sábado, 23 de janeiro de 2010

O TIME DO CORAÇÃO [Ana Gonzalez]

Quando ele nasceu, estava escrito: certamente seria do meu time. Eu acompanharia seu crescimento, ele ganharia uma camiseta e aprenderia todas as palavras que designassem o time do coração da família, seus jogos importantes, jogadores especialmente dotados, gols históricos, enfim todo aquele conjunto que faz a alegria dos torcedores de qualquer time. No caso, era o Corinthians Paulista.

Mas a criança nasceu em São Paulo e foi morar em Ribeirão Preto, distante de mim muito chão e tempo. Mesmo assim, ele ganhou uma camiseta corinthiana das pequeninas que se caracterizou por algum tempo como aquela do time do coração da avó. Combinava com ele.

Mas ocorre que, no desenvolvimento desta história, a criança amada encontrou amiguinhos. O mais querido deles, aquele escolhido, o preferido, cuja família o aceitara também de coração, entraram na história. Isso não seria nada sério, estranho ou digno de nota se eles não fossem são-paulinos.

Ora, não deu outra. O pai do amigo preferido entendeu a situação e fácil, fácil, matou os sonhos da avó de maneira fatal. Comprou uniformes são-paulinos para os dois amigos. Completos: calção, camiseta e meia. Tudo de acordo. E foram todos ao campo assistir à disputa de um jogo que o São Paulo fez no campo da cidade. Que criança suportaria tamanha pressão? Ele virou são-paulino. Eu confesso que achei jogo baixo, mas nem poderia dizer isso a ele. Coisas da vida. Não dava para eu fazer mais nada. Já estava decidido.

E daí que amarguei algum tempo muito sentida, mas ainda tentando seduzi-lo para a simpatia corintiana — eu não tinha desistido. Até que um dia aconteceu algo inusitado.

Eu estava em sua casa e ele chegou com um amiguinho da vizinhança. Perguntei qual era o jogo que estava acontecendo, ao qual eles assistiriam. Era São Paulo contra o Palmeiras. E ele torcia para o Palmeiras. Pensei ter ouvido mal, mas, ao olhar para a dupla de chuteiras e calção sujo e carinhas cansadas, senti que não ia ter sucesso em pesquisar por meios racionais. Para uma corinthiana como eu, qualquer time é melhor do que o Palmeiras. Nunca o Palmeiras, nunca mesmo. Mas, naquele dia, eu achei música para meus ouvidos essa declaração. Estranhei a verde preferência, mas era uma abertura nova que se dava no cenário. Aos poucos, senti que eu poderia ter esperanças.

O tempo passou e ele não aceitava ainda ser corinthiano. Mas já não parecia tão são-paulino, como no início.

Até que um dia chegou feliz em minha casa e me contou com ares de novidade que havia uma notícia para mim: o time de sua preferência era o Barcelona! E quis ir à internet me mostrar como era lindo o desenho do novo time. Tive que lhe fazer uma cópia. Sic!

Fiquei desolada, mas achei interessante... Na verdade, não sabia o que pensar. Cabeça de criança... Mas, com certeza, o mundo infantil é fantástico!

Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito interessante, Ana. Penso que "por que as crianças escolhem determinado time de futebol" é um assunto ainda pouco explorado. Deveriam pesquisar isso nas universidades. :)

Anônimo disse...

Eduardo, nem sei se na faculdade... rs... mas que é interessante é. As crianças mais informadas e conectadas podem pensar e sentir de forma muito particular se têm liberdade de se expressar independentemente de seus pais. É o caso do Vítor. Os pais não gostam muito de futebol, então ele tem um comportamento diferente do padrão. cadê o livro de histórias sobre o assunto?
ana gonzález