Pular para o conteúdo principal

COLEÇÃO DE CHEIROS >> Fernanda Pinho




Cheiro de Sundown me lembra praia. Mas não é apenas um flash rápido na memória. É uma lembrança muito intensa. Quando eu estava na faculdade e, durante algum tempo que não durou quase nada, cismei que andaria com protetor solar na bolsa, eu abria o tubo durante a aula, fechava os olhos e podia até ouvir o ruído das ondas quebrando e dos ambulantes gritando. Alheia às teorias da comunicação, eu era transportada.

Como o cheiro do perfume Absinto me transporta às tardes de domingo da minha infância, quando eu me sentava no sofá, esperando minha mãe ficar pronta para irmos à missa. Ela sempre saía do banho com aquele cheiro, mas dizia que era perfume de adulto. Eu que me satisfizesse com as minhas colônias de moranguinho.

De acompanhar minha mãe à igreja, também passei a associar o cheiro de alecrim às procissões de Domingo de Ramos. E o cheiro enjoativo de cocada e maçã do amor à Sexta-Feira da Paixão, quando eram montadas barracas de doces na porta da igreja. Aliás, eu posso culpar um cheiro por mal conseguir prestar atenção nas missas. Era quase impossível me concentrar no que o padre dizia com aquele aroma de pipoca quase me fazendo flutuar.

Mas se eu pudesse armazenar um aroma num vidrinho e guardar pra que eu pudesse cheirar nos dias sem graça seria o cheiro de material escolar novo. Que delícia era folhear os cadernos e livros novos e deixar que o ventinho nos inebriasse de empolgação com o ano que estava começando. E tinha também o cheiro das borrachas, dos pincéis atômicos, dos lápis, do giz de cera. Aquela mistura resultava numa fragrância única e peculiar que desaparecia ao longo do ano, junto com a nossa empolgação em ir para a escola.

Mesmo quando adolescente, quando novas cheiros resolveram participar da minha vida, aquele ainda era o preferido. Não que os outros não fosse inesquecíveis. Outro dia abri um vidro do perfume Fifteen na casa da minha prima e eu tinha 15 anos outras vez, sonhava em conhecer os Titãs, ser juíza de direito e me casar aos 21. Conheci os Titãs quando eu estava na fase do perfume Ops, o resto...

E são tantos outros que, quando fecho os olhos, mais que visualizar imagens, eu sinto cheiros. O do bife queimado ou do café açucarado que me levam de volta à casa da minha avó, o de mato misturado a gasolina que me devolve às viagens de carro na infância, o de Novalgina que me lembra os dias de febre cheios de cuidados da minha mãe.

A sensação quase sempre é boa e sou muito grata à minha memória olfativa. Mesmo quando abraço alguém que usa um perfume igual a outrem e eu quase morro do coração.

Imagem: www.sxc.hu

Comentários

Pro Ex Mc disse…
Fernanda...
Vou te contar, sempre leio suas crônicas no crônica do dia, e a cada dia você me impressiona mais, assim como as crônicas de Carla Dias, Eduardo e Clara Braga, mas, enfim, meus parabéns, é sempre bom abrir o Crônica do Dia e saber q a crônica que vou ler é de sua autoria, abraços.
Jujú disse…
INcrível....texto delicioso! Só vc pra conseguir colocar coisas de nosso dia a dia de forma tão gostosa de se ler!

Incrível tb nossas memórias serem bem parecidas. Ok, isso nem é tão incrível ser levarmos em conta o quando temos coisas em comum, né?rs

Cada dia melhor!

Beijos com gosto de batom de morango!rs
Fernanda, sua crônica me fez perceber que meu mal é grave. Você sabe se existe óculos para nariz? :)
Abner Martins disse…
Gostei desse trecho: "...
seria o cheiro de material escolar novo. Que delícia era folhear os cadernos e livros novos e deixar que o ventinho nos inebriasse de empolgação com o ano que estava começando."

realmente, quando li essa parte, o chiero de materila escolar me veio à mente. Gostei desse texto!

beijo do Abner

abnerlmesmo.blogspot.com
Marilza disse…
Fernanda, como sempre seu texto é delicioso (como disse a Juju)...leve, gostoso de ler. É bem por ai cheiros marcam....e você soube discorrer com maestria, novamente, sobre esse assunto.
Zoraya disse…
Fernanda, que cheiro bom tem seu texto! De bolo saindo do forno e de grama cortada. Ah, e um recado particular: Hopi Hari, na mosca! rsrsrs
whisner disse…
Bonito texto, de uma sensibilidade enorme. Eu sou mais ligado a cheiros de comida. Até hoje aquele aroma de chancliche, de azeite, de noz-moscada, de canela me acompanham. Parabéns. Abraço.
Vilma Tavares disse…
...UUUMMM !! Que cheirinho gostoso, suas palavras me fez viajar...

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …