quase que me lembro das enfermeiras e dos médicos, todos empenhados em trazer minha pequena menina à vida. E eu poderia tentar, mas nunca, nunca, nunca, saberia descrever o susto e a alegria, o medo e a emoção de ver sair dali, de dentro da minha barriga, uma bebê que chorava. Uma bebê cinza, melecada, que abriu os olhos mostrando-se esperta e viva, curiosa e muito, muito corajosa.

Um milagre, que eu nunca conseguiria descrever com essas vãs palavras. Posso tentar, me esforçar, mas nunca saberei explicar essa emoção do nascimento, esse presente digno de semi-deuses com o qual fomos presenteados, nós, tolos humanos, que nem palavras o suficiente temos para as nossas próprias emoções...




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2 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Esse é, sem dúvida,o momento do silêncio. As palavras cedem passagem para a linguagem da emoção: lágrimas, arrepio da pele, riso solto...,e de quebra, um medo de não dá conta de tamanha responsabilidade. Sossegue, Kika, tudo que Sofia vai precisar durante a vida, é de uma boa dose de amor incondicional. Quanto ao resto, não há nada que você possa fazer... São escolhas!Parabéns pela sua!

Debora Bottcher disse...

Muito bem, querida... O pior já há de ter passado e vc, como guerreira, deve se orgulhar de si mesma: ninguém conta quando se está grávida que ser mãe vai muito além de padecer no paraíso - como vc está descobrindo. :)
Eu não poderia te ajudar - não fui mãe, nem serei, e não sou de palpitar também, já que nada sei sobre isso. Perdoa a ausência, mas às vezes a gente colabora mais com ela.
Mas tenho certeza de que vc se saiu muito bem. Em breve, espero conhecer Sofia.
Super beijo, saudade sempre.