sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ÚLTIMA ESPERA >> Leonardo Marona

Não demore a chegar, meu amor. Sinto tanto medo agora, hoje acordei chorando, coisas estranhas estão acontecendo por aqui, tenho um embrulho para te entregar. Acordei chorando, com a boca costurada, estava sozinho ouvindo uma balada – é como eles chamam – tão triste a tal balada, tão bonita e tão triste e eu nem me lembro o que ela dizia, mas tinha o veludo do sentimento agressivo que se acomoda nas veias endurecidas. Acho que todos merecemos uma daquelas paisagens de filme de bang-bang, todos merecemos um cafuné de vez em quando, uma saliva inesperada. Ah minha vida, portanto não demore! Estão todos de partida, ficarei aqui: te espero. Gostaria de sentir um peso forte de esmagar o peito agora, sentir faltar a respiração, num segundo você entra pela porta, estou de braços abertos, roxo sem ar, você apenas sorri – você tem esse poder de apenas sorrir – você simplesmente sorri para mim e, veja bem: eu não esperava nada, não havia nada combinado, não estávamos escritos nas estrelas, seria uma surpresa a cada vez e, imagine, sem esperar por nada ganharíamos tudo, a satisfação plena do desejo sem pecado. Não posso suportar tanto mais, a música já vai acabando e eu nem mesmo comecei. Agora venha já, sentimento profundo de cabelos curtos como o das revistas de comportamento, venha de muito longe gesticulando sem discrição, venha como um missionário sem pátria, e leve-me para longe dessa terra que se encolhe sobre si mesma, que se ajoelha diante de um inimigo morto. Se deus ama apenas os que não pensam, façamos a vontade de deus por um minuto e entre por aquela porta, na minha direção mais uma vez. Pode ser com sotaque paulista, pode ser sem precaução, pode ser com risco de germinar uma surpresa inconstante, pode ser num banheiro minúsculo, faremos dele um lugar onde caber. Mas por que tanto atraso, por que ainda te espero? Bem devia era cortar os pulsos e descer para comprar flores. Creio que foi muito fundo dessa vez, me sinto tonto, as coisas ganham beleza repentina, não sei se tem volta. Talvez seja só cansaço, cansaço da espera. Vou dormir um pouco, há música outra vez, quem sabe assim você não chega mais rápido, sem que eu perceba. As cobertas vermelhas, da cor do meu amor.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa feito cafuné, Léo! :)

Moniquinha disse...

Quanta beleza Léo!! Sua emoção transborda toda a razão nos brindando com essa maravilha. Parabéns querido poeta.