sábado, 19 de novembro de 2011

AS ROSAS NO ESCURO [Ana González]

Fotografar é exercício de paciência e tempo. É fazer muitas fotos para depois ver o que foi captado nas imagens. Surpresas à espera.

Dessa vez as flores ficaram no escuro e sem muita claridade. Um efeito diferente. Em geral, prefiro mais contraste entre luz e sombras. Mas, nessas fotos de rosas há uma luz especial e sombras, muitas sombras. Estou falando por repetições, tentando explicar. Está quase impossível.

Tudo meio escuro, com as cores quentes das rosas em sutil presença. Em um pequeno vaso, elas não são muitas. Talvez umas cinco ou seis em tom de laranja, um quase rosa, alaranjado. Uma cor indefinível e o resto, à volta delas na penumbra, com um pedaço de espaldar de uma cadeira ao fundo. O vaso sobre uma mesa de que não se vê muito.

Mas havia sim, uma luz sobre elas, delicada, noturna. É a primeira foto que me sugere a noite assim descaradamente. Um resultado assim, uma noite com luz de lua.

Todo o resto por ser adivinhado. A parede da sala no fundo. Os pés da mesa? E ao olhar assim para dentro desse escuro, diviso o que não se vê e só pode ser imaginado. Então, solta, a imaginação faz seu giro, adivinhando o cenário de uma composição não preparada. Descrevendo, invento o que segue num exercício de liberdade.

A luz cai docemente sobre o vaso na mesa, com tampo de vidro, por uma janela grande - daquelas antigas de muitos quadrados com alguns vidros trabalhados. Sim, é uma sala com móveis antigos. E a lua, sem pedir, invade tudo, passando pela janela, na mesa, em algumas das oito cadeiras. Bate no tapete escuro com tons de vermelho. Há uma cristaleira, com copos, jarras e outros cristais. Reflexos e brilhos.

E a luz da lua se mistura a outra que vem de um poste na calçada. Há um muro que ladeia a casa com um pequeno corredor longo, na lateral. É uma casa de cidade de interior, ou de um bairro antigo de São Paulo dos anos cinqüenta?

Não sei. Um retrato sobre um aparador na parede perto da mesa mostra um sorriso de mulher, com colar de pérolas junto ao pescoço e um cabelo em ondas. Ou é uma blusa com gola arredondada e broche de pequenos brilhantes?

Tal personagem combina com o vaso. Ele comporta a sensibilidade de certo clima doméstico. O vaso é símbolo de uma comemoração. Mesmo sendo poucas flores, trata-se de uma homenagem. Poucas flores e um cartão que pousa aberto na ponta da mesa, ao lado dos papéis meio amassados e uma fita de seda. Talvez, amor, uma situação particular.

Caminho até a janela para olhar de novo o poste e o corredor comprido. Eis que alguém se aproxima pela calçada, um homem de andar manso. Sem pressa. Toca a campainha da casa. E mais não dá para ver, porque embora haja transparência e claridade, a visão de onde estou não é suficiente. Meu coração começa a bater forte. Olho para as flores no meio do escuro e em cima da mesa.

Ouço passos. Uma luz se acende na sala.

Fotos da autora.
www.agonzalez.com.br

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4 comentários:

Carla Dias disse...

Bela forma de explicar um olhar registrado em fotografia, Ana. Beijo!

Felipe Moreno disse...

Gosto muito das imagens que se descolam para se tornar literatura. Parabéns Ana. Adorei! Bjs

Vilma Tava disse...

...Quanta sensibilidade num simples olhar... lindo !

Ana González disse...

Pois é, amigos Carla, Felipe e Vilma, essa crônica não agradou muito. Percebi pelas avaliações. Obrigada pelos comentários. Acho que não fossem vocês, eu teria desistido de escrever crônicas...rsrsrs.... Ana