sábado, 26 de junho de 2010

ABRAÇAR [Maria Rita Lemos]

A senhora, sentada à minha frente, estava visivelmente tensa.

Era uma pessoa de meia-idade, com problemas muito sérios de relacionamento, envolvendo o marido, filhos e filhas. Aliás, esses eram as primeiras vítimas de seu problema, que poderia até ser diagnosticado como distimia (uma espécie de mau humor crônico), mas não eram as únicas pessoas que sofriam com os distúrbios dessa senhora, que chamarei de dona Maria. Sendo professora, como era, dá para perceber que os pequenos (ela dá aulas no primeiro grau) também recebiam os respingos de sua forma de ser e atuar no mundo.

O sol da manhã batia em meu rosto, portanto levantei-me para cerrar um pouco a persiana. Fazendo esse movimento, toquei em seu ombro, sem querer, e a reação foi muito forte: ela emitiu um movimento, involuntário mas visível, um gesto brusco de sobressalto e até de certa repulsa, pelo simples fato de minha mão ter tocado em seu ombro, por fração de segundos.

Percebi – e apontei isso a ela – que dona Maria não gostava de ser tocada. Quase chorando, ela confirmou, e disse que era essa uma das dificuldades que tinha em amar e receber amor, ao menos fisicamente falando. Não importava o sexo de quem a tocasse, ou a cumprimentasse com um beijo ou abraço, dona Maria sentia repulsa e repelia manifestações físicas de afeto.

Nossa capacidade de dar e receber carinho está diretamente relacionada aos modelos afetivos que tivemos na infância. Aprendemos a abraçar quando somos abraçados, aprendemos a repelir abraços quando somos repelidos. O medo de tocar alguém está em linha direta com as vivências afetivas e/ou sexuais indesejáveis, mesmo que inconscientes. Para essas pessoas, com o perfil de dona Maria, que na infância tinha também severos traumas sexuais, qualquer contato físico pode ter conotação erótica. Em nossa sociedade, infelizmente, os toques que são dados nas crianças consistem, muitas vezes, em puxar, empurrar, conduzir ou, muito pior, bater.

Entre adultos, mesmo que sejam amigos, os toques físicos são também pesados e medidos: apertos de mão duram poucos segundos, beijos não envolvem pele e boca, muito menos olhares: limitam-se a muxoxos simultâneos no roçar de bochechas, quando mais rapidamente melhor. Os homens, quanto muito emocionados (em enterros, casamentos e aniversários), capricham em “espancar as costas”... quanto mais tapas, e mais ruidosos, acreditam que estão expressando mais ainda seus sentimentos. Pobre ser humano, quanta coisa para mudar, ainda, quantos grilhões ainda nos retêm prisioneiros!

Quando alguém “ousa” chegar mais perto, abraçar mais longa ou apertadamente, ou solta a alma na carícia das mãos, no mínimo será tachado como excêntrico, para não usar outros adjetivos. Até mesmo a sexualidade, infelizmente, vem sendo apartada do afeto e dos vínculos. Sem amor, sem laços, o sexo fica sem graça, insosso, sem brilho. Vazio.

Em reciclagens que fazemos periodicamente em análise transacional e terapias corporais, temos que vivenciar diversos exercícios de toques, massagens, dar e receber afeto, sem qualquer conotação erótica (inclusive os pares ou casais são separados para essas atividades). Estamos tão presos aos nossos (pré)conceitos que mesmo psicólogos mais experimentados a princípio sentem-se tímidos e constrangidos, e reagimos retesando o corpo ou rindo, quando o exercício consta em tocar lentamente o rosto de um(a) colega, dar ou receber seu “colinho” como se fôssemos bebês outra vez, ou simplesmente olhar para o outro, profundamente, tentando enxergar a alma. Tudo é feito lentamente, sem pressa, com a intenção de experimentar o prazer do calor humano, quebrar barreiras e aprender a dar e receber mais naturalmente. Só treinando percebemos o quanto somos rígidos, o quando nossa cultura nos endureceu, por fora e por dentro, o quanto aprisionamos o que temos de melhor para dar.

Fazer contato físico com as pessoas é, talvez, a mais rica e eloquente das comunicações humanas. No entanto, somos todos subnutridos dessa forma maior de doar-nos. Quer um exemplo, aqui e agora? Pare essa leitura e abrace, agora mesmo, onde estiver, a primeira pessoa que encontrar, dizendo apenas que ela é importante, insusbstituível. Se estiver perto de alguém amado(a), não esqueça de dizer desse amor. Poderá ser chamado de louco ou olhado como se fosse, mas aos poucos sentirá que vale a pena começar a mudar essa história.

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4 comentários:

pensandoemfamilia disse...

Olá

Já me acostumei, vez por outra , a vir ler as crônicas do blog. Gostei muito da forma como este artigo fala sobre o toque e da aprendizagem vivencial.
Aços

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Brigadim por nos lembrar dessas coisas tão importantes, Maria Rita.

Anônimo disse...

Eduardo, estou com uma crônica para mandar e não estou achando o local... me ajuda? Desculpe a desinformática!
Maria Rita

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, Maria Rita.
Respondi para o seu e-mail antigo (não sei se você ainda o usa).
Caso não receba minha mensagem, me escreva no eduardoARROBApatio.com.br