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FIM DO RECREIO >> Fernanda Pinho


Eu estava na quarta série e estudava num colégio de freiras. Eu adorava estudar naquela escola, tanto que fui muito feliz ali durante onze anos. Era a escola perfeita, não fosse por um detalhe: a supervisora. Ela não era freira, mas era temida. E parecia gostar disso. Prezava pelos, ditos, bons costumes, muito mais que as próprias freiras que, raramente, incomodavam aos alunos com alguma advertência esdrúxula.

Já a supervisora, certou dia, adentrou minha sala da quarta série e, sem mais nem menos, nos aplicou uma penalidade: uma semana sem recreio! Susto, murmúrios, burburinhos e vontade de chorar (não era pra menos: quando você está na quarta série a pior coisa que pode acontecer na sua vida é ficar sem recreio). Até algum aluno, mais valente, ter coragem de exteriorizar a aflição de todos, embora a voz quase não tenha saído: "Mas por quê?".

A penalidade não parecia fazer sentido algum e o motivo menos ainda: "Para que vocês aprendam a se respeitar e nunca mais fiquem em posição de acasalamento de animais, no meio da quadra". Sim, gente, ela falou exatamente assim. Ainda sou capaz de ouvir sua voz emitindo cada uma dessas palavras que, para nós, soou como uma frase dita num idioma estrangeiro. Ninguém entendeu nada. Quando a insensível supervisora se retirou da sala, a professora, que parecia estar a par do assunto, tratou de esclarecer.

Aquilo a que ela chamava de "posição de acasalamento de animais" era o que nós chamávamos de "estrear toco novo", uma brincadeira mais conhecida em outros lugares do Brasil como "pular carniça". Aparentemente, ficar agachados, e em fila, era errado, sujo e feio. Proibido, enfim. Eu e meus amigos só não entendíamos o que poderia haver de errado naquilo. Embora os fatos tenham sido parcialmente esclarecidos, uma dúvida cruel ainda martelava em nossas cabecinhas: "Afinal, o que é acasalamento?".

Ninguém sabia e ninguém queria perguntar para um adulto. Se eu perdi uma semana de recreio por ficar em posição de acasalamento, certamente não deveria ser algo que minha mãe gostaria de saber. Fiquei remoendo a questão até que, num santo dia, assisti a um episódio de Família Dinossauro que falava sobre a dança do acasalamento entre os seres jurássicos. Pronto! Que alívio! Tudo estava esclarecido: acasalamento era uma dança de dinossauros!

Levei a novidade para minhas amigas mas, peraí, qual é o problema de fazer dança de dinossauros no recreio? Droga! A dúvida não apenas ainda estava lá como estava se tornando um monstrinho cada vez maior.

A semana passou, voltamos a ter recreio e coloquei o monstrinho para dormir. Com a suspensão da nossa brincadeira preferida, arrumamos outra que tinha o simpático nome de "açougue". Formávamos um túnel humano e, um de cada vez, deveria passar pelo túnel correndo, levando socos e pontapés dos colegas. O irônico é que brincar de "açougue" podia. Mas "estrear toco novo", de jeito nenhum.

Só alguns anos depois, quando eu já estava no ginásio, é que minha ficha do acasalamento, finalmente, caiu. Não fiquei feliz nem aliviada com o esclarecimento da dúvida de tanto tempo. Pelo contrário, fiquei triste e angustiada. Era como se eu estivesse rompendo, definitivamente, com aquela fase em que ficar de quatro no meio da quadra significava apenas ficar de quatro no meio da quadra.

No dia em que eu descobri o que era acasalamento, eu passei a fazer parte de um mundo onde existia medo, vergonha, maldade, imoralidade e indecência. A dúvida, aquele monstrinho, foi embora e levou junto a minha criança.


www.blogdaferdi.blogspot.com

Comentários

Mas também tem o lado bom de saber o que é acasalamento, né? :)
Samara disse…
Por isso que eu falo que não se deve mentir ou omitir demais das crianças, pequenas coisas se tornam enormes. E eu adorava essa brincadeira, mas aqui tinha um terceiro nome que não lembro mais. Certo que a maioria das crianças de hoje em dia nem são mais tão inocentes assim de achar que ficar de quatro no meio da quadra é apenas ficar de quatro no meio da quadra, infelizmente. E, claro, isso é culpa dos adultos, esses sim veem maldade em tudo.
Fabiana Yoko disse…
"A maldade está nos olhos de quem vê..." Era assim que a minha avó falava quando a gente brincava dessa mesma brincadeira e as minhas vizinhas achavam um absurdo....
Isa Bela : D disse…
oi fernanda!
meu nome é isabela..e fiz um blog que tambem exponho minhas côrnicas.
Você escreve muito bem parabens !
Se puderes dá uma passadinha lá!
aí eu viro sua seguidora e vice versa!
beijão
Este comentário foi removido pelo autor.
Para você ver como algumas pessoas podem ser maliciosas e crueis com as crianças. Já vivi muita coisa interessante ao lado de crianças, como criança nem tanto, pois eu era uma tonta, não gostava de recreio, tinha pavor daquele povo correndo e gritando, inclusive chorava. Mas quando fui trabalhar com crianças, vi um mundo diferente, sem preconceitos, sem moralismos. Crianças devolvem a sensibilidade - ou aumentam- de qualquer ser humano. Ser eternamente criança, acho que é um desejo de muitos, porque perder essa inocência é perder grande parte do que vale a pena na vida!
Ana Coutinho disse…
Eu adoro tudo o que você escreve.
Nunca consigo parar de ler sem terminar...
Tipo criança brincando, sabe?
:)
beijos
Kika
albir disse…
Pois é, Fernanda, a Santa Inquisição não acabou. Consideradas as devidas proporções, castigo de uma semana sem recreio para crianças, pelo pecado de brincar, não está longe da fogueira para outros pecados.
Jujú disse…
Eu sou igual a Kika...como é bom ler o que vc escreve, quando acaba dá até tristeza...rs!

O que vc escreveu é só uma prova que na maioria das vezes a maldade está na cabeça dos adultos, que vê sujeira em tudo!

E isso me faz pensar que ainda bem que eu continuo vendo muitas coisas com olhos infantis....Mas quando o lado adulto bate forte e eu me pego sendo "adulta" dá um bodinho....rs!

Beijos!

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