quinta-feira, 10 de novembro de 2011

COLEÇÃO DE CHEIROS >> Fernanda Pinho




Cheiro de Sundown me lembra praia. Mas não é apenas um flash rápido na memória. É uma lembrança muito intensa. Quando eu estava na faculdade e, durante algum tempo que não durou quase nada, cismei que andaria com protetor solar na bolsa, eu abria o tubo durante a aula, fechava os olhos e podia até ouvir o ruído das ondas quebrando e dos ambulantes gritando. Alheia às teorias da comunicação, eu era transportada.

Como o cheiro do perfume Absinto me transporta às tardes de domingo da minha infância, quando eu me sentava no sofá, esperando minha mãe ficar pronta para irmos à missa. Ela sempre saía do banho com aquele cheiro, mas dizia que era perfume de adulto. Eu que me satisfizesse com as minhas colônias de moranguinho.

De acompanhar minha mãe à igreja, também passei a associar o cheiro de alecrim às procissões de Domingo de Ramos. E o cheiro enjoativo de cocada e maçã do amor à Sexta-Feira da Paixão, quando eram montadas barracas de doces na porta da igreja. Aliás, eu posso culpar um cheiro por mal conseguir prestar atenção nas missas. Era quase impossível me concentrar no que o padre dizia com aquele aroma de pipoca quase me fazendo flutuar.

Mas se eu pudesse armazenar um aroma num vidrinho e guardar pra que eu pudesse cheirar nos dias sem graça seria o cheiro de material escolar novo. Que delícia era folhear os cadernos e livros novos e deixar que o ventinho nos inebriasse de empolgação com o ano que estava começando. E tinha também o cheiro das borrachas, dos pincéis atômicos, dos lápis, do giz de cera. Aquela mistura resultava numa fragrância única e peculiar que desaparecia ao longo do ano, junto com a nossa empolgação em ir para a escola.

Mesmo quando adolescente, quando novas cheiros resolveram participar da minha vida, aquele ainda era o preferido. Não que os outros não fosse inesquecíveis. Outro dia abri um vidro do perfume Fifteen na casa da minha prima e eu tinha 15 anos outras vez, sonhava em conhecer os Titãs, ser juíza de direito e me casar aos 21. Conheci os Titãs quando eu estava na fase do perfume Ops, o resto...

E são tantos outros que, quando fecho os olhos, mais que visualizar imagens, eu sinto cheiros. O do bife queimado ou do café açucarado que me levam de volta à casa da minha avó, o de mato misturado a gasolina que me devolve às viagens de carro na infância, o de Novalgina que me lembra os dias de febre cheios de cuidados da minha mãe.

A sensação quase sempre é boa e sou muito grata à minha memória olfativa. Mesmo quando abraço alguém que usa um perfume igual a outrem e eu quase morro do coração.

Imagem: www.sxc.hu

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8 comentários:

Pro Ex Mc disse...

Fernanda...
Vou te contar, sempre leio suas crônicas no crônica do dia, e a cada dia você me impressiona mais, assim como as crônicas de Carla Dias, Eduardo e Clara Braga, mas, enfim, meus parabéns, é sempre bom abrir o Crônica do Dia e saber q a crônica que vou ler é de sua autoria, abraços.

Jujú disse...

INcrível....texto delicioso! Só vc pra conseguir colocar coisas de nosso dia a dia de forma tão gostosa de se ler!

Incrível tb nossas memórias serem bem parecidas. Ok, isso nem é tão incrível ser levarmos em conta o quando temos coisas em comum, né?rs

Cada dia melhor!

Beijos com gosto de batom de morango!rs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda, sua crônica me fez perceber que meu mal é grave. Você sabe se existe óculos para nariz? :)

Abner Martins disse...

Gostei desse trecho: "...
seria o cheiro de material escolar novo. Que delícia era folhear os cadernos e livros novos e deixar que o ventinho nos inebriasse de empolgação com o ano que estava começando."

realmente, quando li essa parte, o chiero de materila escolar me veio à mente. Gostei desse texto!

beijo do Abner

abnerlmesmo.blogspot.com

Marilza disse...

Fernanda, como sempre seu texto é delicioso (como disse a Juju)...leve, gostoso de ler. É bem por ai cheiros marcam....e você soube discorrer com maestria, novamente, sobre esse assunto.

Zoraya disse...

Fernanda, que cheiro bom tem seu texto! De bolo saindo do forno e de grama cortada. Ah, e um recado particular: Hopi Hari, na mosca! rsrsrs

whisner disse...

Bonito texto, de uma sensibilidade enorme. Eu sou mais ligado a cheiros de comida. Até hoje aquele aroma de chancliche, de azeite, de noz-moscada, de canela me acompanham. Parabéns. Abraço.

Vilma Tavares disse...

...UUUMMM !! Que cheirinho gostoso, suas palavras me fez viajar...