Pular para o conteúdo principal

AS ROSAS NO ESCURO [Ana González]

Fotografar é exercício de paciência e tempo. É fazer muitas fotos para depois ver o que foi captado nas imagens. Surpresas à espera.

Dessa vez as flores ficaram no escuro e sem muita claridade. Um efeito diferente. Em geral, prefiro mais contraste entre luz e sombras. Mas, nessas fotos de rosas há uma luz especial e sombras, muitas sombras. Estou falando por repetições, tentando explicar. Está quase impossível.

Tudo meio escuro, com as cores quentes das rosas em sutil presença. Em um pequeno vaso, elas não são muitas. Talvez umas cinco ou seis em tom de laranja, um quase rosa, alaranjado. Uma cor indefinível e o resto, à volta delas na penumbra, com um pedaço de espaldar de uma cadeira ao fundo. O vaso sobre uma mesa de que não se vê muito.

Mas havia sim, uma luz sobre elas, delicada, noturna. É a primeira foto que me sugere a noite assim descaradamente. Um resultado assim, uma noite com luz de lua.

Todo o resto por ser adivinhado. A parede da sala no fundo. Os pés da mesa? E ao olhar assim para dentro desse escuro, diviso o que não se vê e só pode ser imaginado. Então, solta, a imaginação faz seu giro, adivinhando o cenário de uma composição não preparada. Descrevendo, invento o que segue num exercício de liberdade.

A luz cai docemente sobre o vaso na mesa, com tampo de vidro, por uma janela grande - daquelas antigas de muitos quadrados com alguns vidros trabalhados. Sim, é uma sala com móveis antigos. E a lua, sem pedir, invade tudo, passando pela janela, na mesa, em algumas das oito cadeiras. Bate no tapete escuro com tons de vermelho. Há uma cristaleira, com copos, jarras e outros cristais. Reflexos e brilhos.

E a luz da lua se mistura a outra que vem de um poste na calçada. Há um muro que ladeia a casa com um pequeno corredor longo, na lateral. É uma casa de cidade de interior, ou de um bairro antigo de São Paulo dos anos cinqüenta?

Não sei. Um retrato sobre um aparador na parede perto da mesa mostra um sorriso de mulher, com colar de pérolas junto ao pescoço e um cabelo em ondas. Ou é uma blusa com gola arredondada e broche de pequenos brilhantes?

Tal personagem combina com o vaso. Ele comporta a sensibilidade de certo clima doméstico. O vaso é símbolo de uma comemoração. Mesmo sendo poucas flores, trata-se de uma homenagem. Poucas flores e um cartão que pousa aberto na ponta da mesa, ao lado dos papéis meio amassados e uma fita de seda. Talvez, amor, uma situação particular.

Caminho até a janela para olhar de novo o poste e o corredor comprido. Eis que alguém se aproxima pela calçada, um homem de andar manso. Sem pressa. Toca a campainha da casa. E mais não dá para ver, porque embora haja transparência e claridade, a visão de onde estou não é suficiente. Meu coração começa a bater forte. Olho para as flores no meio do escuro e em cima da mesa.

Ouço passos. Uma luz se acende na sala.

Fotos da autora.
www.agonzalez.com.br

Comentários

Carla Dias disse…
Bela forma de explicar um olhar registrado em fotografia, Ana. Beijo!
Felipe Moreno disse…
Gosto muito das imagens que se descolam para se tornar literatura. Parabéns Ana. Adorei! Bjs
Vilma Tava disse…
...Quanta sensibilidade num simples olhar... lindo !
Ana González disse…
Pois é, amigos Carla, Felipe e Vilma, essa crônica não agradou muito. Percebi pelas avaliações. Obrigada pelos comentários. Acho que não fossem vocês, eu teria desistido de escrever crônicas...rsrsrs.... Ana

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …