quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

ESPAÇO PARA O AMOR >> Kika Coutinho

Eu estava na sala de parto, assustada e ansiosa, muita gente trabalhando e eu parindo, quando, em um segundo, o médico ergueu para que eu visse o bebê que acabara de tirar da minha barriga. Tomei um susto. Eu sabia que isso ia acontecer, tivera pelo menos nove meses pra me preparar, mas ainda não acreditava. Não tinha nenhum truque, ninguém escondido embaixo da maca já preparado com um bebê na cartola, nada. Foi de mim mesmo que ele tirou, eu vi. Acontece que, quando notei o bebê ali, cinza, melecado, olhos se abrindo para o mundo, saiu de mim um soluço. Não chorei. Dei um único soluço e perguntei insistentemente se estava tudo bem.

Eu sentia o estranhamento da anestesia, a pressão de alguém costurando minha barriga, a preocupação de que o bebê fosse perfeito. Eram tantas, tantas coisas para sentir, que não houve espaço para aquele amor de que ouvimos falar.

Sim, há de se ter espaço para o amor, há de se ter um lugar vazio onde você pode encaixar, docemente, um punhado de amor.

Eu já amava a minha filha, mas não sabia. E não notava porque não havia condições de notar nada em meio àquelas luzes e àquele caos que é um parto — ao menos aquele era.

Mais tarde, quando já respirava e sentia meu coração inundar-se de alegria, amor e afeto por aquela criaturinha cinza, pensei em quantas pessoas não conseguem amar por pura falta de espaço.

Há tanto a ser feito, na vida. Há trabalho, há violência, há abdominais; um carro pra consertar, um documento pra assinar, tanto, tanto, que nem sempre sobra espaço para o amor. Ou, então, mesmo que os afazeres não sejam tantos, o coração pode estar tão inundado de mágoas, traumas, amarguras, que nessa enchente de decepções não há brecha para o amor. O amor sucumbiu, foi expulso pela água suja das inundações. Saiu boiando como um sofá velho quando a dor tratou de encher tudo e ocupar todos os cantos dessa casa velha.

Talvez por isso tanta gente sinta falta de amor. O amor pede paz. Não muita, um pouco que seja, porque é a paz que esvazia de tribulações a morada do amor.

Há de se esvaziar a si mesmo das ocupações, das pré-ocupações, das mágoas e dos cansaços, para que ali caiba amor.

Há de se apagar um pouco as luzes, diminuir um pouco o volume do rádio, talvez desligar a televisão e respirar um pouco mais calmamente, um pouco mais tranquilamente, para que o amor passe, ainda que por uma fresta pequena, para acomodar-se aí, nessa casa limpa e espaçosa.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, o amor entrou pelo espaço aberto por sua crônica. :)

Caty M. disse...

É, entrou sim... ;) :)

Bjos =*

C. S. Muhammad disse...

Que lindo, Ana!(Ou melhor: que linda, né?)