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PALAVRAS ESQUECIDAS
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Procura as palavras curtas, meu velho, e de preferência as velhas".
(Rubem Braga)

Para onde vão as palavras que ninguém fala mais? Vão para os dicionários, as coitadas? Ficam lá, sós e melancólicas, sem visitas, num frio asilo distante e esquecido...

Porque, é engraçado, deixamos para trás certas palavras. Minha avó, eu me lembro, elogiava dizendo: "Formidável! Que coisa formidável!". Para onde foi o formidável, Vó? Ninguém fala formidável hoje em dia...

Mocidade... Já ouviram isso da boca de um garotão? Dá pra imaginar alguém com seus vinte anos se queixando: "Ah, sei não... Essa mocidade de hoje...". Não, não dá. Só fala mocidade quem está muito longe dela.

Há uma palavra terrível que, se pronunciada, denuncia, sem apelação, o acúmulo de anos do sujeito: vitrola. Quem diz vitrola é porque é de um tempo já arranhado na memória. Essa, por favor, evite. Se por descuido pronunciar, e alguém pedir para repetir, diga: "Ham... Eu disse escola. Sim, escola! Eu ouvi esse disco na escola...".

Automóvel... Ah, como pude esquecer! Automóvel deve ser uma palavra antiga, porque nas remotas recordações de infância só me lembro das pessoas mais velhas dizendo: guiar automóvel. Hoje se diz dirigir carros, ou até veículos, quando se escreve. Mas não se diz automóvel. Ou se diz menos.

Antigamente se dizia: bêbedo. Terá sido alguma reforma ortográfica que trocou o e pelo a? Porque hoje não dá. Se você disser, por exemplo: Ah, hoje estou com uma vontade de ficar bêbedo... É bem possível que desconfiem que você já esteja.

Não vou nem falar em gírias, porque aí já seria covardia. As gírias mudam com o vento; o que se dirá com as gerações. Experimente, só experimente, não dói. Tente chamar, numa noitada (noitada?), aquela bela garota de pequena. Vamos ver se ela entende. Você chega, claro, escondendo a barriga, e diz: "Minha pequena, que tal dar um giro por esse mundo louco?". Se ela começar a rir, é sinal que sim, ela entendeu que você é um espécime em extinção, que sobreviveu à jovem guarda.

É, sentir saudades das palavras é um mau presságio. Sinal de que elas já se foram, e nós, inadequados e insistentes, continuamos no mundo, com um jeitão de gente antiga. O que não tem o menor problema. Dos males, o menor. Calados, pelo menos, vamos fingindo que estamos, claro, por dentro do que se passa e que esse mundo irado, ora, sempre foi o nosso lugar!


Comentários

Kika disse…
Se eu disse que essa crônica tá "mó boa", você já vai me achar velhíssima?
Excelente texto!
:)
beijos
Juliêta Barbosa disse…
Felipe,


Há uma canção que diz: “Esses moços pobres moços Ah! Se soubessem o que eu sei.”

Sou de um tempo que não havia tempo senão para o amor... Ah! O amor e as suas palavras-caramelo: amizade, afeto, ternura, carinho, saudade..., com essas, tecíamos uma bela colcha de retalhos e saíamos por aí, agasalhando o mundo.

Formidável mocidade pequena! Galera que liga o som dirigindo o carro e na night adormece a vida. Que importância têm as palavras, a não ser quando carregadas de emoção, saudade..., vida!

Uma constelação de estrelas para o seu texto!
Anônimo disse…
Me desculpe mas achei o texto horrivel. Continua tentando!!

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