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Mostrando postagens de Junho, 2010

A MÚSICA DELAS >> Carla Dias >>

Ah, que o universo da música continua a me incitar pensamentos. Definitivamente, sem a música meus escritos seriam monocromáticos.

Agora, por exemplo, estou ouvindo Orchestre Del Tango de Fleurs Noires, um grupo formado por argentinas e francesas, dez mulheres que são ótimas instrumentistas, com um repertório com canções de jovens compositores, como Eduardo Acuna, Víctor Parma e Gerardo Jerez Le Cam, compostas especialmente para o trabalho delas. O tango, que sempre foi conduzido por homens falando sobre as mulheres, agora conta com um belíssimo e forte trabalho de mulheres falando sobre elas mesmas, e todo sentimento que envolve o universo feminino, através de canções com arranjos belíssimos e dramáticos, que tão bem cabem no tango.

FLEURS NOIRES
http://www.myspace.com/fleursnoires
A Fleurs Noires é composta por Andrea Marsili (Piano), Veronique Rioux (bandoneon solo), Carolina Poenitz (bandoneon), Eve Cupial (bandoneon), Anne LePape (violino solo), Andrea Pujado (violino), Solenne Bort …

FALTA DE GENTILEZA NÃO, FALTA DE NOÇÃO!
>> Clara Braga

Outro dia fui a uma festa com uma amiga da faculdade e outros amigos dela. Como eu não conhecia os amigos, fiquei mais na minha, não falei muito de início. Mas eles eram muito legais, tão gentis que eu fiquei até impressionada, me trataram muito bem e me fizeram ficar bem à vontade, em pouco tempo eu já conversava como se eles fossem meus amigos de infância. Quando estávamos indo embora, depois deles terem agradecido a minha companhia (ninguém nunca agradeceu minha companhia antes), eu comentei com minha amiga que eles eram diferente de todas as últimas pessoas que eu havia conhecido, eram muito legais, e foi aí que minha amiga me disse algo que me fez ficar pensando por um bom tempo. Ela disse que todos os amigos dela eram assim, e que ela achava que na verdade eu é que conhecia as pessoas erradas e acabei me acostumando com a falta de gentileza! Nossa, essa foi forte, acostumar com a falta de gentileza, como seria possível?

Fiquei com isso na cabeça, mas não demorou muito pra eu per…

SOBRE DUAS RODAS II
>> Albir José Inácio da Silva

[Sobre duas Rodas, parte I]

O pedal bateu duas vezes na minha canela enquanto eu empurrava o problema pela calçada. Não senti dor. Não sentia nada. Não raciocinava. Só precisava andar de bicicleta. Era a encruzilhada da minha vida.

Passei o pé por cima do quadro e sentei no selim. A perna de apoio tremeu e pensei cair de lado. Respirei várias vezes, mas faltava ar. Ninguém por perto, conferi. Disposto a cair, impulsionei o corpo pra frente. Só deu tempo de apoiar o outro pé. Mais uma tentativa e desta vez coloquei os dois pés nos pedais. Duas voltas e de novo o pé no chão. Botar o pé no chão me impedia de cair. Isso quase me emocionou. Repeti as duas voltas no pedal por quatro ou cinco vezes, mas ainda estava insolúvel a questão de permanecer em equilíbrio.

Foi quando percebi que não estava sozinho. O garoto sentado no meio-fio falou comigo. Pele e roupa cobertas de poeira, ele tinha a cor da calçada, por isso não o tinha visto.

- Quando cair pra cá, vira o guidão pra cá. Se cair pra …

VUVUPENISVAGINAZELA
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Silêncio, por favor, enquanto esqueço um pouco a dor do peito... Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos... Quem sabe de tudo, não fale. Quem não sabe nada, se cale." (Paulinho da Viola)
É muita vuvuzela para meus ouvidos bossa-nova.

E não estou — ainda — falando das cornetas sul-africanas. Falo mesmo da fala, do falatório, da verborréia, do disse-me-disse, da conversa, da eloquência, da língua, do blablablá...

Um homem fala, em média, 2.000 palavras por dia. A mulher, 7.000. Isso por baixo, porque há outras pesquisas que apontam placares ainda mais dilatados a favor — ou contra — as mulheres. Esses números só me levam à conclusão de que eu não sou nem homem nem mulher, porque se falo mais de 1.000 palavras por dia, já sinto a boca seca e os lábios rachados do esforço. E me dou por feliz se passo um dia inteiro em completo silêncio, sem pronunciar nem "bom dia", nem "por favor", nem "saúde", nem "obrigado".

Mas a verdade é que as mulhe…

ABRAÇAR [Maria Rita Lemos]

A senhora, sentada à minha frente, estava visivelmente tensa.

Era uma pessoa de meia-idade, com problemas muito sérios de relacionamento, envolvendo o marido, filhos e filhas. Aliás, esses eram as primeiras vítimas de seu problema, que poderia até ser diagnosticado como distimia (uma espécie de mau humor crônico), mas não eram as únicas pessoas que sofriam com os distúrbios dessa senhora, que chamarei de dona Maria. Sendo professora, como era, dá para perceber que os pequenos (ela dá aulas no primeiro grau) também recebiam os respingos de sua forma de ser e atuar no mundo.

O sol da manhã batia em meu rosto, portanto levantei-me para cerrar um pouco a persiana. Fazendo esse movimento, toquei em seu ombro, sem querer, e a reação foi muito forte: ela emitiu um movimento, involuntário mas visível, um gesto brusco de sobressalto e até de certa repulsa, pelo simples fato de minha mão ter tocado em seu ombro, por fração de segundos.

Percebi – e apontei isso a ela – que dona Maria n…

DELICATO MA NON TROPPO
>> Leonardo Marona

dedico este poema à seleção de futebol da Itália


não sei se é o vento fresco do início do inverno,
misturado ao calor aconchegante de um domingo
pela manhã, sem ressaca alguma, a não ser aquele
contumaz estremecimento estranho por todo o corpo,
que às vezes me leva a falar sozinho noutra língua
e além de tudo, é claro, muita saudade mas não
exatamente de alguém, saudade de uma sensação,
como se eu fosse um homem das cavernas e sentisse
como um homem das cavernas, a ponto de bater
a cabeça nas rochas, mas agora, talvez, por causa
de um monte de coisas juntas ou talvez apenas seja
porque no rádio, sempre nas manhãs de domingo,
existe um programa com as músicas que lembram
nossos pais e avós e todas as namoradas do mundo
e as coisas incontidas do coração, mas agora não há
estrada imediata, há apenas uma longa curva, mas
pelo menos as crianças gostam de mim e sorriem
com minha bela cara de idiota assustado, menos, é claro,
o filho do vizinho e isso eu nunca entenderei por quê,
mas acho qu…

FIM DO RECREIO >> Fernanda Pinho

Eu estava na quarta série e estudava num colégio de freiras. Eu adorava estudar naquela escola, tanto que fui muito feliz ali durante onze anos. Era a escola perfeita, não fosse por um detalhe: a supervisora. Ela não era freira, mas era temida. E parecia gostar disso. Prezava pelos, ditos, bons costumes, muito mais que as próprias freiras que, raramente, incomodavam aos alunos com alguma advertência esdrúxula.

Já a supervisora, certou dia, adentrou minha sala da quarta série e, sem mais nem menos, nos aplicou uma penalidade: uma semana sem recreio! Susto, murmúrios, burburinhos e vontade de chorar (não era pra menos: quando você está na quarta série a pior coisa que pode acontecer na sua vida é ficar sem recreio). Até algum aluno, mais valente, ter coragem de exteriorizar a aflição de todos, embora a voz quase não tenha saído: "Mas por quê?".

A penalidade não parecia fazer sentido algum e o motivo menos ainda: "Para que vocês aprendam a se respeitar e nunca mais fiquem…

LIVRO OU FILME? >> Carla Dias >>

A sua vida daria um livro? Um filme?

Um livro eu sei que a de muitas pessoas que eu conheço daria. Isso porque elas fazem questão de me dizer que a vida delas daria um livro, que eu deveria escrever sobre os revezes das suas biografias. A maioria delas fala isso de verdade, querendo mesmo que eu as entreviste e escreva um livro sobre elas, porque acreditam que são sobreviventes.

Algumas delas realmente o são. Outras ainda não sabem o que é viver uma experiência valiosa.

Eu gosto de ouvir as histórias que essas pessoas têm para contar, e acho que muitas delas dariam sim ótimos romances. Porém confesso que gosto da ideia de, se um dia decidir biografar alguém, que seja uma pessoa pela qual, antes de tudo, eu tenha me apaixonado pela história de vida. Que ouvi-la seja também uma experiência de descoberta para mim. E que assim eu possa misturar a prosa da vida dela com a poesia que ela me inspira.

Como eu já disse, eu realmente sou uma boa ouvinte, mas acho que é por invejar um pouco aqueles …

REALIZAR UM SONHO NÃO TEM PREÇO QUANDO SEU PAI TEM UM MASTERCARD >> Clara Braga

Sábado de manhã, céu super azul, um dia lindo como há muito eu não via. Não tinha como não ser um dia perfeito para que eu realizasse um dos meus incontáveis sonhos.

Acordei meio tarde, como normalmente acontecia antes de eu começar a trabalhar aos sábados, tomei aquele banho para acordar e comecei a me arrumar. Coloquei uma roupa bem fresca para aguentar o calor do dia que seria longo e fui para o tão famoso almoço em família. Esse era um almoço especial, pois minha vó estava indo passar um mês na Europa, então queria se despedir, não sabia como iria ficar um mês sem ver as filhas e os netos. No almoço era aquela bagunça, todo mundo anotando as encomendas no guardanapo, e minha vó, coitada, se perguntando como ela ia fazer pra dar conta de carregar aquilo tudo, parecia que todo mundo tinha esquecido que ela — mesmo não parecendo — já era uma senhora de idade.

Apesar de sermos só 4 aqui em casa, tivemos que ir em dois carros, pois eu teria que almoçar rapidinho e sair correndo para e…

NÃO ME ACOSTUMO >> Kika Coutinho

Dia desses foi Dia das Mães. Alguém, no elevador, perguntou-me se eu já era mãe. Sou, respondi sorridente. A pessoa deu-me os parabéns e foi embora. Como se isso fosse normal. Fiquei lá, dentro do elevador, sem nem saber pra que andar ir diante de tamanha banalidade. Como que a pessoa não se surpreendeu? Como que achou normal? Como que não gritou: “Pombas, você é mãe! Caraca, que bacana!” Isso para não falar palavrões enormes, que exprimiriam melhor o susto. Não. A pessoa acha que é normal ser mãe. Dizem que é. Mas eu não me acostumo.

Não me acostumo a ver-me naquele bebê. Não me acostumo a ver que ela tem o nariz do pai, os meus olhos, misturou os nossos traços tão bem e fez-se outra, sem ser totalmente outra, porque é um pouco de mim também. Quem é que juntou isso, quem desenhou essa mistura, criou na minha barriga, com meus órgãos, meus líquidos, com minhas nojeiras todas, esse bichinho tão bem criado?

Não me acostumo com o berço no quarto vizinho ao meu, o choro à noite, o riso re…

SARA, MAGO >> Eduardo Loureiro Jr.

"Você escreve tão bem que faz a gente concordar com coisas que, examinadas de perto, descobriríamos não ser verdade", foi o que me disse meu orientador de mestrado após ler uma das primeiras versões de minha dissertação. Achei curioso o comentário — até o tomei por um elogio, mas só hoje me ocorre que talvez não tenha sido.

Alguns anos depois, já com um diploma de doutorado na gaveta, foi a minha vez de pensar a mesma coisa sobre um outro escritor, o Leonardo Marona, que escreve aqui no Crônica do Dia: O Léo escreve tão bem que faz a gente gostar de coisas que, se avaliássemos bem, não deveriam ser gostadas.

Há poucos meses, aconteceu novamente, ao ler um livro de José Saramago, "Caim". O cara escreve tão bem que a gente perde a noção de que está lendo uma série de absurdos.

Curioso é que há algo de comum em nossos sobrenomes: Loureiro, Marona e Saramago. São todos enganadores.

Loureiro é uma árvore cuja origem é explicada na mitologia grega. A ninfa Dafne, já cans…

ASSUNTOS PARA DEUS RESOLVER
[Maria Rita Lemos]

Estávamos conversando, minha amiga Maria e eu, e ela me falou de sua filha, que está estudando muito longe, e fazendo escolhas que ela teme que possam prejudicá-la. Distante de sua menina, que aliás já é uma mulher, Maria (nome fictício) estava realmente muito preocupada com sua filha Denise, que estuda numa Faculdade Federal, muito longe, fora do nosso Estado. O máximo que pude dizer à minha amiga, depois que ela uivou como uma loba e usou quase a caixa inteira de lenços de papel que forneci, foi dizer a ela: “Pelo que estou sentindo, esse problema você tem que colocar na prateleira de A.P.D.R.”

De repente, Maria parou de soluçar e me perguntou que prateleira era aquela. Eu respondi com uma lição que aprendi com minha mãe, enquanto ela estava ainda neste mundo. Quando confidenciávamos com ela algo cuja solução fugia do nosso alcance, ou seja, uma situação sobre a qual nada podíamos fazer ou que já fizemos e agora não estava mais sob nosso controle, ela dizia, com toda a sabedoria que…

NADA E TUDO >> Leonardo Marona

Olhou para ele e disse: “gosto de você porque você é tudo e nada ao mesmo tempo”. Ele não entendeu. Mas gostou. Anotou num papel. Depois se amaram violentamente por debaixo das cobertas, como em qualquer casa de família, depois da meia-noite, quando as crianças já estão dormindo, com as orelhas grudadas atrás da porta.

“Você é liberal, faz o meu tipo. Tenho nojo de certos homens. Contigo é só excitação”. Ele não entendeu, mas dessa vez pelo menos fingiu que entendeu. Beijaram-se torrencialmente e depois fizeram as pazes por uma briga da qual nenhum dos dois se lembrava mais, por mais que os dois chorassem copiosamente, até que ela se lembrou: “Foi quando você me confundiu com outra na calçada do edifício”.

“Gosto de extremos. Beijaria você na boca agora, mas o que me interessam são os teus demônios internos”. Ele não entendeu novamente, mas dessa vez se aborreceu. “Não tenho demônios nem anjos internos”, disse a ela. “Sou apenas isso que você está vendo e, em breve, nem isso”.

Ela mudou …

OH, MY DOG! >> Fernanda Pinho

Conviver em sociedade é uma tarefa árdua. Principalmente quando você sofre de algum problema que te diferencia da maioria esmagadora das pessoas. Sei o tamanho desse fardo porque convivo com isso desde que me entendo por gente. Em todas as relações que fui estabelecendo ao longo da vida, tive que trabalhar essa minha diferença, e é triste concluir que não evoluí muito. Acho que meu problema é grave. Gravíssimo. Não sei lidar com cachorros.

E não estou falando de homens de caráter duvidoso. Com esses eu aprendi a lidar muito bem. Falo mesmo dos caninos. Poodles, schnauzers, labradores, beagles, pugs, vira-latas, que sejam. Não tenho a menor destreza para interagir com eles e, normalmente, me vejo passando por situações constrangedoras por conta dessa inabilidade. Afinal, aparentemente, 99% da população gosta de cachorro e sabe muito bem o que fazer quando um deles quer cruzar com a sua perna. Me entendam! No meu caso, não é que eu não goste. Eu só não sei o que fazer quando um deles qu…

MERCEARIA >> Carla Dias >>

Sinto-me fascinada pela palavra mercearia. Não sei por que, mas ela anda me soando de um jeito meio nostálgico nos últimos dias.
Quando eu era criança, minha mãe fazia nossas compras em mercearias, não em supermercados. Naquela época, supermercados eram equivalentes a shopping centers e, como não tínhamos como comprar nossos jeans preferidos, naquela loja bacana, sabe?, bem, passávamos longe deles.
Frequentemente, eu e minha irmã mais velha íamos à mercearia com a caderneta na mão, na qual o Seu Zé, dono do estabelecimento, marcava nossas despesas, que pagávamos mensalmente. Ele sempre perguntava pela minha avó, pela minha mãe, sabia quem éramos, porque nos viu crescer comendo suspiro cor-de-rosa, comprado na mercearia dele.
Na mercearia do Seu Zé, comprávamos arroz, feijão, óleo... O óleo ficava em um grande barril e era bombeado para garrafas de vidro vazias que reutilizávamos, enquanto elas aguentavam, ou até nós, as crianças do quintal, afanarmos as tais para trocar por pintinhos...
P…

APRENDENDO COM A COPA >> Clara Braga

É hoje! Posso sentir a ansiedade no ar. E olha que eu nem sou assim tão fã de futebol, mas durante a copa não tem como fugir desse clima! Todo mundo para o que está fazendo para assistir e torcer pelo nosso time, até mesmo quem não curte muito, afinal quer desculpa mais justificada que essa para dar uma pausa no trabalho? E não adianta, brasileiro é assim mesmo, é bem capaz que queiram decretar feriado caso o Brasil seja hexacampeão, assim poderiamos ter o dia nacional da ave Galvão, já que só se fala dessa campanha linda que está rolando na internet que é a "Cala a Boca Galvão"!

Mas não é só de farra que vive a copa, acreditem ou não esse também pode ser um momento de aprendizado. Como assim? É isso mesmo, se você quer aprender mais sobre a África do Sul, esse é o momento de saber tudo nos mínimos detalhes, todas as revistas, jornais, canais de televisão, artigos na internet, blogs e etc. Tudo e todos só falam da África. Mas quando começa uma partida não tem pra ninguém, o …

SOBRE DUAS RODAS I
>> Albir José Inácio da Silva

Tudo começou na época ainda do velocípede. Caí, como caem os meninos. Não houve grandes prejuízos, só uns arranhões, mas me fizeram pensar na bicicleta. Se do velocípede eu caio, que dirá da bicicleta. Mesmo sem noções de física, desenvolvi teorias sobre a impossibilidade de uma bicicleta se equilibrar em duas rodas. Principalmente se eu estiver em cima dela.

Ainda andei de velocípede algumas vezes, sem queda, com medo no início e desinteresse depois. A única coisa que ficou foi a certeza de nunca conseguir andar de bicicleta. Quando todos os garotos tinham bicicleta, eu desconversava, dizia que não gostava, que tinha problema no joelho, que ia querer mesmo era uma moto e que bicicleta era coisa de criança.

Claro que minhas desculpas não valeram por muito tempo. Logo o “bullying”contra mim se espalhou pelos desafetos, pelos amigos e chegou aos parentes. Eu era medroso, desajeitado, esquisito e, o que era pior, desequilibrado. "Desequilibrado" me atingia com força dobrada. Alé…

SONHOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Conheci uma moça bonita, meu bem, mas foi só em sonho.
Os sonhos são uma permissão da Natureza para que experimentemos nossos medos em segurança e para que não percamos a esperança de realizar nossos desejos.

Há quem tenha sonhos premonitórios, gente que adivinha, quando está dormindo, o que vai acontecer. Eu já tive medo de que comigo fosse assim também, mas não é. Se tenho pesadelos, acordo aliviado, e, se tenho bons sonhos, acordo triste, porque nem uns nem outros irão se realizar. Então, após o desespero de ver todos os meus dentes da arcada inferior se esfacelando, como se fossem feitos de areia molhada da praia, acordo ainda assustado mas feliz, me consolando, "foi só um sonho", e, no desjejum, mastigo a mistura de granola, aveia, linhaça e mel com um prazer exagerado. Mas, da mesma forma — ou seria de forma invertida? — após o êxtase de viver a vida dos meus sonhos, à beira-mar, vivendo da escrita, acordo na minha mesma vidinha de sempre e, por mais que tente fechar os o…

CAFUNÉ [Sandra Paes]

Me faz aí um cafuné! Ouço o personagem dizer, de forma solícita, como se esse feito pudesse apaziguar todos os efeitos dos males causados e os danos criados naquela cabecinha grisalha.

E foi assim para ela, desde menina. O cafuné tinha uma espécie de poder mágico, algo especial mesmo. Era só o gesto de enroscar os dedos nos cabelos e fixar cachinhos no ar que tudo se amainava.

Hoje penso sobre isso e vou eu mesma acariciar os cabelos, enrolando os dedos em forma circular como a desenhar os caracóis por fora e com isso exorcizar os “rolos” de dentro da cabeça. Deve ser essa a magia. Quando se anela cada chumacinho, tira-se assim, como nada, os nós guardados lá dentro das sinapses e, dessa forma, acalmamos a mente, regularizamos os pensamentos desconexos, porque eles se apagam e só fica uma sensação de calmaria, uma pequena onda azul mansa a acompanhar as camadas mais convulsas de até mesmo todos os músculos.

Se a gente se lembrasse do poder de entrega que o cafuné traz, o enlevo que al…

ANTES DO SONO >> Leonardo Marona

Talvez fosse preciso um longo bocejar. Admitir a aceitação mais violenta: a que diz respeito a nossa própria carne. Um tigre de papel, perdido nos lençóis da carne. Estamos sobre um pedaço enorme de coisa que não sabemos de onde veio e na verdade é um pedaço mínimo de uma outra coisa sem referência nenhuma que gira sem direção por um espaço que por sua vez não se sabe se é infinito, finito ou realmente espaço. É impossível não pensar que estamos todos perdidos, andando por aí, criando rotas dentro de algo – chamemos de algo o que não tem nome – maior e que não tem rota alguma. Mas não tenho essa pretensão. Pretensões grandiosas são as mais mesquinhas. Perguntem a Lee Oswald ou a Oswald de Andrade. Na verdade, queria falar sobre o momento imediato como no futuro do pretérito, o tempo da desesperança poética. E hoje não precisaríamos mais do tiro que explode o sangue na parede. Não haveria mais pernas gangrenadas de pico ou dólares falsificados inflamando vaginas. Estaríamos todos sob u…

94 OUTRA VEZ >> Fernanda Pinho

"Desde o início, eu já fiquei muito contente só de saber que o Brasil participaria da Copa do Mundo. Eu já estava preparada para perder. E principalmente para ganhar. Mas mesmo assim, eu queria mesmo era a vitória. Eu me sentia muito nervosa a cada jogo. E assim os jogos se passaram e o Brasil foi eliminando todos os países. Até que chegou a vez da Itália passar pelo Brasil. Foi um jogo de muita aflição. Tivemos que ir para os pênaltis. Foi quando o Roberto Baggio errou o chute e o Brasil inteiro comemorou a vitória. Foi muita emoção. Obrigada, seleção! Foi muito bom, pela primeira vez, ver o Brasil ser campeão".

Achei o texto acima nos guardados da minha mãe, assinado por mim, com a data de 09 de agosto de 1994. Aos dez anos de idade, eu ainda me sentia extasiada e eufórica pelas emoções proporcionadas pela magia futebolística. Foi a primeira vez que eu me senti assim e, naturalmente, também foi a única vez em que eu me senti assim. Claro, vieram muitas outras emoções com m…

CRONICAMENTE DISTANTE >> Carla Dias >>

Começo essa crônica sem saber aonde ela vai me levar. Não há um assunto em pauta, uma inspiração, tema que fiquei ruminando, nos últimos dias. Não há um filme que assisti ou um livro que li, uma canção que escutei e que me fez pensar em dizê-la.
Desamparada pelas ideias, aqui estou, numa nudez desapropriada de pudores. Esvaziada, olho ao redor e vejo apenas objetos: calculadora, grampeador, papel, caneta, porta, cadeira, computador e os meus dedos teclando essas palavras, enquanto meu pensamento está completamente no momento, o que é raro para mim.
Não viajo em entrelinhas, não tenho taquicardia por pensar sobre os desejos que escondo até de mim. O tempo não me afoba, a temperatura está agradável, o mundo segue seu rumo sem a minha intervenção.
Tenho sede: já volto.
Voltei... Matei a sede sem precisar de poesia. Matei a sede com água como toda sede dever ser extinta. Bebi do copo, não da ausência da companhia. Engoli líquido, não o nó na garganta.
Aonde será que me levará essa crônica cron…

A MINHA PRIMEIRA VEZ >> Clara Braga

Lá estava eu, chegando em casa em um daqueles feriados parados que mais parecem dia de domingo. Sem ter muitas preocupações, sem muito no que pensar, resolvi sentar na frente do computador pra checar meus e-mails. Quando abri lá estava, bem ali mesmo na caixa de entrada a oportunidade de ter a minha primeira vez. Eu não ia precisar nem fazer muita coisa, bastaria apenas que eu aceitasse o convite e pronto, a data já estaria automaticamente marcada. É isso mesmo, a proposta pode até ter chegado de surpresa e me pego desprevenida, mas minha primeira vez teria data marcada.

Antes mesmo de responder, eu já tinha em mim a idéia fixa de que eu queria que acontecesse, mas é normal ter dúvidas nesses momentos. Será que estou realmente pronta? Será que sou madura o suficiente para assumir essa responsabilidade? Se eu aceitasse, teria que ter em mente que, depois da primeira vez, teria que repetir a dose semanalmente sem deixar ficar sem graça, sempre tentando coisas novas... Ah, e é bom deixar…

O IDEAL E O REAL >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que não parece, mas já fui muito exigente. Quem me vê assim, tranquilo, satisfeito com as coisas do jeito que são, não imagina o quanto eu já reclamei meus supostos direitos e clamei aos céus o atendimento de necessidades "fundamentais", sem as quais eu não poderia viver.

— Por exemplo? — o leitor, sempre curioso, há de perguntar.

Mulheres, por exemplo. Eu pensei que tinha direito a uma mulher ideal e já pedi muito a Deus que me desse uma mulher assim...

Fisicamente, apenas um pouco mais baixa do que eu. Cabelos longos e dourados (mas não pintados), quase encostando na bunda, que teria de ser grande, sem ser exagerada. Seios fartos, até com uma certa tendência ao exagero. Uma mulher esguia, não magrela. Pele macia, de fina penugem. Mãos e pés delicados, nem grandes nem pequenos. Pernas grossas, não marombadas. Olhos alternando entre o verde e o azul, de acordo com a luz do ambiente. Voz de quem canta, e que cante mesmo, e muito bem, mas sem aquele tom de impostação. Quan…