quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

POESIA CRÔNICA >> Carla Dias >>

Como sou de lua, iniciada pelas marés e dada a apaixonar pelos ventos, hoje não escreverei uma crônica, mas sim uma crônica sequestrada pela poesia. Pois há dias em que acordo assim: poetizando o barulho dos carros que passam pela avenida, dando corda ao som que invade o apartamento e que se agarra aos braços das janelas escancaradas.

Já sobre a mão agarrada ao corrimão, sinto informar que ela teme não ser tão eficaz como segurança, mantendo no chão a moça de cabeça avoada. Às vezes, ela sente vontade de soltar a moça, de lhe permitir planar pelas escadas, ou que as pise com efeito pluma. Mas basta uma escorregadela de nada e pronto! A mão se agarra ao corrimão e a moça abranda seus desejos lancinantes, como se os guardasse em envelope selado, lá naquele canto abandonado da alma.

Tirar da realidade a poesia dos becos, onde gente pinta e borda, com talento escancarado, os muros. Há mil setecentos sentimentos desenhados nesses muros. Têm uns que choram pelo o que perderam, têm outros que celebram o que ganharam e há os eternos insatisfeitos, os engraçados e os melancólicos. Há também os espectadores... Aqueles que passam pelos becos e ficam rodeados por tanto sentir, e que se perdem nas cores, quase que se misturando a elas. Alguns passam por lá e depois seguem com suas vidas. E há outros que ficam, pois não sabem partir.

O dia traz na boca uma resma de novidades. Quem se atreve a ler da boca do dia sabe que são novidades em degrade. Se as lerem do início ao fim as coisas podem clarear, amansar, e nessa leveza revelada moram tantos desfechos que o moço as vende feito lojinha de R$ 1,99 a peça. E os clientes se afobam, com medo de perderem a chance de comprarem a própria leveza. Mas o moço gargalha, abre um sorriso feito leque, e revela que não aceita dinheiro, só beijo, abraço ou aperto de mão.

As crianças brincam no quintal da esperança sem perceberem o cansaço da dona. Só que mais do que cansaço, há entre seus dedos tanta magia que ela se mantém firme, não importa onde doa ou se a tolhem com tanta veemência. No riso das crianças, nos desenhos formados pelo balanço dos seus cabelos durante a brincadeira, a esperança encontra fôlego para se manter viva. Amiga íntima da imaginação, da pureza, das pontas das estrelas das histórias infantis, dos sapatos dos sapateadores, da infante liberdade, sempre que se sente só dá uma festa de arromba lá no seu quintal.

As horas lamentam por passarem batido pelas folgas e até tentam lhes roubar um segundo, mas sem sucesso. As folgas são tão bem resolvidas que não se permitem violar. E mesmo sendo empregadas do tempo, não há como lhes tirar a personalidade. Às vezes, as folgas fogem do chefe e vão dar festas incríveis no 15º andar da alegria.

Essa poesia crônica está de prosa com a vida.


www.carladias.com


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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, você não me engana: sua prosa é sempre poesia. :)

albir disse...

De prosa com a vida ficamos nós, leitores, também.

Carla Dias disse...

Eduardo... Ai, que poxa! Eu queria muito te enganar nessa coisa de prosa e poesia!

Albir... Estar de prosa com a vida é sempre uma boa.

Victor Colonna disse...

Olá, sou cronista e poeta e tenho um blog onde divulgo meus trabalhos. Estou enviando duas pequenas crônicas. Gostaria de saber se há possibilidade de publicarem no seu blog. Quem sabe não viro um colaborador?

Abraços!

VENTANIA (Victor Colonna)


Foi assim: a tempestade de vento começou por volta de 5 da tarde. Todo mundo viu! Na verdade, ninguém viu, pois o vento (assim como o amor) não é visto, o que se vê são seus efeitos.

Os cabelos desgrenhados das palmeiras, papéis viajando rumo ao infinito, um (sus)urro constante, abafado, pressentimento claro na tarde escura. Algo maior prestes a acontecer.

Dessa vez não aconteceu. Transformou-se em sonho, promessa, brisa. Mas sei que, um dia, haverá de voltar mais forte e me levar ao meu destino.


CONFISSÕES DE UM HOMEM ÁCIDO (Victor Colonna)

Durante muito tempo eu quis ter uma base: família, emprego, estabilidade. Não deu. Não sou um homem básico. Sou ácido. Que o provem minha língua afiada, minhas aftas e minhas dores de estômago!

Durante muito tempo tentei ver a vida com outros olhos. Não deu. Nasci míope, astigmático e um tanto estrábico!

Durante muito tempo eu desejei não ser marginalizado. Não deu. Lutei para alargar as margens, e desde então tenho andado sem tantos tropeços, mas sempre do lado de fora.

Durante muito tempo tentei ser quem os outros queriam que eu fosse. Não deu. Eu sempre "foi" mais forte que meus desejos. Tive que me dobrar a mim.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Olá, Victor!
Grato pelo contato.
No momento, trabalhamos apenas com colaboradores fixos, e já estamos com a equipe completa.
Abraço,