quarta-feira, 9 de novembro de 2011

INVENTÁRIO DO INDIZÍVEL >> Carla Dias >>

Tem gente que diz tudo de uma só vez, aos atropelos, sem ritmo ou preocupação a respeito de aonde esse dizer o levará. Como se fosse necessário expurgar os pensamentos, antes de voltar ao ponto em que se sente em paz... Nem que seja brevemente.

Sente um tanto de inveja dessas pessoas que conseguem alívio ao expor tudo o que sentem.

Para ele, o indizível é companheiro, como quando desejou, de um jeito forte de tudo, aquele presente, e não teve coragem de pedi-lo aos pais. Acabou ganhando algo muito mais pomposo de aniversário, e não conseguiu se sentir feliz, porque a felicidade ficou presa naquele toca discos antigo, capaz de acarinhar LPs como se contasse histórias, que fazia a música arranhar as paredes da mesmice.

Panfletários sempre discutem a importância de se dizer prioridades para que elas sejam respeitadas, para que tenhamos voz própria como indivíduos e membros da sociedade. Porém, ele não compreende muito bem como a necessidade de muitos pode sustentar a boa vida de tantos. A politicagem o desagrada profundamente, assim como as celebridades com a sua importância que dura o tanto que leva para comida instantânea ficar pronta.

Mas quem se importa com pensamentos jamais verbalizados?

Então, passou a botar reparo nos gestos, nas pernas e nos cabelos dela, para então ver-se apaixonado por ela inteira. O corpo doía, a saudade tola que mal aguentava chegar ao dia seguinte para vê-la sentada à mesa a sua frente, durante o horário comercial, sorrindo, enquanto ganhava a vida.

Costuma pensar nela, enquanto escuta os discos do Miles Davis, no toca discos que comprou com o primeiro salário do seu primeiro emprego.

Não se trata de timidez, de enfermidade ou promessa. Para ele, dizer é importante demais para se gastar com banalidades, então, abstêm-se de discussões existenciais que nada têm a ver com a existência, das breves críticas sobre arte que nem todos entendem ou souberam apreciar, e até mesmo das discussões com o SAC de companhias acostumadas a enrolar os clientes.

Para dizer o indizível, de um jeito que seja ouvido com a compreensão de mente aberta, prefere as cartas, as manuscritas, porque há um toque de intimidade nelas.

Desde o dia em que ela estreou no trabalho, ele já escreveu quarenta e sete cartas, uma por dia, todas repletas de coisas indizíveis. Admira-se com a facilidade dela de dizer sentimentos, bobagens, importâncias, piadas, declarações de afeto. Para ele, ela é a pessoa que melhor sabe dizer o indizível sem torná-lo desprovido de valor, sem perder o sentido dele, durante o processo.

Quando chegou a setenta e oito longas cartas, decidiu dizer o indizível, antes que sufocasse com as palavras engasgadas. Para quem nunca soube dizer, tradicionalmente, ele encontrou um jeito de fazê-lo.

Colocou as cartas em ordem cronológica e as levou para serem encadernadas, como se fosse um livro. No final da tarde, minutos antes do fim do expediente, entregou a ela o arquivo dos seus sentimentos, sem conseguir sequer sorrir, tão mexido ficou com o sorriso dela que, desta vez, era para ele. Não respondeu a pergunta dela sobre o que se tratava o livro, e foi embora em silêncio.

No dia seguinte, e no outro, no outro ainda... Em todos os dias que se seguiram, desde que entregara a ela a sua alma, a moça não mais apareceu. Comenta-se que ela se mudou da cidade. E desde então, ele vem arrastando essa tristeza espalhafatosa, que o faz resmungar quando lhe pedem mais do que está disposto a oferecer, que desperta a estranheza naqueles que, desde sempre, o achavam incapaz de expressar-se.

Sorte que Miles Davis não abandona, mas fica e toca lindamente a música que, em noites mais longas, faz-lhe companhia.

Houve o dia em que lhe perguntaram sobre o sonho da sua vida, e ele sabia que deveria responder sobre como achava estranho tentar qualificar o que ainda está acontecendo, como se já tivesse acabado e deixado saldo. Queria dizer que um sonho resumido não vale a pena ser revelado, que preferível é uma porção de sonhos, sem as amarras das expectativas vãs. Para ele, o bom gosto é o dos sonhos possíveis...

Como dizer o indizível.

Quando o viu na vitrine, não atentou para a importância dele. Queria apenas esgotar o assunto, virar a página, exorcizar os demônios. Mas quando o olhar se atreveu a atravessar a vitrine, lá estava ela, em pé no meio de tantos outros, o livro nas mãos. As tantas outras cartas que lhe escreveu, em formato Best-Seller. E quando ela o avistou e sorriu, ele soube...

O indizível, finalmente, fora desnudado.


carladias.com

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8 comentários:

Anônimo disse...

òtima crônica. Visite meu site: comosefossecronica.webnode.com.br
Espero tua visita!

Debora Bottcher disse...

De arrepiar, moça... Como sempre... Um beijo.

Marisa Nascimento disse...

Carla,
Que coisa mais emocionante!!!
Nada que eu diga expressa a minha contemplação a esse seu escrito.
Bjs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, meu comentário a esse seu emocionante texto é indizível. :)

fernanda disse...

Lindo! Você sabe dizer o indizível...

Zoraya Cesar disse...

Capacidade dos poetas: dizer o indizível. E você, cada vez mais, indizivelmente lírica

whisner disse...

Vou ser honesto: esse poema "Indivíduo" me nocauteou.

Carla Dias disse...

Anônimo: Obrigada!

Debora... Agradecida :) Beijo!

Marisa... Beijos e muito obrigada:)

Eduardo... Ah, o que é indizível emociona. Obrigada por apreciar o meu indizível.

Fernanda... Dizer o indizível é bom à beça:)

Zoraya... Também acho que a poesia permite dizer o indizível, e ainda aproveita para fazê-lo de um jeito muito especial. Beijo!

Whisner... Vou ser honesta: como fã de você poeta, fico muito feliz que o meu poema o tenha nocauteado :)