sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

DESCONFORTO TORÁCICO >> Leonardo Marona

tenho chorado ao assistir a filmes antigos e trágicos

em tardes pretas e brancas

desvanecidas em cinzas cômicas.

tenho chorado ao ver pergaminhos tortos

formados por formigas prenhas de velhos vícios

sobre a mesa da cozinha listrada.

tenho chorado pelos espaços vazios

entre as pedras portuguesas

do centro da cidade.

tenho chorado ao consultar o dicionário

sobre o verdadeiro significado

da palavra colear.

tenho chorado mais do que o chuveiro

sobre poros d’água coleados de miragens.

tenho chorado ao ler cartas amareladas

que escrevi a mim mesmo

depois de rasgá-las.

tenho chorado ao lembrar de mãos

com unhas vermelhas e gastas

prendendo cuecas no varal de náilon.

tenho chorado ao me lembrar

de que não lembro nada

sobre nossa infância ancestral.

tenho chorado sempre que vejo alguém chorar

em silêncio escondido por mãos fratricidas.

tenho chorado ao jogar moedas de farpas

a um senhor que não movimenta mais as pernas

e vive dentro de uma caixa de papelão

– porque ele sorri mais do que você e eu.

tenho chorado por quartos escuros no meu coração

lotados de crianças enfartadas.

tenho chorado por jóqueis novatos de Belford Roxo

que ganharam os últimos dezessete páreos.

tenho chorado por pugilistas aposentados.

tenho chorado por bailarinas degadianas:

prostitutas em calos impressionistas.

tenho chorado por não conseguir evitar

a chuva tórrida de discussões hipócritas

que inunda de tédio a verdadeira mentira.

tenho chorado quando nuvens de dentes

sangram as gengivas da loucura paciente

de entregar um dossiê de rosas eufóricas

à faca azul celeste do Parque Farroupilha.

tenho chorado sentado sobre paradigmas

porque uma menina que lê à beira do lago

virou reflexo bêbado no espelho d’água.

tenho chorado porque falo e ouço falarem de amor

como se isso nos desse algum tempo a mais.

tenho chorado com falta dos meus pais

enquanto a barba cresce inadvertidamente.

tenho chorado ao ler Carlos Drummond de Andrade

quando ele diz que está preso à sua classe

e a algumas roupas vestidas de náusea.

tenho chorado por um pássaro de peito amarelo

que fez um buraco no chão de terra com o bico:

os olhos estalados por algo que não admito.

tenho chorado por tanta gente que nem conheço

que acabo vazio de tudo e, súbito, me esqueço

dessa falácia que é "conhecer a si mesmo".

tenho chorado tanto e por tanto tempo

confundindo vinho com ressentimento

e desconfiado de que talvez tudo isso

importe ainda menos aos ciscos livres:

cólicas dançarinas que norteiam o ventre

do sorriso estuprado pelos olhos do meu rifle.

http://www.omarona.blogspot.com/



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lindo, lindo, lindo, Léo!

Brunno Leal disse...

bela cronica!
Meu blog tb é de cronicas, se interessar, dá uma passada lá!
abraços!