quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A VERSÃO DE HOJE >> Carla Dias >>

Às vezes se trata disso: dar nome aos bois, às bandas, aos bestiários. Desnudar dos nomes as esperas, os lampejos, os significados. Libertar soluços.

Minha cabeça lateja nesse momento. Depois de pares de analgésicos entre hora essa e um tanto de outras, a vista ainda nebulosa. Pudesse ficar onde estou, não mexer os músculos ou tirar os móveis do lugar, talvez o fizesse com a classe dos que compreendem vácuos, leituras poéticas para descobertas dos astrolábios, horizontes engasgados com correrias que levam a lugar nenhum.

Não sei se há sabedoria na estagnação, mas cabe nela o movimento das pálpebras, o cortejo da imagem, a trilha sonora de batuques do coração. Até mesmo o que é dito imutável se transforma (ou é transformado?), se não na sua essência, que seja através das versões que criamos para descrevê-lo. É assim, nessa certeza dispersa, na incongruência dos verbos e na irreverência dos adjetivos, que nos aninhamos à vida.

Há versões para tudo e para todos, por mais que a ciência corrobore suas descobertas, que muitos sejam transparentes em seus atos e sentimentos. É por isso que nos dependuramos na lua, que cantarolamos o vento, que juramos que o que dói vai desdoer logo, secando dos olhos do outro os mares pelos quais jamais navegaremos.

A versão que de mim rabisco, nesse instante, é das que contemplam. Janelas abertas, tetos, livros dos quais não li uma palavra sequer, canções das quais não entendo as letras. Nela cabem milhares de centenas de dezenas de unidades de tempo. Cabem metrônomos, bússolas, folhas de papel em branco. Cabem mistérios, descobertas, jornadas.

Cabe até a mim, desengonçada, o nome torto, a trilha sonora desarranjada, olhos grudados em bestiários, desnudando dos nomes as esperas, os lampejos, os significados. Libertando soluços.

www.carladias.com


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, sua dor está vazando por esse analgésico que você tomou. :)

albir disse...

Melhoras, Carla. Mas os soluços viram acordes nos seus arranjos.

Carla Dias disse...

Eduardo... Minha dor é atrevida... vaza desembestada por analgésicos e sonhos.

Albir... Melhorada, ouço a canção dos soluços.