quinta-feira, 17 de junho de 2010

OH, MY DOG! >> Fernanda Pinho


Conviver em sociedade é uma tarefa árdua. Principalmente quando você sofre de algum problema que te diferencia da maioria esmagadora das pessoas. Sei o tamanho desse fardo porque convivo com isso desde que me entendo por gente. Em todas as relações que fui estabelecendo ao longo da vida, tive que trabalhar essa minha diferença, e é triste concluir que não evoluí muito. Acho que meu problema é grave. Gravíssimo. Não sei lidar com cachorros.

E não estou falando de homens de caráter duvidoso. Com esses eu aprendi a lidar muito bem. Falo mesmo dos caninos. Poodles, schnauzers, labradores, beagles, pugs, vira-latas, que sejam. Não tenho a menor destreza para interagir com eles e, normalmente, me vejo passando por situações constrangedoras por conta dessa inabilidade. Afinal, aparentemente, 99% da população gosta de cachorro e sabe muito bem o que fazer quando um deles quer cruzar com a sua perna. Me entendam! No meu caso, não é que eu não goste. Eu só não sei o que fazer quando um deles quer cruzar com a minha perna ou pular em cima de mim ou dar lambidas no meu rosto.

Com os cachorros que já me conhecem há tempos, a relação se tornou até fácil (depois de muito custo). Parece que eles, enfim, entenderam que eu não sei brincar e nem forçam amizade comigo. Mas quando é um cachorro novato, que nunca me viu, é sempre o mesmo suplício. O bichinho lá pulando em cima de mim, o dono dizendo que ele é um fofo e não morde e eu lá: sem saber onde enfiar a mão, sem saber se pulo também ou fico parada, sem saber como controlar os espirros por causa dos pêlos e, principalmente, sem saber o que dizer. Porque, sei lá, cachorros não falam. Tudo bem, eu já reparei que os outros humanos conversam com seus cachorros, em português e tudo (de preferência com vozinha infantil). Eu poderia até arriscar alguma coisa mas, tem outro problema: não tenho assunto! Sobre o que se fala com um cachorro, gente? Sobre essa vida de cão, que tá osso pra todo mundo? Não rola!

Talvez eu devesse tentar contar a eles minha primeira e única experiência canina da vida. Eu era muito pequena e meu pai apareceu lá em casa com um dobermann também muito pequeno. Ele era pretinho, tinha orelhas em pé e o rabinho cortado. Entendedores de cachorro, me desculpem se essa descrição foi redundante. Eu realmente não sei se todos os dobermanns são assim. O meu era. E eu gostava dele. Principalmente porque meu pai deixou que eu o batizasse, já que eu adorava dar nomes para todas as coisas. E eu o batizei...de Thunder Cat. Até hoje eu não entendo muito bem essa passagem da minha vida. Onde estavam meus pais, meus primos, meus tios, meus vizinhos, meus professores porque, meu Deus, ninguém me avisou que meu cachorro chamava gato! Mas Thunder Cat não devia entender inglês, pois não se abalou nem um pouco. Cresceu firme e forte, num ritmo muito mais acelerado que eu. De modo que nem eu, nem ninguém em minha casa, sabia mais como continuar interagindo com ele. Resultado: ele acabou sendo transferido para o sítio de um amigo, que era uma dessas pessoas que sabem conversar com cachorro fazendo vozinha infantil e tudo. 

Fiquei triste porque eu não sabia lidar com o Thunder Cat, mas gostava dele. E é isso o que acontece entre eu e todos os cachorros do mundo. Não sei se vocês notaram, mas é o que eu estou tentando dizer desde o início. Gosto tanto que um dia me arrisquei para salvar um deles. Foi numa avenida aqui perto de casa. Eu vinha andando pela calçada, quando avistei aquela bola branca parada no meio da rua. Era um poodle, não tive dúvidas. Afinal, é a única raça que eu sei reconhecer. Olhei para o poodle, olhei para a esquina e vi o sinal dos carros se abrir. Com aquele impulso que move os que gostam muito de cachorro (porque eu gosto!), corri para a frente dele e fiz sinal com a mão para que os carros parassem. Pararam. E eu fiz o cachorrinho caminhar até a calçada aplicando-lhe pequenos chutinhos. Cheguei em casa, orgulhosa do meu ato heróico, e liguei para minha amiga Lili (um dado para que vocês entendam porque eu liguei para Lili: ela é uma pessoa que tem seis cachorros e quinze gatos). Contei todo o caso com requinte de detalhes ao que, para minha surpresa, Lili reage cheia de indignação por eu não ter carregado o poodle no colo. Tentei argumentar que tecnicamente nem foram chutinhos. Foram, na verdade, leves cutucões com o pé. Nada feito. Ouvi da Lili um sermão sobre como lidar em caso de quase atropelamento de cachorros. Não sei se aprendi, pois o destino ainda não me colocou diante de outro teste desses.

Espero ter aprendido, pois quero ser uma boa dona para os labradores que pretendo ter um dia. Sim, queridos, eu ainda não desisti. Vou ter meus cachorros, nem que eu tenha que recorrer a um curso de adestramento de humanos.

www.blogdaferdi.blogspot.com

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11 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Fernanda... você me enganou. Pensei que tinha encontrado finalmente uma companhia, mas você, afinal, gosta de cachorro. Eu não. E continuo procurando gente que está naquele 1% que não gosta. :)

Paula disse...

Eu tbm não sei me dar com cães e nem faço questão... Assim como o rapaz que comentou acima, eu tbm estou a procura desse 1% da população!!! rs
Bjooos

Clara Braga disse...

Nossa, o meu se chamava Iky, por causa do Iky the cat, depois que meu conhecimento da língua inglesa me permitiu perceber que meu cachorro tb era um gato, nós passamos a chamá-lo de Iky the dog! haha

Laís Bastos da Silva disse...

Ferdi, gostaria de ter visto a cena dos leves cutucões...

Carla Dias disse...

Fernanda, eu já vi gente lidando desse jeitinho com crianças, com a mesma inabilidade (aka falta de vontade) em fazer a tal da voz nhucunucofufu.Acho que por isso cachorro gosta tanto de criança, não? Enfim, também não levo jeito com cachorro... Sou melhor com as crianças, mas ainda assim, ao invés da voz eu uso batucar nas panelas.

Marilza disse...

Fernanda, acho que o simples fato de gostar já é um progresso.
Cachorro entende! Entende, um olhar, um gesto, mais do que imagina a nossa vã cabecinha....rs
Eu faço parte dos 99% que amam de paixão cachorro. Aliás, amo todo e qq bicho...

Fabiana Yoko disse...

Também faço parte dos 99% dos que gosta de cão, gato, sapo, rato, porco, boi, cavalo...

Achei tão bonita a forma que expressou o seu gostar. Nem sempre quando se gosta, a pessoa sabe lidar com o sentimento ou com aquilo que gosta...

É questão de treinamento. ;)
E assim que tiver seus labradores, eles ensinarão... Ou melhor, mostrarão como eles (também) interagem com os humanos...

Beijos

albir disse...

É, Fernanda, eu também gosto de cães e sofro de absoluta incompetência para lidar com eles.

Anônimo disse...

kkkkkkkkkkkkkk ai Ferdi, adorei a crõnica do dia, pra variar vc me fez rir como sempre, ainda mais se tratando de cães, meu assunto preferido!!!
E sei bem sua falta de contato com o mundo canino, mas ate q a sandy nao eh mais dessas de pular nas pessoas agora q ela eh idosa ne,vc nem teve problemas com ela la em casa!! rs
Bjuuusss


Reyne

Debora Bottcher disse...

Olá, Fernanda, Acho que querer interagir, já é um passo importante. Já eu adoro cachorros - desde sempre. Aqui em casa tínhamos duas bassets e desde sábado temos mais uma 'senhorita': ganhamos um(a) labrador - que é um novo tesouro pra mim. Cachorro, vc um dia vai descobrir, não raro, é muito melhor que gente.
Beijo pra vc.

Jujú disse...

Ah, querida Ferdi, por isso te amo! Acho lindo o fato de vc gostar e querer aprender a lidar com eles, mesmo sem entendê-los.

E me desculpem os que disseram que não gostam...eu não confio quem não gosta de cachorro, gato, periquito, papagaio. Mais do que isso, não gosto de quem não gosta deles!

Acho que são os seres mais puros e especiais dessa terra, cheio de gente esquisita! E não é a toa que as pessoas que te cercam sempre os amam, essa a forma de Deus te mostrar que vale a pena tentar. É o amor masi puro que tem, e um dia vc terá certeza disso, amiga!

Lambidas pra ti!(rs)