quarta-feira, 23 de junho de 2010

LIVRO OU FILME? >> Carla Dias >>


A sua vida daria um livro? Um filme?

Um livro eu sei que a de muitas pessoas que eu conheço daria. Isso porque elas fazem questão de me dizer que a vida delas daria um livro, que eu deveria escrever sobre os revezes das suas biografias. A maioria delas fala isso de verdade, querendo mesmo que eu as entreviste e escreva um livro sobre elas, porque acreditam que são sobreviventes.

Algumas delas realmente o são. Outras ainda não sabem o que é viver uma experiência valiosa.

Eu gosto de ouvir as histórias que essas pessoas têm para contar, e acho que muitas delas dariam sim ótimos romances. Porém confesso que gosto da ideia de, se um dia decidir biografar alguém, que seja uma pessoa pela qual, antes de tudo, eu tenha me apaixonado pela história de vida. Que ouvi-la seja também uma experiência de descoberta para mim. E que assim eu possa misturar a prosa da vida dela com a poesia que ela me inspira.

Como eu já disse, eu realmente sou uma boa ouvinte, mas acho que é por invejar um pouco aqueles que vão contando tudo, despudorados que só, querendo mais que as suas palavras sejam publicadas em folhetins. É que, quando se trata do mais profundo do que sinto, da realidade das minhas escolhas, do fundamento das batalhas pessoais que travo, não consigo verbalizar. E quando tento fazê-lo, juro, parece tudo piada, mesmo sendo sério.

Sorte minha conseguir escrever histórias, inventar caras e bocas para os meus pensamentos. Nem sempre essas histórias são as melhores, as mais excitantes, mas ainda assim este é um ótimo exercício de fé, porque nem tudo é meu, nem tudo é inventado, muita coisa é emprestada. E ao me apoderar dessas situações, ou mesmo me inspirar nelas para dar vida a uma das minhas histórias, agradeço profundamente a oportunidade de tê-las conhecido.

E também conheço um e outro dos quais as vidas, certamente, dariam não apenas um livro, mas também um filme baseado nele. Pessoas tão apaixonadas pela construção das suas histórias, e tão dignas de usufruírem da loucura dos sábios. Aquelas pessoas que o fazem desejar apenas ficar por perto, pode ser em silêncio mesmo, pois a presença delas já diz tanto. Que nos pequenos gestos e cotidianos afazeres promovem uma série de mudanças a sua volta. Não são perfeitas, nem pretendem ser, são inteiras nos seus desejos.

Perguntei ao meu sobrinho, de cinco anos, o que ele gostaria de ser quando crescer. Nós, os adultos, fazemos esse tipo de pergunta para recebermos respostas graciosas, porque é bonitinho quando a criança diz que quer ser bombeiro, professor, médico, e imaginamos aquele meio metro de pessoa vestido com os respectivos uniformes. É uma fantasia de muitas crianças, das quais os adultos participam, ainda que inconscientemente. Porém, o meu sobrinho me disse, com a maior tranquilidade e certeza da sua resposta, que quer ser adolescente quando crescer. É isso... Não quer ser um adulto, ter uma profissão que encanta logo cedo. Ele quer ser adolescente, não pular etapas, apenas ser.

Talvez aí more o segredo dessas muitas pessoas que dariam livros e filmes baseados nesses livros. Elas não pulam etapas. Suas vidas são vividas na intensidade e mansidão que lhes cabe. Elas aceitam o que a vida oferece, e então transformam esses acontecimentos em cenas de uma vida que é delas e de ninguém mais. Nem dos livros, tampouco dos filmes.

Vai saber... De repente uma ou duas historias da sua vida pode dar em uma canção... Ou em canções.




Something
Composta por George Harrison para Patti Boyd




Layla
Composta por Eric Clapton para Patti Boyd



www.carladias.com.br



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5 comentários:

fernanda disse...

Adorei o texto, Carla, vivo refletindo sobre isso. Não em relação à minha vida que, por enquanto, só daria uma comédia romântica besta (o que é bom, pois eu adoro uma comédia romântica besta), mas principalmente em relação à vida das pessoas que acho mais interessantes.

Minha avó, por exemplo. Pensei tanto que resolvi parar e escrever mesmo toda a sua história, o que deu origem a um livrinho, sem fins editoriais, apenas para ser distribuido na família. Em vou te contar, foi o livro mais lindo que eu já li. Não porque eu escrevi, claro que não. Afinal, eu não tive trabalho algum. Apenas coloquei no papel uma história que já estava pronta. A mais fascinante de todas as histórias.

Acho que todo mundo deveria tentar esse exrcício de escrever sobre a história de alguém que admira muito...a gente cresce tanto...

Beijos!!!

Carla Dias disse...

Fernanda... Acho as comédias românticas bem interessantes. E as bestas costumam ser as mais divertidas : )
Achei muito bonito o que você fez com a história da sua avó. Eu escrevi um poema para a minha, falando sobre coisas que me lembravam dela, e alguns familiares tiveram essas lembranças despertadas ao ler o tal. As pessoas importantes nas nossas vidas têm de ser festejadas, não? E é sempre muito bom quando conseguimos observá-las assim, como se as assistíssemos, sem interferir no enredo.Nem que seja por algum tempo, antes de nos lançarmos à mania, que é do ser humano, de querer lapidar o que já está pronto.
Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, fiquei aqui pensando que esse é um bom termômetro de vida: se a nossa vida presente daria uma livro, ou um filme, então a gente está realmente vivendo.

albir disse...

Carla,
sorte sua conseguir escrever histórias. E sorte nossa poder lê-las.

Carla Dias disse...

Eduardo... Verdade. Mas também depende do que consideramos um bom livro e um bom filme. Acho que até em uma boa canção podemos dar... Podemos dar em uma ótima estrela distraída.

Albir... Não sei se é sorte minha escrever histórias, mas fato é que não sei viver sem fazê-lo. Sorte minha é ter quem as leia... Obrigada por isso!