sexta-feira, 4 de novembro de 2011

OS TEXTOS E SEUS CAMINHOS
>> Maurício Cintrão

O texto não é dos melhores, mas continua sendo lido e apreciado pelos leitores. Então, fica aquela clássica pergunta: o que faz o autor além de atender à expectativa alheia? Somos barqueiros, taxistas, condutores de letras; operários na grande odisséia de construir a alegoria da cultura. E nossas obras só existirão, de fato, se os leitores as aceitarem.

Certa vez, nos idos dos anos 1980, eu estudei no EBART, um misto de ateliê e curso de artes mantido pelos irmãos Zélio e Ziraldo Alves Pinto. Ficava ali no Pacaembu, pertinho do estádio de futebol. O Ziraldo era presença eventual. Quem estava lá o tempo todo era o Zélio, um professor de mão cheia, meio mestre filosófico, meio exemplo prá todos nós.

Pois bem, um dia, ao explicar os mistérios da “construção” do desenho de uma prosaica cadeira (que é difícil de desenhar, aliás), Zélio disse mais ou menos o seguinte: o que vemos é um rabisco; o que transforma o rabisco em uma cadeira é o acordo entre artista e espectador, que empresta ao desenho a condição de cadeira.

Escrever também é isso (e aí voltamos ao começo do texto). A peça escrita, quem sabe literária, não precisa ser magnífica aos olhos de qualquer um. Mas tem que fazer sentido para quem lê. O lirismo, meus amigos, não é intrínseco ao texto. Ele está nos olhos marejados do leitor. É feito piada que não precisa de explicação. Seu sucesso não está na ação, mas na reação.

Assim, se um texto continua sendo lido, é porque ainda opera conexões por aí. Quem bom! Vai sobreviver às minhas manias e limitações. Alçou vôo próprio, vai por aí. Para quem lançou o escrito aos céus é alegria e tristeza. Pois os textos são filhos que conquistam vida própria ou se acabam por si mesmos. Pouco podemos fazer para mantê-los na segurança (e na vidinha limitada) de nossas casas.

Se você escreve, talvez concorde comigo. Se não concordar, manifeste a discordância. O fato é que já tentei cancelar a publicação de textos que pareceram, a uma segunda leitura, fora de propósito ou desconectados da realidade.  É evidente que não consegui impedir sua publicação. E convivi com a dúvida até ouvir os comentários.

Na maioria das vezes, era reflexo do meu medo em soltar os textos. Como ainda é com os filhos.

Textos e filhos seguem seus próprios caminhos; autores nem sempre.




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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

"Textos e filhos seguem seus próprios caminhos; autores nem sempre."

Maurício, essa frase diz tudo. É praticamente mais um texto dentro do seu texto!

Carla Dias disse...

Ótimo texto sobre o motivo de ser tão bom ler os seus textos... Porque sim, né? Beijos!