quarta-feira, 16 de junho de 2010

MERCEARIA >> Carla Dias >>

Sinto-me fascinada pela palavra mercearia. Não sei por que, mas ela anda me soando de um jeito meio nostálgico nos últimos dias.

Quando eu era criança, minha mãe fazia nossas compras em mercearias, não em supermercados. Naquela época, supermercados eram equivalentes a shopping centers e, como não tínhamos como comprar nossos jeans preferidos, naquela loja bacana, sabe?, bem, passávamos longe deles.

Frequentemente, eu e minha irmã mais velha íamos à mercearia com a caderneta na mão, na qual o Seu Zé, dono do estabelecimento, marcava nossas despesas, que pagávamos mensalmente. Ele sempre perguntava pela minha avó, pela minha mãe, sabia quem éramos, porque nos viu crescer comendo suspiro cor-de-rosa, comprado na mercearia dele.

Na mercearia do Seu Zé, comprávamos arroz, feijão, óleo... O óleo ficava em um grande barril e era bombeado para garrafas de vidro vazias que reutilizávamos, enquanto elas aguentavam, ou até nós, as crianças do quintal, afanarmos as tais para trocar por pintinhos...

Pintinhos eram nossos bichinhos de estimação. Sofríamos vendo que, depois de cuidá-los com tanto carinho, vendo-os tão amarelinhos correndo pelo quintal, até ficarem marronzinhos de brincarem no chão de terra, eles não resistiam e morriam.

Fizemos muitos enterros de pintinhos, naquela época.

E adorávamos comprar doce na mercearia: maria-mole, pé-de-moleque, paçoca, apesar de lá também termos comprado a maioria dos nossos cadernos, lápis e borrachas usados no primário e no ginásio. E linhas e agulhas para as nossas mães costurarem os detalhes das nossas roupas para dançar quadrilha, criadas a partir do que tivessem à mão, como a que minha mãe fez para nós com as cortinas da sala.

Acho que por isso, às vezes, sonho vestidos esvoaçantes e coloridos pendurados em varões, abrindo caminho para aquele vento teimoso que entra pela janela.

Na mercearia comprávamos itens essenciais para a vida de uma pessoa: em dias de criança, precisando parar de correr ao banheiro a cada minuto, nada como a maisena juntada com água e limão. Em dias mais bondosos, nossas mães colocavam uma colherzinha de açúcar na mistura, e aí o ruim até ficava gostoso.

Agora o ruim que era ruim mesmo tinha nome: Emulsão Scott! Óleo de fígado de bacalhau... Ai, nem gosto de lembrar.

Eu morria de curiosidade sobre como seria estar do lado de lá do balcão do Seu Zé. Quando ia à mercearia para comprar mortadela, apertava a caderneta no peito, tentando conter a curiosidade. O que descobri é que curiosidades como esta foram eficazes na minha infância, porque aprendi a respeitar limites e aguçar a imaginação. Naquele tempo e naquele lugar, eu era apenas a menina com a caderneta na mão, dizendo bom dia ou boa tarde ou boa noite, esperando que fossem marcados os preços do leite, do pão, dos ovos, para que voltasse para casa ainda mais curiosa do que nunca, imaginando o universo que se escondia do outro lado do balcão, ele cheio de personagens heróicos, domadores de tristezas, aprendizes da felicidade.

A mercearia ainda existe. O Seu Zé já não comanda o balcão, e vive debruçado na janela, observando a vida, talvez como eu a observava quando moleca, curiosa sobre o que haveria do outro lado do balcão: com curiosidade e zelo.

Mercearia pode ser esse lugar onde os secos e os molhados se encontram, como desertos e mares se abraçando, a estação das chuvas visitando a das secas. Os avessos que alimentam a imaginação dos que se sentam diante do óbvio e trançam sua definição em um tanto de possíveis cenários.

Minha mercearia tem cheiro de jasmim, recebe deuses, dá guarida aos sentimentos, eles que dormem nas prateleiras e nos baleiros. Nela amparo as guarnições necessárias: beijos, árias, abrandamentos. Nela educo o meu sem-tempo, enganando rugas e cabelos brancos, e segurando a mão da menina que fui só para sentir a vitalidade de quem ainda está à espera do acontecimento que mudará tudo: o olhar, o gosto, o toque. As esperas.

Minha mercearia não tem balcões, mas um salão de dança. E nem meu é... Está localizado onde nada tem dono ou lugar certo. Seu código postal são cinco estrelas seguidas por três luas. No seu sótão mora o sol, mas ele raramente está em casa. Pares de fugas dividem cama e alimento nessa mercearia. E elas dizem a quem quiser ouvir, fazendo aquele drama que lhes é peculiar, que elas sempre estarão à disposição.

Sempre achei as fugas um tanto devassas.

A palavra cai da minha boca cingindo espaço. Alarga-se, dá cambalhotas. Sorri e chora ao mesmo tempo. Saboreio os seus dramas, abarcando as lembranças de quando uma mercearia não só fazia parte da minha curiosidade, mas também era provedora das minhas sobremesas.

Na confusão das crianças debruçadas no balcão, dizendo o que queriam, ao mesmo tempo, endoidecendo o Seu Zé. Primos e irmãos e amigos... Eu sempre escolhia paçoca. E sentávamos todos na entrada do quintal, adoçando nosso dia e olhando para o armazém, pensando que, amanhã, faríamos a mesma coisa, sem a noção de que o amanhã, com toda a sua grandiosidade, mudaria não só o nosso gosto pelos doces, mas também o tempo que passaríamos assim, desfrutando a companhia do outro, sonhando o futuro, enquanto esperávamos o fim de tarde, quando a temperatura ficava agradável, e era mais divertido brincar de pique.

www.carladias.com


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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que perfeição de crônica, Carla! Desde já, um clássico. Você me fez lembrar da mercearia da D. Maria e de seus netos, com os quais eu jogava bola no final de tarde, e também da mercearia do Sobrinho, mais sortida, onde havia sorvetes tão desejados quanto quase inatingíveis. Quem diria que a menina que entrava na mercearia com a caderneta na mão se tornaria tão rica de outros cadernos e páginas, com artigos tão sortidos, capazes de maravilhar leitores de balcão, feito eu?

Marilza disse...

Carla, amei!
Senti-me levada à minha infância, também com a caderneta em mãos, no armazém do Seu João, que conhecia a todos da família.
Lembrei-me,inclusive, do acerto da contas, no final do mês, em que íamos ansiosas - minha irmã e eu - a espera de um agrado, um doce, um biscoito como recompensa.
Quanta saudade de um tempo que não volta mais.

Carla Dias disse...

Eduardo e Marilza... É muito bacana quando as nossas lembranças se misturam às de outras pessoas. Parece tudo meio cósmico, do outro mundo, mas é desse mesmo. É dessa coisa boa que a gente aprende e, com sorte, não largamos vida afora. É da capacidade de nos conectarmos com o universo do outro vivendo as nossas próprias histórias.
Obrigada por se conectarem a mim. E beijos!

albir disse...

Carla,
Sua mercearia me remeteu a um antepassado dela - o meu armazém.

Ana disse...

Carla, minha avó tinha uma mercearia... E eu achava uma delícia ficar zanzando por lá, do lado de dentro do balcão: os bastidores da venda...
Ana

Carla Dias disse...

Albir... Também conheço a arquitetura das histórias nascidas em um armazém. Ah, esses lugares que adotamos como nossos no decorrer da vida...

Ana... Você conseguiu ficar do lado de lá do balcão! Espero que tenha sido uma ótima viagem na companhia da sua avó. Obrigada por passar por aqui.