sábado, 26 de novembro de 2011

NEUROSES NOSSAS DE CADA DIA [Ana Gonzalez]

O assunto de proibição ao cigarro voltou à baila com a lei federal que proíbe o cigarro em todo o Brasil. Por aqui, as pessoas já não reclamam tanto, cansaram e se adaptaram à situação. No começo era um vozerio em torno da liberdade de as pessoas fumarem. Até onde pode ir a ingerência do governo sobre nossas vidas? Enfim, tudo se acomoda e as coisas se assentarão também pelo bem da saúde da família brasileira.

Mas, a minha questão não é com o cigarro, mas com as bitucas. Andando por ruas e calçadas, elas estão por aí, à nossa volta. Amassadas, espatifadas, desperdiçadas, apertadas. Cigarros meio inteiros, meio fumados. Para onde olharmos, lá estarão, pois é hábito jogar no chão. Por que não?

Muito desagradável. Me incomoda. Na verdade, fico muito brava. Fico enraivecida. Colérica. É isso. Cheguei ao ponto. Não há o que fazer e isso é mal. Fico mobilizada à explosão quando vejo que a s pessoas não se apercebem de que a rua é domínio público e não o lixo de suas casas, de suas vidas privadas.

Ando, por estas paragens paulistanas, perguntando para quem joga a bituca no chão: “Jura pra mim que da próxima vez você joga no lixo?” A reação das pessoas varia muito. Rico material para tese de mestrado em comportamento urbano. Muitas vezes, ficam bravas. Ameaçadas? Policiadas? Pegas no flagra? Em outras, elas trazem respostas nada criativas: Onde você está vendo o lixo? Ou então, fecham a cara e dão respostas menos educadas. Já vi de tudo. Da natureza humana - variada e complexa - posso esperar qualquer coisa. Não me incomoda. Observo, assisto interessada e irada.

Meu filho me disse que eu tome cuidado porque eu posso me dar mal. Ouvi com atenção. Preenchi sua preocupação com dados de realidade. Perigos possíveis à vista.

Juro que já tentei parar com essa mania. Pensando que não sou polícia ou coisa parecida. Que cada um faça o que puder pela limpeza das calçadas e ruas, da cidade, do estado e do mundo. Mas não dá. Eu presencio a hora exata do acontecimento. Pego flagras homéricos. De janela de ônibus, de carros de todos os tipos, de pessoas que estão paradas nas calçadas esperando o sinal fechar. A pessoa que está dando as últimas tragadas, certamente jogará a bituca final, representação última do prazer assumido, no chão. Disfarçadamente. Ou descaradamente. Busco sempre a reação que abra um sorriso maroto e uma concordância comigo. Muito raramente, já aconteceu.

E hoje cedo foi assim. Eu vi uma mulher de seus quarenta anos, cabelos longos escuros amarrados na nuca. Ela estava de azul e vinha na minha direção numa calçada estreita. Tragou o cigarro, e no instante em que me olhava nos olhos, jogou-o no chão. Foi instintivo - ou fruto do vício. Eu disse, então, a malfadada frase: “Jura pra mim que da próxima vez você joga no lixo?”


Mas ela, no meio dos passos lentos em que vinha, bem à frente, para minha surpresa, disse em voz baixa e tranqüila: “Juro”. E me deu um sorriso nada tímido. Também sorri. Mais por dentro do que por fora. Não esperava tanto. É daqueles momentos de cumplicidade em que tudo faz sentido. Mesmo com essa minha postura antipática, houve um encontro.

Os desvãos da cidadania têm seu caminho natural em cada sociedade. Talvez eu não precise mais dessa atitude vigilante? Curei-me com um gesto libertador de humanidade? Não sei ainda. Talvez não. Porém, a explosão de luz de encontros como esse, de pequenos instantes mágicos do dia-a-dia, faz milagres. Quem sabe?

www.agonzalez.com.br
Fotos: Internet e Steve Hix/Corbis (Sorriso)

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7 comentários:

analu disse...

Ana, sempre pertinaz em suas colocações, com seu jeito decidido, objetivado, mas sempre com uma aura romântica em torno da existência, sempre humana, minha amiga! A salvação está nos pequenos atos, até mesmo num andar lento, olhos nos olhos, com uma promessa ao final!

Zoraya disse...

Maravilha, Ana! Nao foram poucas as vezes em que me vi redimida por um gesto inesperado de calor humano. Entendo perfeitamente sua raiva contra a apatia e o descaso que grassam por aí. Mas nao perca o bom humor!

Ana González disse...

Analu, amiga, salvação é o que procuro neste mundo. E parece que vc também! É uma chave para mim nestes acontecimentos tão banais. Eita, obrigada pela leitura e troca. Ana

Zoraia, Obrigada! bom lembrar o humor! Tento não perdê-lo, ainda que ás vezes seja difícil!!! rs... Bom saber de seus momentos de calor humano!!! Ana

Carla Dias disse...

Ana... Compreendo e sou partidária dos seus pensamentos. E acredito que, por mais que a escolha de cuidar do que é público, valendo-se tão somente da educação, da informação, da compreensão sobre o direito de preservar a si e aos outros, pode parecer pessoal e exclusiva. Para mim ela é coletiva... Se eu não colaboro, certamente você vai sofrer os efeitos disso. Precisamos pensar no outro como pensamos em nós mesmos, quando se trata do que temos em comum. Beijos!

Ana González disse...

Carla, sabia que ás vezes me sinto de outro planeta? Coisas que eu penso que seriam normais, como cuidar do que é coletivo, fica sendo tão raro...rs... que nem sei mais o que é o certo. Ainda bem que há pessoas que pensam como vc e como eu! A troca é fundamental. ObrigadaQ Bjss

Varlice disse...

Anuska
"... mesmo com essa minha postura antipática...".
E o que dizer da postura
desrespeitosa desses fumantes que fazem da cidade que é de todos a sua lata de lixo particular? Se isso não for uma atitude antipática o que seria? Alguém a lhes lembrar de educação e respeito perdidos?
Outro dia um rapaz à minha frente na rua, sem a menor cerimônia, jogou um copinho ainda com restos de sorvete na parede de uma casa que, claro, ficou toda suja. Não havia lata de lixo por perto. A atitude foi propositada.
Chamei-lhe a atenção e sugeri que ele fizesse isso dentro da própria casa. A criatura não deu a mínima. Não tive dúvidas: chamei-o de porco várias vezes, alto e bom som, até que ele sumisse da minha vista - rindo e caminhando rapidamente.
O seu caso sugere alguma esperança. O meu mostra a quantas anda esta cidade sofrendo nas mãos de gente que desconhece o que é civilidade.
Podemos nos unir e fundar o Clube das Intransigentes. Garanto que não faltarão associados.
Beijocas e feliz ano novo.
Varlice

Renan disse...

Ana, compartilho com vc essa preocupação ambiental. É um descaso terrível que muitos possuem. Apenas a conscientização mediante educação pode mudar esse comportamento. Como gosta de dizer o Mario Sérgio Cortella, nós humanos somos muito arrogantes ao pensar que somos donos do mundo...não somos. Somos compartilhantes, pois moramos temporariamente na Terra. Além disso, para cada ser humano há cerca de 7 bilhões de insetos. Basta 1 ser humano para fazer o que esses 7 bilhões não fazem com o meio ambiente. Para se pensar não? Mas confesso que já tive comportamentos incorretos e tive a grata surpressa de ser agraciado por um gesto inusitado de alguém mais esclarecido e com empatia muito humana. É muito bom! Por isso, mantenha suas atitudes calorosas, lúcidas! Obrigado!Beijo!