Pular para o conteúdo principal

ASSUNTOS PARA DEUS RESOLVER
[Maria Rita Lemos]

Estávamos conversando, minha amiga Maria e eu, e ela me falou de sua filha, que está estudando muito longe, e fazendo escolhas que ela teme que possam prejudicá-la. Distante de sua menina, que aliás já é uma mulher, Maria (nome fictício) estava realmente muito preocupada com sua filha Denise, que estuda numa Faculdade Federal, muito longe, fora do nosso Estado. O máximo que pude dizer à minha amiga, depois que ela uivou como uma loba e usou quase a caixa inteira de lenços de papel que forneci, foi dizer a ela: “Pelo que estou sentindo, esse problema você tem que colocar na prateleira de A.P.D.R.”

De repente, Maria parou de soluçar e me perguntou que prateleira era aquela. Eu respondi com uma lição que aprendi com minha mãe, enquanto ela estava ainda neste mundo. Quando confidenciávamos com ela algo cuja solução fugia do nosso alcance, ou seja, uma situação sobre a qual nada podíamos fazer ou que já fizemos e agora não estava mais sob nosso controle, ela dizia, com toda a sabedoria que lhe era peculiar: “Se já fez tudo o que podia, coloque o assunto na gaveta chamada A.P.D.R. e aguarde”. Diante de nossos rostos curiosos, ela explicava, pela milésima vez: "É a gaveta chamada Assuntos Para Deus Resolver. Deixe lá, tente não se preocupar. De vez em quando, algum sinal vai lhe ser dado, no sentido de que Deus está agindo. Preste atenção a essas indicações, e siga-as. O Criador está cuidando."

Realmente, existem momentos em nossas vidas em que nos sentimos impotentes e perdidas. Tudo o que podíamos fazer foi feito (essa é a primeira pista na procura de soluções). No entanto, tendo feito tudo, ainda não conseguimos solucionar o problema. Numa primeira fase, quando isso ocorre, nos sentimos aflitas, a ansiedade atinge níveis perigosos. Passamos noites insones, tentamos de todas as formas, perdemos a paciência e até a compostura, blasfemando e nos desesperando, mas a solução não chega.

Sentimos que estamos impotentes, emocionalmente “engessadas”. É como se estivéssemos presas num labirinto, correndo para todos os lados, sem encontrar saída alguma. Para fugir à dor e à insegurança que essa situação nos causa, acionamos os mecanismos de defesa que nós todos temos, felizmente, e nos preservam da total desintegração de nossos egos. Com essas defesas, tentamos construir, dentro de nós, sentimentos que anestesiem a dor.

Maria estava usando essas defesas quando me contou que, ultimamente, procurava nem telefonar para a filha, para não se angustiar ainda mais, impotente para agir. A partir desse mecanismo de compensação, temos duas vertentes de sentimentos: ou caímos em depressão (que, no fundo, é a negação da angústia ou sua assimilação em estado crônico) ou nos adaptamos ao que está acontecendo, por mais que nos custe essa última atitude.

Para ajudar nesse momento de impotência, para a qual não há nenhum Viagra, nem fármaco algum vai resolver, é preciso reconhecermos a limitação. Esse é o maior aprendizado. Não somos deusas, embora às vezes nos coloquemos assim. Mesmo com a missão de mãe, conforme conversei com Maria, muitas vezes não podemos fazer escolhas por nossos filhos, bem como em muitas outras situações nada há que possamos fazer, senão orar e esperar.

Lembrando sempre que as coisas não vão acontecer no nosso tempo, mas no de Deus, muito diferente do nosso. Resta-nos respirar fundo, relaxar e colocar na tal gaveta APDR. Isso não significa “fugir do problema”, mas apenas reconhecer nossa impotência e deixar vir à tona a fé em um Ser Superior, que a tudo assiste e em tudo está presente em nossas vidas.

Nessa “gaveta” cabem todos os tipos de problemas: perda de entes queridos — para a morte ou para a vida; falta de tempo para fazermos o que gostamos; injustiças contra nossa pessoa; preconceitos que não podemos enfrentar; doenças do corpo ou da alma, nossas ou de pessoas a quem amamos; desemprego; rejeição... enfim, a lista é muito grande.

O grande segredo vem por etapas: em primeiro lugar, saber que realmente a gaveta APDR existe e está à espera de nossas angústias. Depois de acomodarmos essas fichas na gaveta citada, cabe-nos tentar ser felizes, apesar do que está havendo, apesar de tudo. Não levar as coisas muito a sério, e lembrar-nos sempre de que tudo muda e o Tempo é o melhor remédio para tudo (Voltaire, aliás, disse uma vez que “o Tempo é o segundo nome de Deus”).

Nessa importante tarefa de adaptação, resta lembrar que nenhum problema é totalmente insolúvel, quando na gaveta certa. Perder um amor pode significar que ele não era tão importante assim. Lidar com uma doença incurável, nossa ou de um ente querido, aperfeiçoa nossa sabedoria e nos faz valorizar a saúde. Se não temos tempo nem dinheiro, nem ambos, podemos fazer disso um motivo para usarmos nossa criatividade.

Enfim, sempre há luz no final do túnel, desde que não estejamos tão deprimidos que não possamos enxergar saída alguma. Não é preciso muita coisa para sermos felizes: a conversa gostosa com uma amiga, observar um pôr-do-sol, aproveitar a manhã de domingo para uma caminhada, tomar banho de chuva, enfim, são coisas que, enquanto os problemas estão no arquivo APDR, podemos fazer para aquecer nossas almas.

Relaxar, confiar e saber que Deus está agindo não é fácil, mas pode ser o melhor ou o único caminho a seguir. Pelo menos no momento em que nada mais há que possamos fazer.

Comentários

Uma verdadeira aula de sabedoria Maria Rita. Grato por esse presente em forma de palavras.
Debora Bottcher disse…
Belo texto, Maria Rita. Estou cheia de assuntos para o arquivo A.P.D.R. Espero que Deus tenha tempo de dar uma olhada nas minhas pendências com urgência. :)
Super beijo.
Minha cara Rita, não pude deixar de parabenizá-la pelo belíssimo texto, que, ao final das contas, vem a ser mais que palavras - acabando por tornar-se um bom exemplo...

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …