segunda-feira, 14 de junho de 2010

SOBRE DUAS RODAS I
>> Albir José Inácio da Silva

Tudo começou na época ainda do velocípede. Caí, como caem os meninos. Não houve grandes prejuízos, só uns arranhões, mas me fizeram pensar na bicicleta. Se do velocípede eu caio, que dirá da bicicleta. Mesmo sem noções de física, desenvolvi teorias sobre a impossibilidade de uma bicicleta se equilibrar em duas rodas. Principalmente se eu estiver em cima dela.

Ainda andei de velocípede algumas vezes, sem queda, com medo no início e desinteresse depois. A única coisa que ficou foi a certeza de nunca conseguir andar de bicicleta. Quando todos os garotos tinham bicicleta, eu desconversava, dizia que não gostava, que tinha problema no joelho, que ia querer mesmo era uma moto e que bicicleta era coisa de criança.

Claro que minhas desculpas não valeram por muito tempo. Logo o “bullying”contra mim se espalhou pelos desafetos, pelos amigos e chegou aos parentes. Eu era medroso, desajeitado, esquisito e, o que era pior, desequilibrado. "Desequilibrado" me atingia com força dobrada. Além da impossibilidade de ficar sobre a bicicleta, significava problemas mentais. Nenhum xingamento dói tanto quanto aquele em que a gente acredita. E eu acreditava. Não, eu tinha certeza.

A coisa cresceu tanto que comecei a pensar que quem não conseguia andar de bicicleta não conseguiria mais nada na vida. Eu via crianças pequenas que ganhavam bicicleta num dia e no outro já estavam fazendo acrobacias. Da minha angústia ninguém sabia. Todos me achavam normal. Ninguém desconfiava do peso, da sensação de que a vida não tinha dado certo antes mesmo de começar. Eu evitava os grupos e os amigos. Porque amigos andavam de bicicleta.

O curso ginasial chegava ao fim e eu construí o impasse. Ou eu era um verme ou ia viver a minha vida. E vida significava o científico, o vestibular, a faculdade e andar de bicicleta. Mas não nessa ordem.

Um bairro distante, uma praça, loja de aluguel de bicicletas, pernas tremendo e mãos suadas. Estendi a carteira de identidade e o dinheiro.

- Só a carteira. Paga na volta.

- Mas eu só quero uma hora... nem sei se vou ficar...

- Então você só paga uma hora... na volta.

O pedal bateu duas vezes na minha canela enquanto eu empurrava o problema pela calçada. Não senti dor. Não sentia nada. Não raciocinava. Só precisava andar de bicicleta. Era a encruzilhada da minha vida.

[Continua daqui a quinze dias.]

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa, Albir! Estava faltando um folhetim no Crônica do Dia. :)

fernanda disse...

Quinze dias??? Que crueldade!!! Mas eu aguardo, tudo bem. Quero ver se meu caso tem solução. Pois tudo o que você descreveu sentir em relação as bicicletas eu sinto ainda hoje em relação aos carros.
Abraços!

Carla Dias disse...

Que isso, Albir! Fazer a gente esperar quinze dias : (
Bom, independente do epílogo, eu não sei andar de bicicleta. Assumi que sou desequilibrada...

albir disse...

Que bom, Edu. Cheguei a ficar em dúvida sobre se deveria.

Fernanda, obrigado por aguardar.

Carla, passa rápido. Ri muito com "assumi que sou desequilibrada..."