terça-feira, 22 de novembro de 2011

A SAGA DA FONOAUDIÓLOGA >> Clara Braga

Tenho certeza que já comentei por aqui as minhas nada boas lembranças a respeito da minha infância. Não que ela tenha sido mal aproveitada, ruim ou qualquer coisa do tipo, só não conheço uma pessoa que consiga me falar algo de bom em relação a mim quando era criança, principalmente minha família.

Quando o assunto surge é sempre a mesma coisa, sempre falam apenas o quanto eu era emburrada, chata, birrenta, entre outras coisas que eu prefiro não entrar muito afundo para não passar uma visão ainda mais ruim sobre mim para quem está me lendo nesse momento.

Outro dia, enquanto conversava com minha mãe e uma amiga minha, o assunto dislexia acabou surgindo. Não me lembro como surgiu, mas posso garantir que não fui eu quem puxou o assunto, já que dislexia é um tópico que sempre aparece junto com relatórios a respeito dos seis longos anos que eu passei na fonoaudióloga enquanto criança.

Anos sofridos esses, principalmente para uma criança que não sabe o que é dislexia e muito menos como pronuncia a palavra fonoaudióloga. Ou seja, eu ia para esse lugar estranho e não tinha a menor idéia de como aquelas pessoas que estavam lá iam me ensinar a não trocar mais o "T" pelo "D" ou o "V" pelo "F" me colocando para fazer quebra cabeças, caça palavras, exercícios de coordenação motora e alongamento, exercícios faciais, exercícios para a musculatura dos olhos e jogar jogos de tabuleiro com outras crianças que também frequentavam o lugar estranho.

Para ser bem sincera, eu sei que melhorei e sei que hoje não tenho mais tanta dificuldade assim para escrever, mas ainda assim, comentei com minha mãe e essa amiga que até hoje não via ligação entre todas essas atividades e o fato de ter parado de trocar as letras. Foi nessa hora que me arrependi de ter comentado isso, mas ao mesmo tempo fiquei feliz de ter sido esclarecida.

Minha mãe explicou, de uma forma clara e sem titubear, que os quebra cabeças, caças palavras e exercícios para os olhos eram todos para fortalecer a musculatura dos olhos e ver se concertava um certo desvio que eu tinha que me fazia engolir sílabas e pular linhas na hora de ler. Que os exercícios de coordenação motora e alongamento eram para arrumar minha postura que era bem ruim, com a coluna bem para frente, como uma espécie de lordose. Os exercícios faciais eram para arrumar minha arcada dentária que era bem para frente, eu não encaixava os dentes na hora de fechar a boca e tinha a língua um pouco presa, não conseguia falar o som do “s” sem colocar a língua entre os dentes. E que os jogos de tabuleiro em grupo eram na verdade terapia em grupo para criança, e não pura diversão como eu imaginava.

Agora numa boa, durante seis anos da minha infância eu me achava super burra porque não conseguia escrever palavras que todos os meus colegas da escola sabiam, eu tive que fazer terapia sem saber, eu tinha desvio no olho (e para mim, dizer que tem desvio é uma forma um pouco mais elegante de dizer que eu era levemente estrábica). Tinha também uma postura estranha e uma boca que não fechava, ou seja, era o perfeito corcunda de Nodre Dame! E além disso tudo vocês ainda queriam que eu fosse bem humorada? Família, vocês não acham que exigiram um pouco demais de mim não?

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