quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

NESSA TARDE >> Carla Dias >>

Dos pés caminhando sobre a areia da praia, das mãos tocando as cores das frutas sobre as bancadas das barracas da feira. E do encanto do menino pelo gosto da manga. Da praça vista do banco em fim de tarde. E de uma porção incontável de conchas. De quem se levanta para dar lugar à mulher que no útero traz a esperança em forma de pessoa, ou na alma traz a experiência. Da boca mascando o tutti-frutti que se transforma e estoura em gargalhadas. Dos pelos arrepiados pelo susto provocado durante o filme da sessão da tarde. Do cupuaçu em bombom. Da bondade sem autoria. Das lágrimas derramadas por quem chega e por quem parte e por quem fica e por quem sequer conhecemos. Da intimidade do beijo de língua e de se chorar na presença de outro. Do corpo em movimento que é dança, das estrelas de papel crepom e da arquitetura dos sonhos impossíveis sendo adaptada às possibilidades. Das pernas balançando dentro da água, das ondas provocadas nessa água, da água que cai feito chuva sobre nossas cabeças quentes. E das canções de amor perpetuadas por corações partidos, dos amuletos de sorte, do até que a morte os separe ou da vida que os una. Dos gatos e sua tara por novelos de lã. Do vento arqueando bambus e do palhaço estendo a mão à criança sorridente. Da falta de dentes por falta de idade e das pontes que ligam o aqui ao lá. Do passado tatuado em fotografia. E das manhãs frias que fazem brotar chocolate quente, do ponteiro do relógio que para apenas para nos dar mais tempo. Do viés do vestido da menina que remete às rotas de fuga dos toques. Da textura da pele de quem se despe dos medos.

Assim me veio o sentido da delicadeza nessa tarde.

www.carladias.com

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4 comentários:

Brunno Leal disse...

belo texto! Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E da prosa rosa do dia da Carla Dias. :)

albir disse...

E assim me veio o sentido da delicadeza da noite. Porque eu só li agora.

Carla Dias disse...

Bruno... Obrigada! Volte sempre :)

Eduardo... Numca vi tantos 'a' numa frase onde cabe meu nome :)

Albir... O bom da delicadeza é que ela nos chega quando abrimos os olhos e o coração para ela. Sem período, sem data.