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ANTES DO SONO >> Leonardo Marona

Talvez fosse preciso um longo bocejar. Admitir a aceitação mais violenta: a que diz respeito a nossa própria carne. Um tigre de papel, perdido nos lençóis da carne. Estamos sobre um pedaço enorme de coisa que não sabemos de onde veio e na verdade é um pedaço mínimo de uma outra coisa sem referência nenhuma que gira sem direção por um espaço que por sua vez não se sabe se é infinito, finito ou realmente espaço. É impossível não pensar que estamos todos perdidos, andando por aí, criando rotas dentro de algo – chamemos de algo o que não tem nome – maior e que não tem rota alguma. Mas não tenho essa pretensão. Pretensões grandiosas são as mais mesquinhas. Perguntem a Lee Oswald ou a Oswald de Andrade. Na verdade, queria falar sobre o momento imediato como no futuro do pretérito, o tempo da desesperança poética. E hoje não precisaríamos mais do tiro que explode o sangue na parede. Não haveria mais pernas gangrenadas de pico ou dólares falsificados inflamando vaginas. Estaríamos todos sob uma espécie de couraça – a mesma que no mundo real têm os muito pobres – que nos não permitiria deixar de rir da vida de forma alguma, e nos faria ver, reconhecer o moinho, e cair, levantar, ganhar rugas, mas sempre de prontidão para se levantar outra vez, cair mais uma, ter trituradas as pernas, mais uma vez bater o pó nas calças maltratadas, vestir o chapéu comido pela traça, erguer outra vez o punho leve, quebrado de fome e sede e sono, subir outra vez o inevitável peso sobre os ombros, seguir adiante, ser a natureza das coisas em movimento num espaço onde não há lugar para mais razão, porque sabemos que é preciso retornar e não há motivo para choro, então seria possível – com esse espírito agreste de onde brota uma certa volúpia humanística – viver querendo o bem esperando ingenuamente por deus que, se existe, está tão perdido ou mais do que nós, que o criamos porque sentíamos medo, porque admitimos a natureza do medo como natureza diabólica e precisávamos ter passado sem ela, mas no meu texto no futuro do pretérito de repente estaríamos todos muito leves, sentindo a flutuação dentro da qual estamos inseridos, ouvindo algo como Stormy Weather na voz de Billie Holiday, e se ela diz “vá, mesmo assim vá, sem braços, sem pernas, sem olhos, o coração em fratura exposta, sorria de alguma forma e vá!”, então acreditamos e que venha o tempo das chuvas de outros tempos, que nos deixemos encharcar por esse espírito tão antigo e renovado, por essa encarnação alienígena que paira diante de nós, nós que nos desconhecemos a nós mesmos porque precisamos conhecer o universo, mas no meu texto enxergaríamos todos em tom violáceo e teríamos belíssimos corpos e andaríamos ao léu pelas marés arriadas e chamaríamos uns aos outros nas ruas para passear e conversar e nos apaixonaríamos uns pelos outros porque seríamos tão diferentes, mas pela primeira vez cada homem, cada mulher quereriam ter sido exatamente o que vieram a ser, apenas homem, apenas mulher, e não teríamos mais ditadores de causas moribundas, nada disso existiria, mas é claro, por isso não haveria por que sentir depressão e esse é o modo mais rápido para se ficar deprimido, o não haver motivo para, então finalmente veríamos se bem ou mal diferem tanto na essência, se fomos gerados realmente por extraterrestres e o próprio tempo é uma criação de outras órbitas, assim como a água que circula por nosso corpo é o próprio corpo estranho de que falam as mais perversas ficções. E saberemos enfim se alimentamos pequenas máquinas que alimentam outras maiores e essas alimentam outras enormes e as últimas, por sua vez, alimentam máquinas incomensuráveis que no fim fazem parte de uma estrutura ainda maior de exploração da energia de um lugar feito de gases etéreos por outra concentração maior de energia que incha, incha, transborda e então lembraríamos das nossas pequenas tramóias do dia-a-dia, dos gordos que suam enforcados em suas gravatas ou algemados à cama por sórdidos seres híbridos, e pensaríamos: “que natureza é essa da qual fazemos parte?”, e não haveria resposta, é claro, pois somos a própria resposta, e o tempo se paralisaria por um instante ou dois, pensaríamos mais uma vez sem esforço no som que faz o vento forte sobre uma plantação de trigo, a visão dessa plantação de trigo nos encheria a mente com um poderoso amarelo, e estaríamos no fim desse mínimo instante ainda maravilhados, e de repente não haveria mais responsabilidades porque seríamos parte de um outro estranho, e mais uma vez mão-com-mão, braço-com-braço faria sentido porque não seria mais uma atitude revolucionária ceder o braço, dar a mão, e seríamos portanto seres simples e sem vaidades, o som do mar ao fundo enfim como um repouso para nossas almas carregadas de concreto. Um suspiro, e estaríamos além de nós.

Comentários

Gian Le Fou disse…
Um dos melhores textos que li nos últimos tempos. Parabéns!

Abraço.
Belo e potente fluxo de consciência, Léo!

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