quinta-feira, 3 de novembro de 2011

HERANÇA >> Fernanda Pinho




Hoje seria um daqueles dias em que eu te ligaria puto, mesmo ainda sendo sete da manhã. Aliás, eu te ligaria propositalmente e justamente por ainda ser sete da manhã. Porque eu sei que você estaria dormindo e ficaria igualmente puto por eu estar te acordando. E sabendo que eu consegui te deixar puto eu me sentiria aliviado por estar tão puto com você. Então você me chamaria de veado, eu insultaria sua mãe – mesmo gostando dela como eu gosto da minha – e marcaríamos de tomar uma mais tarde no bar do Zé. Que nem no dia em que descobri que você tinha ficado com a Marina. Porra, velho, com tanta mulher no mundo tinha que pegar logo minha irmã? Minha irmãzinha caçula? Fiquei puto mesmo. Mas aí eu te liguei, te acordei, você ficou puto também, me chamou de veado, insultei sua mãe, fomos beber no bar do Zé e tudo ficou certo. Porque tudo sempre ficava certo entre nós. E eu sei que ficaria agora se eu pudesse te ligar pra dizer o quanto eu estou puto com a cena que acabo de presenciar.
O chão da minha cozinha todo cagado e mijado. Minhas revistas Placar destroçadas, pelo tapete da sala. As capas dos meus vinis do Led Zeppelin comidas (ainda não tive coragem de olhar o estado dos discos). Meu apartamento parece ter sido vítima de um furacão que deixou apenas meu quarto a salvo. Isso porque, não conseguindo dormir com tanto barulho, tive a ideia de trancar a porta do quarto com o Elvis pra fora. Cara, hoje eu  estou muito puto com esse Elvis e com o fato de você tê-lo deixado comigo. Sério, eu estou mais puto do que no dia em que soube que você tinha ficado com a Marina. Por que justo eu que nunca tive um cachorro na vida? Por que justo eu que nunca tive a menor desenvoltura pra brincar com animais? Por que justo eu que nunca havia trocado uma ideia que fosse com o Elvis, apesar das investidas dele?
Essas perguntas ficaram martelando na minha cabeça depois do dia em que sua mãe apareceu aqui em casa, puxando Elvis pela coleira e dizendo que era um pedido seu que ele ficasse comigo. Talvez eu passasse a vida inteira me questionando, mas, aos poucos, Elvis começou a se explicar.
Como no dia do Atlético e Cruzeiro. Eu deveria estar lá, no estádio. Mas sem você não fazia sentido. Então ficamos em casa: eu, a tevê, a poltrona, uma caixa de cerveja, uma solidão abissal e o Elvis. Contrariando seu comportamento tão efusivo, sentou-se ao lado da poltrona, olhos fixos na tevê, e daquela posição só saiu quando pulamos juntos pra comemorar o gol do Galo. Fogos na rua. Latidos lá em casa.
E teve o dia em que eu decidi levá-lo para dar uma volta de carro, pra ver se acalmava seu ensandecido estado de espírito canino. Ao que parei no posto para abastecer, o que eu mais temia aconteceu: Elvis escapuliu. Confesso. Fiquei muito tentado a acatar o incidente como uma obra do destino e deixar Elvis seguir seu caminho. Bem longe de mim. Mas uma força maior me impeliu a procurá-lo pelas ruas do bairro. Minha busca durou quarenta minutos, mas poderia ter durado apenas dois caso eu tivesse um pingo da sensibilidade que esse cachorro tem. Elvis me esperava, sim não tive dúvidas de que ele me esperava, com rabo abanando e tudo, na porta do bar do Zé. Eu ainda não havia tido coragem de voltar ao bar do Zé, mas aceitei o convite do acaso – ou de Elvis – entrei, sentei, tomei uma gelada e zarpei antes que eu pagasse o mico de me debulhar em lágrimas no meio do boteco.
Cheguei em casa e fiz o que deveria ser feito: parei de fingir que estava tudo bem. E ao som de You've Got A Friend, do James Taylor, chorei igual menino, sentado à mesa da cozinha, a cabeça apoiada entre as mãos. Tudo o que eu queria naquele momento era te perguntar como você havia tido a coragem de me deixar sozinho. E, então, como se lesse meus pensamentos, Elvis apoiou as duas patas gordas na minha perna e me lambeu o rosto. Entendi duas coisas: eu não estava sozinho e me deixar o Elvis foi seu último ato de generosidade comigo. A amizade que eu achei que havia sido tirada de mim estava, agora, materializada na forma de um cachorro inquieto como o roqueiro que lhe deu o nome.
E é por isso que eu não tenho coragem de devolvê-lo, mesmo que a cada madrugada ele destrua um pouco do meu apartamento. Eu fico puto, mas depois passa. Eu sempre acabo te perdoando. Te perdoo por você ter ficado com a Marina. Te perdoo por você ter deixado o Elvis comigo. Eu só não te perdoo por você ter me tirado a chance de te ver ficando velho. Filho da puta!

[Enfim, tomei coragem pra publicar um conto aqui]
Foto: www.sxc.hu


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10 comentários:

whisner disse...

Fantástico!

Marilza disse...

Amei!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ora, ora... a ficcionista vêm à tona. :) E haja talento!

Raquel disse...

Fernanda,me deixei levar pelo texto e pensei que realmente voce fosse um rapaz (tive que voltar ao titulo do post para sanar minha duvida, haha)
O texto ficou lindo,parabéns!

Marisa Nascimento disse...

Fernanda,
que talento!!
E quando se fala sobre animais, sempre me emociono.

fernanda disse...

Gente, obrigada pelo incentivo. Eu não entendo nada de animais, nem tenho cachorro e sou mulher mesmo...rs. Então esse foi um desafio que eu me impus. Que bom que gostaram! Beijos!

Zoraya Cesar disse...

Fernanda, eu podia jurar que o relato era real! Meus olhos ficaram cheios qdo o "cara" sentou na mesa do bar e teve de sair para nao chorar. Valeu.

albir disse...

E precisou de coragem para publicar? Fico imaginando uma gaveta cheia. Por favor, mostre!

Carla Dias disse...

Fernanda!!!!!!!!!!!
Lindo, lindo que só. Adorei o seu conto, e espero ler muitos outros. Adorei a forma como você conduziu a história. Eu já estava chateada com a morte do amigo lá pelo terceiro parágrafo.
Parabéns... Para quem lê o seus textos, claro. Obrigada por escrevê-los!

Pro Ex Mc disse...

Fernanda... Lindo conto, sem palavras