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Mostrando postagens de Novembro, 2011

JÁ FOI, NÃO VIU? >> Carla Dias >>

Imaginou-se em tantos lugares, quando imaginar ainda era trampolim para as realizações que almejava. Imaginar era dar forma ao que encontraria, e em breve, caso tivesse sorte. Imaginou-se longe, geograficamente distante dos lugares que lhe pareciam comuns e esgotados de atrativos.

Nos seus devaneios, haveria sempre a novidade para pincelar alegrias em dias cinza e para corar as faces pálidas da mesmice. O mundo, muito bem entendido com o futuro, prometia-lhe uma gama de grandes acontecimentos. Nada ostentoso, apenas novo e diverso, e indiscreto, como se a festa começasse sem direito ao fim.

Imaginou-se realizando projetos, intervindo a favor dos menos privilegiados, incorporando ao seu currículo a faceta humanista que sempre lhe coube tão bem. Em breve, viraria o mundo ao avesso, e neste avesso ajudaria a muitos a se tornarem, como ela, pessoas dignas de receberem o melhor da vida.

Enquanto pensava a vida que teria, anotava tudo, e nesta lista, no topo dela, estava o desejo por ter algué…

RITUAIS >> Clara Braga

Eis que estamos chegando naquela época do ano em que ninguém acredita em Papai Noel, nem mesmo as crianças, mas todos se tornam “bons garotos” na espera da chegada do velhinho e do novo próspero ano. E é ainda a época que representa o início dos rituais, o ritual da limpeza e o ritual da lista.

Para quem acha que não sabe do que eu estou falando, vou explicar por ordem. O primeiro ritual que acontece, que é onde entram os “bons garotos”, é o da limpeza, e normalmente se dá antes do Natal. Ele acontece da seguinte forma: nós, pensando nos presentes que vamos ganhar e nas novas roupas que sempre queremos comprar para usarmos nas comemorações, precisamos antes abrir espaço no nosso armário, e como fazemos isso? Nos livrando daquela enorme quantidade de roupa acumulada durante o ano todo que nem nos serve mais, daqueles utensílios seminovos que temos, mas que para nós já não presta. Tirando da estante aqueles livros que ganhamos e que já tínhamos lido, mas que não tivemos tempo de passar …

MÃE DE DUAS >> Kika Coutinho

Estamos brincando de esconde-esconde, é a vez dela. Quase chegando aos dois anos Sofia já fala tudo e não hesita em me avisar: “Vou esconder mamãe.” Vai filha, respondo, vai que a mamãe vai te achar.

Ela corre pelo corredor, toda alegre, e entra no meu quarto. Quando decido ir procurá-la, escuto o choro da caçula, minha bebezinha que grita no berço. Vou ver o que é. Xii, coco. Nossa, quanto coco Olivia, vazou tudo, eu penso, levantando-a. Ela grita mais. O lençol está sujo, a roupinha molhada, até o travesseiro? Olivia, que coisa, como você é ninja, vou sussurando enquanto levo-a para o trocador. Ai, tá sem algodão. Caminho para o armário, acho um pacote, é o último, preciso anotar para comprar mais. Deito a minha bichinha sobre a cômoda, tiro a fralda, nossa, que confusão, acho melhor dar um banho. Volto para deixá-la no berço enquanto corro para o banheiro para esquentar a água. Chamo a babá, é mesmo, tenho babá. Nete, ajuda aqui, tempera a água por favor? Ela vai temperando e volto…

A BANDA >> Whisner Fraga

Nós nos sentávamos no banco, ali na esquina da rua 14, quase todos os dias. Ou todos os dias, se fosse o caso. Só para conversar, porque não havia muito o que um adolescente pudesse fazer num início de tarde em uma minúscula cidade no interior mineiro. Eu andava um quarteirão e meio para chegar à casa do meu amigo e sempre tentava aproveitar as tiras de sombra que as velhas casas estendiam pelo caminho. Os quarenta graus queriam cozinhar tudo o que encontravam pela frente e mesmo assim eu vestia calças compridas, pois tinha vergonha de minhas pernas brancas. Era irônico ser tão claro em uma cidade de gente bronzeada.

O banquinho de madeira na esquina da 14 estava mascado por nossas unhas ansiosas. Havia tanto a tratar, tanta conversa para colocar em dia, tanta banda para descobrir no meio daquela hora e meia de falta de assunto, que era sempre bom nos refrescarmos com um sorvete. Como eu nunca tinha dinheiro, porque não ganhava mesada e era estudante full time, só me restavam duas op…

NEUROSES NOSSAS DE CADA DIA [Ana Gonzalez]

O assunto de proibição ao cigarro voltou à baila com a lei federal que proíbe o cigarro em todo o Brasil. Por aqui, as pessoas já não reclamam tanto, cansaram e se adaptaram à situação. No começo era um vozerio em torno da liberdade de as pessoas fumarem. Até onde pode ir a ingerência do governo sobre nossas vidas? Enfim, tudo se acomoda e as coisas se assentarão também pelo bem da saúde da família brasileira.

Mas, a minha questão não é com o cigarro, mas com as bitucas. Andando por ruas e calçadas, elas estão por aí, à nossa volta. Amassadas, espatifadas, desperdiçadas, apertadas. Cigarros meio inteiros, meio fumados. Para onde olharmos, lá estarão, pois é hábito jogar no chão. Por que não?

Muito desagradável. Me incomoda. Na verdade, fico muito brava. Fico enraivecida. Colérica. É isso. Cheguei ao ponto. Não há o que fazer e isso é mal. Fico mobilizada à explosão quando vejo que a s pessoas não se apercebem de que a rua é domínio público e não o lixo de suas casas, de suas vidas priva…

BALADA IMPERDOÁVEL >> Leonardo Marona

somos o que podemos ser e não podemos
tempos fechaduras para a chave do medo
asfixiados os corações pelas artérias azuis
correntes literárias em bicicletas mujiques
a palavra prêmio virá do impossível passo
nosso pódio será idílio de anões circenses
taxistas falam nossa doença a vinte pratas
o torcicolo de deus inaugura a paz humana
as impossibilidades fazem crescer os cílios
o amanhã pertence a latas e trilhas extintas
pintaremos quadros com sorrisos de baleia
latem cães na madrugada de meus líquidos
escorrem édipos pelas ventosas do silêncio
tumores desabrocham no ouvido do suspiro
o livro da consciência gera o pelo da fome
roubaram da Terra a sua caixa de temperos
as têmporas embrulham o tifo da vontade
coleciono guimbas no chão de minh’alma.

escorre um western dos meus cotovelos
vejo passar a sorte com cachecol e bafo
sentidos enfraquecem a solução do ânus
penso em ti com tentáculos em febre alta
somos lilases dentro dos olhos da falácia
carinhos sempiternos são apenas difíceis
resta tempo para que não r…

VOCÊ CONHECE ALGUÉM ASSIM >> Zoraya Cesar

Ser madrinha de casamento da melhor amiga é uma honra, certo? Motivo de orgulho, diriam muitos. Mas não Irene, que sentiu um espinho na alma, mais um de uma longa série que aquela amizade lhe cravava. Não tendo namorado ou amigo próximo, seria a única madrinha a ir sozinha. A amiga sabia disso, convidou de propósito, pensou, ela sempre dá um jeito de eu me sentir deslocada.
A tal amiga, desde adolescentes, levava Irene para todos os lugares. Aos finais de semana, iam para o clube, caríssimo, do qual ela, remediada, jamais poderia ser sócia. Aproveitavam a piscina enorme, a sala de cinema, as quadras de esportes, o salão de jogos que mais parecia uma vila olímpica. Depois, geralmente a amiga a convidava para dormir em sua casa, onde só o quarto era maior que a sala do apartamento de Irene. Que, remoía-se por dentro, chamando a amiga de soberba e exibida, mas jamais deixando de aceitar os convites, irresistivelmente atraída pelo luxo e pela oportunidade de mostrar a todos o quanto era p…

MINHA ÚNICA ESPERANÇA >> Fernanda Pinho

Naquela época, 90% das meninas queriam ser paquita. Eu fazia parte dos outros 10% que queriam ser a Xuxa mesmo. Andava pra todo lado com um microfone na mão, maria-chiquinha nos cabelos e botas. Era uma das minhas obsessões. A outra era o desejo de ter um irmão ou irmã, não importava. Não queria ser filha única e não parava de importunar minha mãe quanto a isso. “Mãe, por que a Karina, a Marina e a Sabrina tem irmãs?”. “Porque elas são irmãs umas das outras”. “Então, eu quero ser irmã de alguém também!”. Como eu nunca fui de pedir muita coisa, meus pais acabaram cedendo e veio a gravidez. Fiquei encantada pela barriga da minha mãe. Durante aqueles meses de espera, o que eu mais amava na vida era ficar alisando a barriga e dizendo: “Ai, bebê, você é minha única esperança”. Sei lá o que eu queria dizer com isso, mas virou até bordão familiar.
E então, no final de novembro de 1988, minha única esperança veio ao mundo. Era uma menina. Enorme, saudável, linda, loira e com olhos azuis. Op…

HUMOR >> Carla Dias >>

Minhas irmãs são muito criativas no bate-papo. Quando me encontro com elas, normalmente uma a cada vez, pois não moramos próximas, as conversas acabam sempre descambando para o imaginário. E tudo regado a muito café. O mesmo acontece com algumas primas e tias. Chego a pensar que, essa família enorme e repleta de mulheres é regida pelo humor dos que aprenderam a superar obstáculos, pois haja obstáculos... E humor.

Não dizem que sorrir faz bem para a alma?

Independente do conteúdo do sorriso?

O meu humor não é dos mais leves, mas há dias em que consigo arrancar gargalhadas dos meus sobrinhos simplesmente pegando um acontecimento adulto e chato e o enxergando com olhar infante. Tombos cruciais na idade adulta se transformam em um escorregão ao pisar na casca de banana que o fulaninho jogou no chão. E a descrição visual desse balé-escorregão é sempre motivo para os pequenos rolarem de rir.

Fácil, não?

Mas quando no cenário adulto, esse lugarzinho ao qual pertenço, a coisa é bem diferente. O me…

A SAGA DA FONOAUDIÓLOGA >> Clara Braga

Tenho certeza que já comentei por aqui as minhas nada boas lembranças a respeito da minha infância. Não que ela tenha sido mal aproveitada, ruim ou qualquer coisa do tipo, só não conheço uma pessoa que consiga me falar algo de bom em relação a mim quando era criança, principalmente minha família.

Quando o assunto surge é sempre a mesma coisa, sempre falam apenas o quanto eu era emburrada, chata, birrenta, entre outras coisas que eu prefiro não entrar muito afundo para não passar uma visão ainda mais ruim sobre mim para quem está me lendo nesse momento.

Outro dia, enquanto conversava com minha mãe e uma amiga minha, o assunto dislexia acabou surgindo. Não me lembro como surgiu, mas posso garantir que não fui eu quem puxou o assunto, já que dislexia é um tópico que sempre aparece junto com relatórios a respeito dos seis longos anos que eu passei na fonoaudióloga enquanto criança.

Anos sofridos esses, principalmente para uma criança que não sabe o que é dislexia e muito menos como pronunci…

VIVI DOS PALMARES >> Albir José Inácio da Silva

- Hidratação e massagem – disse Viviane.

Com muito catálogo e pouco argumento o cabeleireiro insistiu, apregoando os milagres que sabia fazer:

- Por que não um relaxamento? Não é alisar, é só alargar os cachos, as mechas, as... as...

- ... as molinhas – completou Viviane, rindo e lembrando das humilhações de toda uma vida.

E como doíam! Em casa as coisas não eram melhores: “Fulaninha tem um cabelo tão bom que nem segura grampo”, diziam da filha da vizinha. Cabelo bom e cabelo ruim, essa a lógica. O dela era ruim.

Mas não era só o cabelo. Olhos lindos eram olhos “como o céu” ou “como o mar”. Quanta inveja! Os dela eram apenas olhos, “que às vezes enxergavam demais”, ralhavam os adultos.

Quantas vezes se sonhou loirinha e de olhos azuis? Pela manhã o espelho a mandava pra escola com dor no coração. E era lá que a dor aumentava.

- Suas molinhas estão caindo no caderno – riam todos. Riam até os de cabelo “ruim”, espantava-se Vivi.

Dos colegas ouvia também explicações, que diziam bíblicas, para …

AS ROSAS NO ESCURO [Ana González]

Fotografar é exercício de paciência e tempo. É fazer muitas fotos para depois ver o que foi captado nas imagens. Surpresas à espera.

Dessa vez as flores ficaram no escuro e sem muita claridade. Um efeito diferente. Em geral, prefiro mais contraste entre luz e sombras. Mas, nessas fotos de rosas há uma luz especial e sombras, muitas sombras. Estou falando por repetições, tentando explicar. Está quase impossível.

Tudo meio escuro, com as cores quentes das rosas em sutil presença. Em um pequeno vaso, elas não são muitas. Talvez umas cinco ou seis em tom de laranja, um quase rosa, alaranjado. Uma cor indefinível e o resto, à volta delas na penumbra, com um pedaço de espaldar de uma cadeira ao fundo. O vaso sobre uma mesa de que não se vê muito.

Mas havia sim, uma luz sobre elas, delicada, noturna. É a primeira foto que me sugere a noite assim descaradamente. Um resultado assim, uma noite com luz de lua.

Todo o resto por ser adivinhado. A parede da sala no fundo. Os pés da mesa? E ao olhar…

AS BONECAS >> Fernanda Pinho

Sete minutos. Eu estava naquele corredor encarando o cartaz com a foto de uma enfermeira fazendo sinal de silêncio há apenas sete minutos. Mas a sensação que eu tinha era a de que toda a minha vida havia passado mais depressa que aqueles míseros sete minutos. Não tinha, aliás, transcorrido nem meia hora desde que vi minha Carolina cair desmaiada no chão, após chocar-se com sua bicicleta contra o muro de concreto de nossa garagem. Minutos depois, eu e Hugo adentramos por aquele hospital com nossa filha ensanguentada, e ainda desacordada, nos braços. Imediatamente após nossa chegada, Carol foi levada por enfermeiras para o bloco cirúrgico e a mim não restava mais nada a não ser tentar encontrar algum resquício de fé e suplicar a qualquer força superior que não me tirasse a minha filhinha. Não era justo, admissível, nem ao menos natural que algo de errado acontecesse a ela, com apenas seis anos.

    Seis anos. A mesma idade que tinha a outra Carolina, quando nos conhecemos. A Carolina d…

SONHO RECORRENTE >> Carla Dias >>

Eu tenho um sonho recorrente. Você também tem?

Meu sonho recorrente parece novela, por isso os atores mudam de figurino, vez ou outra, assim como de cenário, mas não saem do tema, não trocam de trajetória. Ele se desenrola e não liga de durar muito, mas então vem a pegadinha. É justamente um pouquinho antes do desfecho que eu acordo.

Meu sonho recorrente não tem fim. Neste ponto, não parece em nada com novela.

Acho que ele acompanha o progresso, porque teve a versão vintage, quando as ruas pelas quais eu tinha de caminhar, durante horas, pareciam as de mil novecentos e nada. E aconteceu o dia em que ele assumiu um quê Matrix, com prédios altíssimos e espelhados, quase tudo preto ou metálico.

Tenho certeza de que o meu sonho recorrente tem seus momentos bipolares.

O momento Stephen King do meu sonho recorrente esta na cena 432 – exterior, noite... noite bem, bem escura - avenida desconhecida. Ação: personagem corre, e muito! Se na minha realidade eu caminho tão pouco, neste sonho eu pareço …

AH, OS TROCADILHOS... >> Clara Braga

Dia quente, sol forte, um calor terrível e tudo que eu mais queria era ficar em casa embaixo do ventilador, tomando uma coca cola super gelada com bastante gelo dentro enquanto meu cérebro vai derretendo aos poucos! Mas... como murphy existe, é claro que não vai dar. Vou ter que ir na faculdade resolver problemas de matícula... Tudo bem, pior não vai ficar. É só eu sair, resolver tudo rapidinho e voltar pro conforto do meu ventilador.

Logo ao sair descubro que o elevador está quebrado, maldita hora que fui dizer que não tinha como ficar pior. Mas tudo bem, a verdade é que ninguém nunca morreu por causa de 4 andares de escadas (pelo menos não que eu saiba), e eu estou mesmo precisando me exercitar. E é como todo mundo diz, para baixo todo santo ajuda, o lance agora é rezar para que na volta o elevador já tenha voltado a funcionar.

Chego ao carro que, diga-se de passagem, não tem ar condicionado e estava no sol, já que meu prédio não tem garagem, e então entro. Em uma tentativa desesperad…

CARTA A UMA GRÁVIDA >> Kika Coutinho

Querida amiga,

Desde que soube da sua gravidez, não consigo tirar da memória uma lembrança infantil, que é das mais emocionantes entre todas as que tenho.

Era Natal nos anos 80, eu tinha qualquer coisa entre 4 e 7 anos e estava com duas maria-chiquinhas no cabelo e uma camiseta vermelha. Quando a campainha tocou, corri atrás da minha mãe para abrir porta e, transbordando de alegria, assisti a minha madrinha chegar em casa, carregando um enorme presente embrulhado em papel vermelho e fita dourada. Era meu. Eu sabia que era meu, mesmo sem que ninguém me dissesse nada. Senti como que um calor por dentro, um quentinho acollhedor, tão imensamente delicioso, que não pude conter o riso. A alegria transbordava feito água que estoura uma represa.

Me entregaram o pacote e em um instante, um pequeno instante enquanto eu desfazia o laço de fita, essa sensação se prolongava um pouco mais. Ao meu redor, toda a família e a melhor amiga. Era o universo todo assistindo ao meu ideal de felicidade.

T…

O PRIMEIRO DIA >> Whisner Fraga

Há nove meses ela estava conosco e, desde que soubemos que Ana estava grávida, tratávamos Helena por filha, mas foi somente quando a criança deixou o útero e finalmente pudemos ver seu rosto que nos tornamos pais para a sociedade. Não prestei muita atenção ao parto, pois havia uma ordem de minha esposa: não deixe a menina sozinha. Não deixei enquanto não colocaram a identificação em seu pulso. Senti-me como aqueles engraçadinhos que andam atrás das pessoas repetindo todos os movimentos que elas fazem. Sombra, isso mesmo, sombra. Mas quando a gente se vê em um hospital em que as pessoas mais importantes em nossa vida são apalpadas como frangos na feira de domingo, perdemos a vergonha e tratamos de incomodar.
Mais tarde éramos eu, Ana e Helena e uma noite inteira nos assombrando. Ouvimos muitas histórias, não só de amigos, mas também de repórteres, na televisão; de locutores, nas rádios; e também de outros profissionais. Um contava sobre uma criança que havia falecido na madrugada de s…

PASSEIO MOLHADO. ENCHARCADO. DE ÍNDIO >> Zoraya Cesar

Ninguém, em sã consciência, ou mesmo em malsã, pode afirmar, com todas as letras, “nessa roubada não entrarei”. Por mais que você planeje, prepare e tempere seu programa, tudo sempre pode dar errado.

Roberto, por exemplo, nosso amigo de hoje. Ele planejou cuidadosamente a excursão a um desses parques infantis que ficam em São Paulo, levando a esposa, a enteada e uma amiguinha, garantindo ter tudo sob controle. Como qualquer cientista sabe, basta dizer isso, e toda a energia do universo se une para provar o contrário. Não é superstição, é fato. Pois bem, vamos aos fatos.

Um dia antes da viagem, hotel reservado (o mais próximo do parque, a duas horas de viagem), ingressos comprados, brinquedos escolhidos, o site do tempo resolveu contar a verdade e, contrariando as previsões feitas até então, revelou que nos próximos dias ia chover. Muito. Tudo bem, disse Roberto, é só um pequeno contratempo, sem trocadilhos. E foram assim mesmo.

No caminho para o hotel, o motorista foi logo dizendo, …

COLEÇÃO DE CHEIROS >> Fernanda Pinho

Cheiro de Sundown me lembra praia. Mas não é apenas um flash rápido na memória. É uma lembrança muito intensa. Quando eu estava na faculdade e, durante algum tempo que não durou quase nada, cismei que andaria com protetor solar na bolsa, eu abria o tubo durante a aula, fechava os olhos e podia até ouvir o ruído das ondas quebrando e dos ambulantes gritando. Alheia às teorias da comunicação, eu era transportada.

Como o cheiro do perfume Absinto me transporta às tardes de domingo da minha infância, quando eu me sentava no sofá, esperando minha mãe ficar pronta para irmos à missa. Ela sempre saía do banho com aquele cheiro, mas dizia que era perfume de adulto. Eu que me satisfizesse com as minhas colônias de moranguinho.

De acompanhar minha mãe à igreja, também passei a associar o cheiro de alecrim às procissões de Domingo de Ramos. E o cheiro enjoativo de cocada e maçã do amor à Sexta-Feira da Paixão, quando eram montadas barracas de doces na porta da igreja. Aliás, eu posso culpar um ch…

INVENTÁRIO DO INDIZÍVEL >> Carla Dias >>

Tem gente que diz tudo de uma só vez, aos atropelos, sem ritmo ou preocupação a respeito de aonde esse dizer o levará. Como se fosse necessário expurgar os pensamentos, antes de voltar ao ponto em que se sente em paz... Nem que seja brevemente.

Sente um tanto de inveja dessas pessoas que conseguem alívio ao expor tudo o que sentem.

Para ele, o indizível é companheiro, como quando desejou, de um jeito forte de tudo, aquele presente, e não teve coragem de pedi-lo aos pais. Acabou ganhando algo muito mais pomposo de aniversário, e não conseguiu se sentir feliz, porque a felicidade ficou presa naquele toca discos antigo, capaz de acarinhar LPs como se contasse histórias, que fazia a música arranhar as paredes da mesmice.

Panfletários sempre discutem a importância de se dizer prioridades para que elas sejam respeitadas, para que tenhamos voz própria como indivíduos e membros da sociedade. Porém, ele não compreende muito bem como a necessidade de muitos pode sustentar a boa vida de tantos. A p…

A CRÔNICA DO LANÇAMENTO >> Clara Braga

“A missão da crônica sobre o lançamento é sua, Clara”. Tenho quase certeza de que essas não foram as palavras exatas que o Eduardo falou ao se despedir de mim ao final do lançamento do livro ACABA NÃO, MUNDO aqui em Brasília, mas o sentido foi exatamente esse.

Na hora em que ouvi essa frase, devo confessar, ainda estava no clima de comemoração do momento e acabei nem dando muita atenção. Afinal, o que além de foi uma noite maravilhosa, com várias surpresas e da qual eu sempre vou me lembrar com muito carinho eu poderia dizer sobre o momento?

Saí dali e ainda fui continuar a comemoração com meus amigos. No dia seguinte, vendo as fotos que já estavam na internet, revivi aquele momento com gostinho de quero mais e desde então me pego pensando no que escrever a respeito daquela noite.

Posso escrever uma crônica sobre as pessoas que eu não esperava que fossem e acabaram aparecendo lá, de surpresa, e me deixaram com aquela cara besta que a gente faz quando vê alguém que a gente gosta muito,…

LETRAS E DEVANEIOS
>> Albir José Inácio da Silva

Pergunta recorrente que nunca consegui responder nem pra mim mesmo. Quando comecei a escrever? De onde vêm as palavras que me dão as mãos para celebrar idéias e contar histórias?

Procurei nas aulas primeiras, no tremor do lápis que juntava letras em sílabas e sílabas em palavras. Palavras copiadas, mas não sentidas; frases repetidas, mas não imaginadas. Não, não estava aí o meu texto.

Não estava no sofrimento das redações a serem corrigidas por alguém que encontraria muitos erros. Nem quando parei de sofrer e até gostei de colocar no papel algumas sequências de palavras.

Depois me vi recebendo elogios por composições bem elaboradas e fiquei satisfeito com os resultados. Mas suspeito que gostava dos elogios, não de escrever. Embora festivo, esse momento também não serve de começo.

Nos trabalhos acadêmicos usei o método, a precisão e a feiúra, mas a minha escrita ainda não estava lá.

Finalmente chego num tempo em que já escrevo. Tudo começa num devaneio, às vezes involuntário, mas que…

DESEJOS BUROCRÁTICOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

— Pois não, senhor, em que posso atendê-lo?

— Preciso de uma autorização.

— Pode falar.

— Aliás, uma não, várias.

— Aí complica.

— Tenho direito a quantas autorizações?

— Depende... o que o senhor deseja?

— Pequenas coisas sem importância.

— Costumam ser as mais difíceis.

— Mas têm muita importância pra mim.

— Não tenho o dia todo, senhor...

— Claro, claro, desculpe. Eu gostaria de ser feliz.

— Isso é o que o senhor chama de coisa sem importância?

— Felicidadezinha boba, pequenos prazeres...

— Só posso ajudar quando souber do que se trata.

— Posso tirar meleca do nariz?

— Aqui?

— Aqui, acolá, em qualquer lugar. E a qualquer hora. Quero uma autorização permanente.

— E o senhor já não faz isso?

— Tenho vergonha.

— E é pra ter mesmo.

— Mas eu gosto...

— Não é necessária autorização para isso.

— Mas eu preciso...

— Que mais o senhor deseja?

— Andar de pés descalços.

— Aqui não pode.

— Na praia. O dia todo. Sem trabalhar nem um minutinho sequer.

— Nessa cidade não tem praia, senhor.

— Eu s…

DAS APARÊNCIAS QUE ENGANAM
[Debora Bottcher]

Na semana passada, aqui no condomínio onde moro, teve uma festa de Halloween. Originariamente para as crianças, muitas mães se vestiram a caráter para acompanhar seus pequenos, o que fez o salão de festas ficar repleto de bruxas, fantasmas e afins de todos os tamanhos e modelos.

Num cenário com tules laranja, roxo e preto, abóboras penduradas no teto, músicas de várias épocas, doces e cachorro-quente, a noite foi muito divertida. E dentre os muitos 'personagens', uma moça-mãe me chamou a atenção: ela dançava com seus filhos — uma mini-Mortícia e um Fantasminha muito legal — e com as muitas outras crianças numa felicidade quase infantil. Vez ou outra também enlaçava o marido — vestido como um mortal comum, de jeans e camiseta — , o sorriso aberto num rosto emoldurado por um enome chapéu de bruxa, transmitindo uma alegria contagiante — fosse um evento adulto e ela seria a 'Garota da Festa'.

Num condomínio fechado de setenta casas pode parecer incrível, mas a gente não co…

OS TEXTOS E SEUS CAMINHOS
>> Maurício Cintrão

O texto não é dos melhores, mas continua sendo lido e apreciado pelos leitores. Então, fica aquela clássica pergunta: o que faz o autor além de atender à expectativa alheia? Somos barqueiros, taxistas, condutores de letras; operários na grande odisséia de construir a alegoria da cultura. E nossas obras só existirão, de fato, se os leitores as aceitarem.

Certa vez, nos idos dos anos 1980, eu estudei no EBART, um misto de ateliê e curso de artes mantido pelos irmãos Zélio e Ziraldo Alves Pinto. Ficava ali no Pacaembu, pertinho do estádio de futebol. O Ziraldo era presença eventual. Quem estava lá o tempo todo era o Zélio, um professor de mão cheia, meio mestre filosófico, meio exemplo prá todos nós.

Pois bem, um dia, ao explicar os mistérios da “construção” do desenho de uma prosaica cadeira (que é difícil de desenhar, aliás), Zélio disse mais ou menos o seguinte: o que vemos é um rabisco; o que transforma o rabisco em uma cadeira é o acordo entre artista e espectador, que empresta ao d…