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EU NÃO >> Eduardo Loureiro Jr.


Eu não acordo com despertador. A meleca que tiro do nariz, eu não a coloco num guardanapo. Eu não arrumo a cama. Eu não levanto com um sorriso na cara, distribuindo bons-dias. Eu não escovo os dentes. Eu não bebo café no café-da-manhã. Eu não faço de conta que estou num comercial de margarina. Eu nem me sento para comer minha granola com aveia e linhaça. Eu não tomo banho pela manhã. Eu não saio para trabalhar, eu não tenho emprego. Eu não leio o jornal. Eu não arrumo a casa; eu nem desarrumo a casa. Eu não falo até duas ou três horas depois de acordar. Eu não tenho carro, eu não tenho casa própria. Eu não tenho compromissos. Eu não tenho o que fazer. Eu não sei o que farei à tarde, ou na semana que vem. Eu não tenho planos. Eu não tenho hora para almoçar. Eu não atendo telefone no meu horário de cochilo. Eu não penso que tragédias podem acontecer enquanto estou inacessível. Eu não dou satisfação, eu não atendo expectativas. Eu não sou normal. Eu não sou tradicional. Eu não sou convencional. Eu não sou como todo mundo. Eu não sou como todo mundo quer que eu seja. Eu não sou como uma única pessoa possa querer que eu seja. Eu não sou como eu mesmo quero ser. Eu não sou como eu mesmo. Eu não sou. Eu não digo tudo que eu tenho para dizer. Eu não canto as mulheres bonitas que vejo na rua. Eu não encaro, eu não desvio o olhar. Eu não gosto de pessoas. Eu não gosto de conversar. Eu não gosto de ouvir. Eu não gosto de ser interrompido. Eu não faço hora extra. Eu não gosto de coisas ao vivo. Eu não gosto de coisas a dois. Eu não presto atenção, eu não espero, eu não fico. Eu não dou beijinho nem abracinho. Eu não faço sala. Eu não preciso, eu não compro. Eu não pechincho, eu não dou desconto. Eu não mudo o cardápio, a decoração, a rotina. Eu não faço sexo todo dia, nem toda semana, nem mesmo todo mês. Eu não vejo telejornal, eu não assisto novela. Eu não acompanho política. Eu não tenho nada com isso ou com aquilo. Eu não sei, nem finjo que sei. Eu não entendo, eu não estudo. Eu não me aprofundo, eu não me esforço, eu não me aplico. Eu não telefono para a família nem para os amigos. Eu não desejo "boa noite" nem "durma com os anjos". Eu não. Eu nem. Eu tampouco. Eu de jeito nenhum. Eu nunca. Eu, hein?

Comentários

Felipe disse…
Eu não costumo deixar comentários. Eu não costumo dizer quando gosto de uma crônica. Eu nem escrevo! Eu não posso ser assim o tempo todo, mas eu não vou abrir exceção. ;)
Tia Monca disse…
Então o sobrinho Luis tem a quem puxar... rsrs.
A próxima crônica é a do Sim? :o)
Bj,
Tia Monca
albir disse…
Muito bem, Edu, continue não fazendo nem contando essas coisas que a agente nem quer saber.
Meu amigo, ainda bem que há nãos crônicos que vêm para sins de comentários de exceção. :)

É mesmo, Tia. Não havia lembrado disso. :) E ah se eu tivesse o dom de adivinhar qual será a próxima crônica. É ela que me escreve, não eu. :)

Pode deixar que não, Albir. :)
Kika disse…
eu sim.
Adorei a crônica!
beijos!
Brunno Leal disse…
Eduardo, belo texto! Leve e divertido!Parabéns! Divulgo algumas crônicas no meu blog,dá uma passada lá, se puder.
Abraços!
Tinha que ser do contra, né, Kika? :) Beijo,

Grato, Brunno. E muito boa a sua descrição do verão. :)
Debora Bottcher disse…
Socorro, Eduardo! Eu tô ficando assim também!!! E eu acho que não gosto. :)))
Beijo.
Eita, Debora! Então o seu "eu não" é ainda mais forte do que o meu. :)

Valeu, traficandoconhecimento. Gostei desse nome. :)

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